Como ganhar dinheiro em tempos de crise
Bruno Vieira Feijó, da INFO
25 de fevereiro de 2009
Os amigos Daniel Heise, Alexandre Bernardoni, Gustavo Zaiantchick e Giovanni Cervieri estavam na casa dos 20 anos quando fundaram a Direct Talk em 2000. Precisando de capital para crescer, venderam 40% da companhia a quatro fundos de investimento. O produto da empresa, um sistema unificado de atendimento ao consumidor — que junta e-mails, telefonemas e chats — foi adotado por call centers e companhias aéreas. Em 2008, a crise econômica deu as caras, mas a meta de crescimento foi batida com uma receita de 12 milhões de reais — 50% a mais que em 2007.
Veja também: 12 negócios para ganhar R$ 1 milhão
A Direct Talk é um exemplo de empresa brasileira bancada pelo capital de risco. Agora, mesmo com um cenário econômico turbulento, os quatro sócios contam com um reforço dos investidores. Em 2009, vence o prazo para que um dos fundos, a DGF, opte por sair ou continuar como sócio. “Existia um movimento de saída. A questão é que agora a noiva ficou mais atraente”, diz Daniel Heise. O quarteto planeja a saída total dos fundos apenas por volta de 2012.
|quebra|
Apesar da crise de liquidez, os fundos de investimento ainda são uma fonte de suporte para as startups. Segundo o Centro de Estudos em Private Equity e Venture Capital da FGV (GVcepe), desde 1999 até hoje os fundos investiram 26,6 bilhões de dólares no país, e estão em fase de captação para mais 8,6 bilhões de dólares. Se os bancos estão mais rígidos para conceder empréstimos, os fundos têm dinheiro para investir. “É claro que a cautela é preponderante na escolha das empresas. Mas a busca por inovações não parou, continuamos atrás de bons negócios”, diz Carlos Eduardo Guillaume, diretor-executivo da Confrapar, que investe em empresas nascentes de TI.
Do VoIP à virtualização
A Confrapar avalia empresas de tecnologia em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais e pretende fechar dois acordos em janeiro. “O empreendedor deve aproveitar os solavancos do mercado para procurar espaços”, diz Guillaume. E as oportunidades estão aí: em busca de eficiência e de redução de custos, as corporações investem mais em gestão de processos. “Vantagem para as tecnologias como virtualização, VoIP e software de análise automatizada de risco”, diz Frederico Greve, sócio-diretor da DGF, fundo em fase avançada de análise de quatro empresas.
|quebra|
A empresa com fome de capital precisa mais do que grande potencial em inovação e de retorno financeiro para atrair os investidores. “Um dos segredos é constituir uma sociedade com as melhores práticas em governança desde a nossa fundação, com um conselho de administração formado por executivos experientes”, afirma Daniel Heise, da Direct Talk. Um dos quatro fundos que investem na empresa é o Rio Bravo, do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. Um investidor anjo, pessoa física, também ajudou a levantar capital.
Heise recomenda aos interessados consultar empreendedores que receberam investimento dos fundos com que estão negociando. “É uma prática comum, já recebi vários empresários para conversar. O empreendedor também deve fazer a própria due dilligence (Investigação feita por uma das partes da negociação sobre os negócios da outra) sobre o investidor”. Guillaume, da Confrapar, concorda: “Para haver empatia, o ideal é que o investidor seja especializado naquele negócio. Se sua empresa vende software, procure quem sabe testar um programa, que tenha intimidade com a venda de licenças”.
Com que fundo eu vou?
Para quem procura investidores, o primeiro passo é identificar o tipo de fundo mais adequado à fase em que a empresa se encontra. Em ordem crescente de valor de investimento e estágio, há os investidores anjos e os fundos de capital semente, de capital de risco e de private equity (veja quadro). Os dois primeiros investem em empresas iniciantes, e os dois últimos, apenas naquelas que já têm um faturamento significativo — a DGF exige receita anual de 10 milhões de reais — e topam vender o controle acionário.
quebra|
Mas o capital de risco não serve para todas as empresas. Se o interesse essencial é dinheiro, os bancos podem ser a melhor opção. “Private equity é um conjunto de investidores que se tornam sócios da empresa e influem para aditivar sua profissionalização, transparência e relacionamento com o mercado. O fundo participa das reuniões e até indica funcionários para ocupar os cargos de alto-escalão”, diz Mario Malta, associado sênior da Advent no Brasil, que busca empresas com faturamento anual mínimo de 100 milhões de reais. O investimento de risco tem o objetivo primordial de gerar lucro. “A idéia é fazer a empresa crescer e revendê-la com lucro exponencial para os grandes players do mercado”, diz Sidney Chameh, sócio-fundador da DGF.
Em setembro, a brasileira Compera nTime, especializada em marketing e mídia para celulares, foi objeto de uma negociação que gerou bons lucros. Comprou a concorrente Movile e anunciou uma troca de sócios: saiu o fundo brasileiro Rio Bravo e entrou a sul-africana MIH Holdings (do conglomerado de mídia Naspers) – os valores não foram revelados. A MIH ganhou um novo braço tecnológico, a Compera mais dinheiro para financiar a expansão internacional, e a Rio Bravo vendeu sua participação com 400% de lucro. Nada mau para uma empresa que nasceu na incubadora da Unicamp.