Blogando em um mundo livre
Katherine Druckman - da INFO
28 de outubro de 2008
A menos que você tenha passado os últimos anos vivendo escondido numa caverna, já deve ter ouvido falar do WordPress. É uma das mais populares plataformas para blogs do mundo, 100% open source. Está por trás de blogs pessoais e corporativos, inclusive para grandes instituições como a Universidade de Harvard.
A comunidade do WordPress é superlativa tanto em tamanho como em entusiasmo, e muitas pessoas ganham a vida participando dela — e propagando-a. Desde a sua estréia, em 2006, a plataforma ganhou força e o seu compromisso com o código aberto está mais firme do que nunca. Eu uso o WordPress e muitos dos meus amigos também. Por isso, vibrei por ter a oportunidade de conversar com o fundador da plataforma, Matt Mullenweg.
INFO - Para aqueles (poucos) que ainda não conhecem o WordPress, quais são as ferramentas que o diferenciam de outras plataformas para blogs?
Mullenweg - O WordPress almeja ser invisível. Se formos eficientes, você irá se esquecer completamente de que ele existe e poderá focar no que realmente importa: o conteúdo. Ele foi criado como uma ferramenta para blogs, mas os desenvolvedores perceberam que ele serve também como um CMS e que sua interface funciona bem com inúmeros tipos de usuários.
Desde o surgimento do WordPress, o papel dos blogs como meio de comunicação evoluiu rapidamente. De que forma essa evolução atingiu ou até superou suas expectativas?
A maior surpresa foi justamente quando o WordPress nasceu. O senso comum dizia que os blogs estavam saturados, porém não foi o que aconteceu. Também fiquei admirado com a maneira como a rich media transformou a maneira de blogar nos últimos anos. Afinal, somos uma plataforma de palavras. O nome é WordPress, não PhotoPress ou VideoPress. A palavra escrita ainda é a essência do que fazemos, mas a imaginação das pessoas foi capturada por podcasts, videocasts e fotologs.
Que conselhos você dá para quem tenta ampliar seus blogs no WordPress?
Você precisa de um servidor configurado para prover arquivos estáticos de forma eficiente, talvez com um proxy reverso. É necessário ter um bom banco de dados para lidar com o tamanho de seu conjunto de dados (a maioria dos blogs tem apenas alguns megabytes de dados). E, por fim, chegamos onde o núcleo do WordPress pode ser mais expandido (servimos mais de 140 milhões de usuários no mês passado). Existem plug-ins que podem diminuir a velocidade do site. Então é preciso ficar bastante atento à performance após a instalação de um novo plug-in.
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Vários sites estão fazendo muito sucesso usando o WordPress. É o caso do icanhascheezburger.com. Que outros blogs mais impressionaram você?
O Cheez é um dos meus favoritos. Assino mais de 300 blogs, então é uma tarefa difícil escolher os melhores. Mas, quanto à implementação, me chamam atenção os seguintes blogs:
• http://allthingsd.com, do The Wall Street Journal.
• http://particletree.com, uma revista de desenvolvimento web.
• http://autoshows.ford.com, que fala de carros-conceito da Ford.
• www.andyroddick.com, do jogador de tênis.
• http://71miles.com, um guia de viagens e um diretório.
• www.thinkvitamin.com, outra excelente revista sobre assuntos de web.
• www.futureofthebook.org/gamertheory, um livro interativo de vanguarda.
• quanto ao conteúdo, gosto mais desses:
• http://gigaom.com
• http://politicalticker.blogs.cnn.com
• http://stuffwhitepeoplelike.WordPress.com
• http://zeldman.com
• www.svextra.com/blogs/gmsv
• http://diveintomark.org
E há muitos outros, mas vou parar por aqui.
Recentemente houve uma polêmica sobre a competição com o Movable Type. Você reagiu como um enérgico defensor do código aberto. Como isso afeta seu papel na blogosfera?
Eu me considero um entusiasta do open source. Gostaria de pensar que a capacidade de competir no mercado e o sucesso do WordPress levaram o Movable Type a mudar para uma licença de código aberto. Acreditava que quando éramos open source e eles, proprietários, as pessoas optavam pelo WordPress por causa de sua licença e da liberdade. Mas, desde que eles mudaram para o código aberto, nosso crescimento não diminuiu. Isso me leva a crer que o que faz a diferença são as funcionalidades e a grande comunidade do WordPress.
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Freqüentemente você reitera seu compromisso com os ideais do código aberto e com a licença GPL. Como isso afeta o desenvolvimento de sua empresa, a Automattic?
Quando eu decidi criar a Automattic enfrentei um dilema. Em nossa sociedade, parece que a maneira mais eficiente de gerar impacto é trabalhar dentro de uma estrutura voltada ao lucro. Mas, ao mesmo tempo, tinha visto exemplos de empresas de código aberto sufocando as comunidades onde foram originadas. Cheguei à conclusão de que, se mantivesse o WordPress como uma entidade independente da Automattic e baseasse nosso negócio em código GLP, criaria um equilíbrio capaz de suprir as necessidades da empresa e os interesses da comunidade. Não quero que o WordPress seja uma companhia de um projeto só. Portanto, ao separar a área que visa os lucros da área open source, abrimos um grande campo de trabalho para outras empresas que queiram usar o WordPress. Essa foi a solução que eu encontrei para garantir que os princípios nos quais eu acredito resistissem ao meu envolvimento e ao controle de ambas as organizações (mas eu ainda olho para os dois lados quando atravesso a rua).
O spam incomoda todos que interagem com a web, e o projeto Akismet tem sido uma importante arma para combatê-lo. O Akismet possui código fechado, mas oferece um plug-in open source, e isso tem provocado críticas.
O que aconteceu foi que tenho criado plug-ins anti-spam há algum tempo. Cada atualização funcionava por períodos cada vez mais curtos, até que chegou um ponto em que os spammers levavam poucas horas para descobrir como desviar dessas barreiras. O Akismet foi desenvolvido com o objetivo de quebrar esse ciclo e fornecer uma solução permanente contra o spam. A forma que eu encontrei para isso foi um serviço centralizado que pudesse se adaptar às táticas dos spammers na mesma velocidade em que elas eram elaboradas. Na época, a questão era decidir a favor do código aberto para o Akismet ou a favor da solução para os problemas com spam. Optamos pelo combate aos spammers e a comunidade nos apoiou.
Como você equilibra a vontade de acrescentar ferramentas com os riscos de segurança que isso implica?
Bem, segurança é sempre uma prioridade em relação a novos desenvolvimentos. É uma postura que deve permear todas as suas atitudes. Não sou desconfiado, por isso no começo era difícil para mim entender como indivíduos com más intenções conseguiam explorar um sistema. Quando um problema legítimo aparece, colocamos a solução para ele nas mãos dos usuários o mais rápido possível. Conforme a popularidade do WordPress foi aumentando, nos tornamos um alvo, e, com o passar do tempo, a natureza das vulnerabilidades ficou menos maliciosa.
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O WordPress está indo para o seu quinto ano como aplicativo. No início, foi tomada alguma decisão da qual você se arrepende hoje? No que você gostaria de mexer?
Com certeza, toneladas de coisas! Mas sei que é um erro tentar reformar um produto muitas vezes. Alguns até sobrevivem, como Mozilla/Phoenix/Firefox que emergiu das cinzas. Porém, o mais comum é que quando tentam reescrever um programa é sinal de que o declínio está começando. Nossa abordagem tem mais a ver com novas versões. Se comparar a 1.0 com a 2.5, elas são como a noite e o dia, a transformação ocorreu bit por bit. E nos esforçamos para manter o máximo de compatibilidade entre elas.
Como está organizado o desenvolvimento no WordPress? Quem decide qual a hora de chamá-la de 2.5?
Minha função é BDFL (Benevolent Dictator for Life), há mais quatro conselheiros e dezenas e dezenas de desenvolvedores que contribuem. Colocar um produto no mercado é a parte mais complicada, porque a tendência é você seguir em um ciclo de busca pela perfeição de cada detalhe que não acaba nunca. Foi o que aconteceu entre as versões 2.0 e 2.1. Agora estamos mais parecidos com o Ubuntu em relação às estréias, porque nos baseamos em períodos de tempo. A disciplina melhorou o projeto. Os lançamentos estão tão regulares quanto antigamente, mas estamos colocando novas ferramentas nas mãos dos usuários cerca de três vezes por ano, em vez de uma só. É ótimo poder preparar atualizações 20 vezes por dia para um ambiente homogêneo, onde você controla todas as variáveis. Mas você fica mal-acostumado.
O WordPress dá suporte a plug-ins — alguns modestos, outros elevam a plataforma a novos patamares. Existe um favorito?
Os plug-ins dos quais eu gosto acabam sendo integrados ao produto. Os principais plug-ins do meu site são o Akismet e o WordPress.com Stats, ambos da Automattic. Adoraria ver uma ferramenta que permitisse aos leitores de blogs sugerir tags ou categorias, que então seriam moderadas pelo autor. Também seria fantástico se eu pudesse encaminhar o usuário para um diretório local do servidor ou para uma URL onde ele pudesse sugar imagens, como se faz em galerias. Aposto que os dois já existem. Com tantos milhares de plug-ins, às vezes o maior desafio é encontrar o que você procura.
Que novidades devemos esperar do WordPress 2.6 ou 3.0?
As melhores idéias surgem próximas à estréia de uma versão, porque sua mente está no “modo lançamento”, então você tem milhares de grandes idéias que poderiam se transformar em... Mas você sabe que não pode porque isso exige um novo ciclo de testes. Tenho uma lista com umas 20 sugestões para a versão 2.6 e sei que os desenvolvedores têm outras. A comunidade também propõe alterações e vota em nossos fóruns. Faremos uma seleção e um novo ciclo vai começar.