A saga do Homem-multitarefa

Sandra Carvalho, do Grupo INFO 27 de abril de 2009
A saga do Homem-multitarefa
iPhone e Cia. levam multitasking ao limite?

Leia também:
Lembra quando apenas dirigir e falar ao celular era considerado perigoso? Essa foi a pré-história do homem-multitarefa. Está provado, por a+b, que pegar na direção de um carro e ficar batendo papo por celular é uma combinação indigesta, podendo ser fatal. Todas as estatísticas mostram a relação entre a direção, o celular e os acidentes de trânsito. Todas, há pelo menos dez anos. O que dirá então de dirigir, mudar a playlist do iPod, ler o RSS no celular, abrir o vidro para pegar a última edição do Metro, tomar uns goles de Coca-Cola, dar uma nova olhada na agenda, tudo ao mesmo tempo? E há quem fume, converse com o cachorro, passe batom, levante o dedo do meio para o motorista folgado da pista ao lado... Quem não for multitarefa hoje em dia está perdido.

Pera aí... Multitarefa? Computadores foram feitos para processamento paralelo — foram moldados por nós para fazerem múltiplas coisas ao mesmo tempo. O nosso cérebro, dizem os cientistas desde os tempos de William James, tem vocação para focar em uma coisa de cada vez. A ideia predominante, até hoje, é que não fazemos nada simultaneamente. Prestamos atenção primeiro numa coisa, em seguida em outra. Nos esquemas multitarefa, alternamos alucinadamente entre diferentes ações. É quase consenso que, assim, rendemos menos, embora tenhamos a ilusão de estarmos produzindo mais.
Comentários
  • Parabenizo a Sra. Sandra pela matéria escrita. Realmente hoje mais do que nunca o homem multitarefa está presente em todos os locais,e, se você não se disponibilizar a ser um, não se enquadrará em grandes empresas. Porém, não acho que seja uma evolução como questionou o colega acima, pois haverá uma hora que o seres humanos terão que parar e ter a ciência que não dá para fazer tudo, como está sendo cobrando nos atuais tempos. Os grandes cientistas, filósofos, meros pensadores, aqueles que se destacaram na história, não foram homens multitarefas, eles tiveram concentração apenas em uma coisa, e foram os melhores naquilo que sabiam fazer. A humanidade perde, ao meu ponto de vista, com tanta evolução que estamos tendo. Cada vez mais os vínculos com as pessoas se tornam mais distantes, pois o que parece estar tão próximo ao nosso mundo, na verdade, está longe. Quem hoje em dia recebe uma visita, pessoalmente, de um amigo por exemplo para dizer que está com saudades? raridade, o seu amigo de manda um "oi" por sms, msn, e-mail, orkut, enfim, esse mesmo amigo está muito ocupado, assim como você, realizando mil funções, para sobreviver no mundo da globalização.
    enviado por: Andresa Appolinário Neves em 08/05/2009 - 11:20
  • Cara, eu já trabalho em multitarefa a uns 5 anos: o meu hipocampo deve estar atrofiado e estriato deve estar do tamanho de um bonde. Será que os grandes gênios teriam tempo de mudar a ciência se vivessem em multitarefa como a gente ? A questão é: isso é involução ou evolução ?
    enviado por: JOSIR CARDOSO GOMES em 04/05/2009 - 19:28

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A saga do Homem-multitarefa

Sandra Carvalho, do Grupo INFO

27 de abril de 2009


Lembra quando apenas dirigir e falar ao celular era considerado perigoso? Essa foi a pré-história do homem-multitarefa. Está provado, por a+b, que pegar na direção de um carro e ficar batendo papo por celular é uma combinação indigesta, podendo ser fatal. Todas as estatísticas mostram a relação entre a direção, o celular e os acidentes de trânsito. Todas, há pelo menos dez anos. O que dirá então de dirigir, mudar a playlist do iPod, ler o RSS no celular, abrir o vidro para pegar a última edição do Metro, tomar uns goles de Coca-Cola, dar uma nova olhada na agenda, tudo ao mesmo tempo? E há quem fume, converse com o cachorro, passe batom, levante o dedo do meio para o motorista folgado da pista ao lado... Quem não for multitarefa hoje em dia está perdido.

Pera aí... Multitarefa? Computadores foram feitos para processamento paralelo — foram moldados por nós para fazerem múltiplas coisas ao mesmo tempo. O nosso cérebro, dizem os cientistas desde os tempos de William James, tem vocação para focar em uma coisa de cada vez. A ideia predominante, até hoje, é que não fazemos nada simultaneamente. Prestamos atenção primeiro numa coisa, em seguida em outra. Nos esquemas multitarefa, alternamos alucinadamente entre diferentes ações. É quase consenso que, assim, rendemos menos, embora tenhamos a ilusão de estarmos produzindo mais.
|quebra|
Será? Um professor de Psicologia da Universidade da Califórnia, em Los Angeles, Russel Poldrack, chegou a afirmar que até o que aprendemos com a atenção dividida é diferente do que aprendemos com o foco total em algo. Escaneando o cérebro, ele diz ter notado que, numa situação multitarefa, a área do cérebro mobilizada quando se aprende algo é a do estriato. Sem qualquer distração, a área requisitada é outra: o hipocampo. E daí? Daí que a informação armazenada no hipocampo pode ser requisitada com muito mais facilidade.

Como para cada pesquisa acadêmica sempre existe outra dizendo exatamente o contrário, David Meyer, da Universidade de Michigan, já defende a possibilidade de o cérebro se adaptar a situações multitarefa, alternando entre uma ação e outra de forma cada vez mais produtiva. Claro que, em meio à tensão de tantas solicitações, a carga de adrenalina aumenta, o stress também, e a memória de curto prazo sofre mais...
|quebra|
Divergências da neurociência à parte, o fato é que, para o bem ou para o mal, todos nos tornamos multitarefa para sobreviver num dia em que 36 horas têm de caber em 24. No escritório, quem pode se dar ao luxo de escutar conversa mole no telefone sem checar simultaneamente o MSN, encaminhar um e-mail mais urgente, comparecer no Twitter ou desbastar a pilha da correspondência em papel que insiste em chegar só para aumentar o lixo da reciclagem? E quem pode se enfiar em reuniões intermináveis sem levar o notebook? Não é quase obrigatório carregar o note e balançar a cabeça mecanicamente, em sinal de concordância, enquanto se manda ver no teclado, nas tarefas urgentes que não podem esperar mais que alguns segundos? Talvez, se fosse vivo, Darwin apostasse no homem-multitarefa...