O CSI brasileiro
Kátia Arima, de INFO Online
12 de fevereiro de 2009
Três homens anunciam o assalto a um restaurante no bairro do Itaim, em São Paulo. Apontam suas armas, rendem clientes e funcionários e levam o dinheiro do caixa. Depois, caminham disfarçadamente pela Avenida Hélio Pellegrino, sem imaginar que estão sendo acompanhados por uma câmera IP. Na central de videomonitoramento da PM, um policial recebe as imagens em alta resolução de 149 câmeras em tempo real, via rádio. Ele empunha um joystick que movimenta a câmera em todos os ângulos e dá um zoom com alcance de até 3 quilômetros, sem perda de qualidade. Consegue identificar os suspeitos de acordo com a descrição feita pelas vítimas pelo telefone de emergência 190. Então, o policial aciona por rádio digital a viatura mais próxima do lugar, equipada com GPS. O carro chega em 3 minutos ao local, a tempo de deter os suspeitos e apreender as armas.
Sequestros, furtos, tráfico de drogas e outros crimes, como o assalto aí de cima, ocorrido em novembro, são flagrados diariamente pelo olhar digital das polícias de diversas cidades brasileiras. São Paulo, Manaus, Rio de Janeiro e as pequenas São Leopoldo (RS) e São José dos Pinhais (PR) estão entre os benchmarks. “Conseguimos uma redução de 70% da criminalidade nos locais monitorados”, afirma Jânio Costa de Souza, diretor do centro integrado de operações de segurança do governo do Amazonas. Na cidade de Manaus, 232 câmeras IP com zoom de 36 vezes ajudam a polícia a vigiar a cidade, observadas por 48 agentes sociais. “Uma câmera faz o trabalho de 20 policiais no local”, diz Ari Gomes, coordenador da central de monitoramento. No mês passado, as câmeras deram suporte a diversas ações da polícia, como no flagrante de quatro homens que tentavam roubar uma fábrica de refrigerantes. Elas estão acompanhadas de alto-falantes e microfones, que permitem interagir com a população.
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Na internacionalmente famosa praia de Copacabana, a criminalidade caiu 70% em virtude do uso de 14 câmeras IP, afirma Cláudio Almeida Neto, superintendente de comando e controle da Secretaria de Segurança do Estado do Rio de Janeiro. “Hoje a orla marítima da cidade é toda monitorada”, diz. No Rio, há 263 câmeras IP, com zoom de 32 vezes, que mandam imagens via rádio para os batalhões.
Um criminoso não consegue tirar uma carteira de identidade no Rio Grande do Sul. As câmeras fotográficas usadas para confecção dos RGs incorporam um sistema de reconhecimento facial que checa se a pessoa está no banco de dados de criminosos. “A tecnologia pode ser utilizada em estádios, por exemplo, para conferir se os torcedores são procurados pela polícia”, diz Marcos Flohr, presidente da Cognitec no Brasil, empresa responsável por essa tecnologia de reconhecimento facial. Segundo ele, em apenas um segundo, o sistema é capaz de varrer um banco de dados de fotos de 600 mil pessoas. As câmeras de segurança são apenas uma das ferramentas que compõe o aparato hi-tech que dá suporte a policiais brasileiros. Com o apoio de bancos de dados digitalizados, recheados de informações, e de sistemas que cruzam dados de ações da polícia e dos criminosos, eles podem agir de forma mais rápida e estratégica. “Para nós, dez segundos fazem diferença. Por isso, o uso da tecnologia é tão importante, pois ajuda a livrar os policiais de trabalhos que podem ser automatizados”, diz o Alfredo Deak Júnior, chefe do Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) de São Paulo.
Em plena polêmica da nova lei do call center, o atendimento do telefone de emergência 190 é um exemplo a ser seguido: 96% das ligações são atendidas no primeiro toque. Diariamente, até 70 policiais do turno recebem cerca de 35 mil chamadas — 25% são trotes e precisam ser rapidamente descartados. Um supervisor controla o tempo de atendimento das ligações, que não deve passar de 1 minuto, e um auditor tem a liberdade de ouvir o atendimento para fazer a avaliação do serviço. Para ajudar a desafogar o serviço em momentos críticos, serão instalados seis painéis LCD na sala do call center e na lanchonete para emitir alertas.
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As ocorrências recebidas pelo 190 vão dar na tela de um dos 303 policiais do setor de despacho de patrulhas. Cada um deles trabalha diante de três monitores: um deles exibe uma lista das chamadas de rádio digital, a tela central exibe o sistema que controla o fluxo da ação da PM e ao lado esquerdo fica o monitor que dá acesso a mapas e bancos de dados, civis e criminais, que vai fornecer assistência aos colegas que estão em campo. O sistema prioriza os casos mais graves e automaticamente indica a viatura que está mais próxima do local da ocorrência — dos 1 800 veículos da PM de São Paulo, 580 estão equipados com GPS e computador de bordo (notebook ou PDA). “Com esta tecnologia, podemos ter mais policiais se dedicando ao que realmente interessa, que é o trabalho na rua, nossa prioridade”, afirma Deak.
Em 2009, o aparato tecnológico da PM de São Paulo ganhará reforços. Em março, um helicóptero vai receber uma câmera com infravermelho, capaz de seguir um alvo mesmo no escuro. Duas outras câmeras sem fio acompanharão os policiais em solo. Três torres vão receber as imagens por rádio e enviarão em tempo real para a central de monitoramento e para uma van que estará no local, que terá exibição dos vídeos em alta definição, em tempo real. “Será nosso kit Jack Bauer”, diz Deak, referindo-se ao personagem do seriado 24 Horas. O Copom receberá também uma sala de gerenciamento de crises, para que a cúpula da PM acompanhe as imagens em um videowall e possa comandar suas equipes por rádio. Serão gastos 11 milhões de reais nas três câmeras sem fio e em mais 160 câmeras IP.
O mapa do crime
Ferramentas de georreferenciamento como a MapInfo e a Geomídia são utilizados pela PM de São Paulo para traçar estratégias de combate contra o crime. “Cada passo da polícia é registrado, o que permite planejar ações”, diz Deak. A tecnologia é adotada também pelo Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Oito batalhões da Polícia Militar do RJ já têm acesso ao sistema, chamado de Observatório de Análise Criminal, que apresenta no mapa as ocorrências dos últimos 30 dias, recebidas pelo serviço telefônico 190.
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Pela intranet, os integrantes da PM de São Paulo podem acessar o Copom Online, software que mostra no mapa as ocorrências, filtradas por data e tipo de crime. “É possível acompanhar onde estão sendo feitas as ocorrências e movimentar as viaturas conforme a necessidade”, diz Deak. Outra ferramenta online disponível é o Fotocrim, que traz a ficha completa e fotos de cerca de 480 mil criminosos.
Todos os indiciados pela Polícia Civil de São Paulo são fichados no sistema Phoenix, que mantém uma ficha completa da pessoa, acompanhada de arquivos de fotos, voz e impressões digitais – quando o indiciado é levado ao distrito policial, são registradas suas medidas biométricas da face, que são únicas para cada indivíduo. “Isso pode ajudar confirmar a identidade de um criminoso”, diz Waldomiro Pompiani Milanesi, delegado da divisão de tecnologia de informação da Polícia Civil de São Paulo. Em 2007, 403 vítimas conseguiram identificar os autores do crime usando o sistema. “Antes do Phoenix, a vítima tinha de folhear álbuns de papel com milhares de fotos de criminosos para fazer a identificação.”
O Phoenix está presente em 69 seccionais da Polícia Civil de São Paulo e mantém 100 mil cadastros de criminosos. Para evitar o deslocamento de detentos de alta periculosidade ou para chegar até vítimas que não podem se deslocar há duas versões móveis: uma van equipada com o sistema e 55 minilases, maletas que vêm com um notebook com o software instalado e um scanner de impressões digitais.
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O SMS entrega o assassino
Analisar a caligrafia para identificar um criminoso pode virar coisa do passado. Agora, dá para encontrar até o autor de uma mensagem de SMS. A técnica, desenvolvida pelo Centro de Linguística Forense da Aston University, no Reino Unido, foi adotada para apresentar provas contra David Hodgson, condenado em fevereiro por assassinato de sua amante, a inglesa Jenny Nicholl. A análise leva em consideração diversos aspectos da mensagem de texto como ortografia, abreviatura e escolhas de palavras.
Retrato falado
Para não depender somente de seus desenhistas, a Polícia Civil de São Paulo adotou o Photonet, software para confecção de retratos falados, que são instalados também nas minilases. “Essas maletas são muito utilizadas em eventos grandes como jogos de futebol e shows, para obter a descrição feita por vítimas”, diz Milanesi. É possível obter uma imagem do rosto descrito em 3D, considerando 59 características físicas. O Maníaco da Cantareira, acusado de matar dois garotos na Serra da Cantareira, em São Paulo, em 2007, teve seu retrato falado desenvolvido no Photonet, de acordo com desenhos feitos por três vítimas.
A digitalização dos boletins de ocorrência ainda está em curso, mas já traz benefícios à Polícia Civil de São Paulo. Atualmente 490 unidades policiais, em 62 municípios contam com o Registro Digital de Ocorrências (RDO). Em 2009, mais 27 municípios receberão o RDO. As informações são usadas como fonte para o software Infocrim, que representa os dados em um mapa e permite à polícia fazer uma análise para criar estratégias. Pela intranet, na unidade policial ou nas 320 viaturas equipadas com computador de bordo, é possível acessar o Alfa, que mantém 3,5 milhões de prontuários criminais, e o BIC Eletrônico, que centraliza os boletins de identificação criminal. “Hoje a gente já vai para a rua sabendo detalhes sobre a pessoa que vamos procurar”, diz o delegado.
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Assim como o FBI, a Polícia Civil de São Paulo e a Polícia Federal brasileira já têm um sistema de identificação de impressões digitais automatizado. O banco de dados da PF mantém 1 milhão de fichas dactilares, enquanto a Polícia Civil de São Paulo contabiliza 25 milhões de registros, sendo que 3,5 milhões são criminais. Ainda está longe do volume de dados do FBI, que já coletou 55 milhões de fichas dactilares. Outra ferramenta utilizada com frequencia pela PF é o Guardião, sistema de interceptação telefônica capaz de monitorar até 400 ligações simultaneamente, adotado também pelas polícias do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Câmeras com ouvidos
Imagine uma câmera de segurança capaz de identificar um barulho de vidro estilhaçado, de gritos ou de explosões. Ela é capaz de se voltar imediatamente para o lado de onde veio o ruído para gravar o vídeo e enviar um alerta para o setor de segurança. Esse tipo de equipamento está sendo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, e é capaz de analisar o formato das ondas sonoras para identificar o tipo de ruído.
Da ficção para as ruas
Quando o crime parece perfeito, peritos vão atrás das pistas munidos de equipamentos de última geração como o Crime Scope, utilizado pelo Instituto de Criminalística de São Paulo (IC). O equipamento emite luz de vários comprimentos de onda que deixam luminescente materiais orgânicos como sangue, suor, pelos e sêmen. “Assim, é possível encontrar vestígios que não são visíveis a olho nu e descobrir qual é a substância”, afirma José Antônio de Moraes, diretor do núcleo de perícias de crimes contra a pessoa do IC. Na investigação da morte da menina Isabella Nardoni, o Crime Scope serviu para descobrir que havia sangue no carro da família. Depois, uma análise da amostra de sangue, permitiu concluir que o perfil genético era mesmo da garota.
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As humildes instalações do IC não chegam perto do cenário sofisticado retratado no seriado CSI, mas abrigam 1 100 peritos equipados com modernos equipamentos dedicados a esmiuçar detalhes que podem trazer pistas para a investigação policial. Eles encaram tarefas diversas como a análise com um microscópio de comparação balística para saber de qual arma veio um determinado projétil, definição do perfil genético de uma pequena amostra de sangue com equipamentos de alto poder computacional ou verificação da substância tóxica colocada em um alimento que envenenou uma vítima.
A perita criminal Lucilena Martins Kayo comanda máquinas chamadas cromatógrafos, que separam as substâncias de uma mistura para detectar a presença de drogas ou medicamentos, e um espectômetro de massa que recorre a um banco de dados de substâncias armazenado em um computador, para identificar qual é a substância em questão. Em 2008, o laboratório recebeu mais de 5 800 peças para análise, como bombons recheados com veneno. “Não daríamos conta de todo esse trabalho sem a ajuda da tecnologia.”
No futuro, será possível ver o desenho do rosto de uma pessoa em 3D com base em uma gota de saliva ou um fio de cabelo, por exemplo. Universidades de todo o mundo, entre elas a USP de Ribeirão Preto, estudam o assunto. “Estamos pesquisando a relação das milhares de medidas da face com o DNA humano, num projeto que deve ser concluído em 2011”, diz o professor Marco Aurélio Guimarães, coordenador da iniciativa.