Bye bye Brasil
Lucia Reggiani - da INFO
29 de setembro de 2008
Leve muitas escovas de dentes, xampus, sabonetes e chocolates. A recomendação deu arrepios em Leandro Leite, que acabava de aceitar trabalhar na construção de um sistema de controle financeiro para o governo de Angola. O país saía de uma guerra, faltava de tudo, sobrava pobreza. Mesmo assim, Leandro, graduado em Administração com Ênfase em Análise de Sistemas pela Unip, ficou em Angola por três anos. Voltou há um mês e, com o currículo turbinado, conseguiu um belo emprego como analista de negócios.
A experiência profissional no exterior dá um upgrade e tanto no currículo. No mínimo, indica flexibilidade para atuar em situações diferentes e abertura a novos conhecimentos, metodologias e projetos. Em alguns casos, como o de Rafael Adami, desperta o espírito empreendedor. Depois de um ano na fábrica de software da Ericsson em Athlone, Irlanda, o engenheiro eletrônico formado pela Escola Mauá montou sua empresa no Brasil.
O caminho do aeroporto
• Networking - é da rede de amizades que surgem as indicações para as vagas
• Idiomas - nenhuma boa empresa contrata quem não sabe a língua do país
• Experiência - o candidato deve ter até 35 anos e experiência profissional; pós e especialização ajudam
• Paciência - o processo de contratação leva de 2 a 8 meses, dada a burocracia
• Cuidado - cheque a idoneidade da empresa que contrata e só deixe o país com contrato assinado
Muitos estão na segunda viagem. Luís Fernando Marques Rosa e Danilo Nóbrega da Cunha inauguraram o passaporte num estágio em Portugal, assim que se formaram engenheiros da computação na Unicamp. Voltaram contratados pela Portugal Telecom.
Três anos depois, Danilo foi fazer mestrado em gerenciamento de sistemas em Estocolmo, Suécia, na Royal Institute of Technology. Lá, conseguiu a chance de realizar seu projeto de tese com sistemas de reserva de passagens aéreas na francesa Amadeus, onde trabalha há oito meses.
Luís Fernando preferiu deixar seu currículo no site de empregos Monster. No começo de 2006, uma head hunter inglesa ligou, oferecendo uma posição em Dubai, nos Emirados Árabes. Luisão, como os amigos o chamam, está em Dubai há seis meses, trabalhando na DU, empresa de telecomunicações local.
|quebra|
Como ir
Boa parte das oportunidades, aqui ou no exterior, aparece por indicação de alguém. Mas muitas vagas interessantes aparecem nas empresas e entidades especializadas em despachar brasileiros para o mundo. Uma delas é a Central de Intercâmbio, que em 2006 mandou para o exterior perto de 2 000 pessoas, 30% mais do que em 2005. A CI lida com programas de estágio de 2 a 18 meses nos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia e de trabalho em empresas americanas. Em janeiro, tinha 17 vagas, com salários a partir de 1 500 dólares. “O programa funciona o ano inteiro, mas há mais oferta no início e em agosto e setembro”, diz Gisele Mainardi, gerente de produto da CI.
Com atuação internacional mais recente, o CIEE (Centro de Integração Empresa-Escola) é parceiro de empresas de recrutamento da Itália e do Japão na colocação de recém-formados. Para a Itália, 250 vagas estavam em aberto em janeiro, com salários de 1 500 a 2 000 euros por mês, em contratos de um ano, renováveis por mais um. Já o Japão quer engenheiros e profissionais de TI descendentes de japoneses. Os mais especializados não precisam começar nas linhas de produção e ganham entre 2 000 e 4 000 dólares mensais.
Quem quer ir para a Europa deve considerar os estágios remunerados em períodos de 2 a 18 meses, coordenados pelas tradicionais IAESTE e AIESEC. Aliás, foi por intermédio da AIESEC que Danilo e Luisão foram para Portugal.
Blog do Luisão
As aventuras e desventuras de um brasileiro do ramo dos bits e bytes em Dubai são contadas com muito bom humor por Luís Fernando Marques Rosa num blog. A foto de uma bicicleta estacionada sob a placa de trânsito de camelos é uma das que ilustram as crônicas sobre os mal-entendidos da adaptação. Há também dicas para quem vai para lá. O endereço é http://dubaifutebolclube
.blogspot.com.br.
Cadastrar currículos nos sites de emprego internacionais é uma opção, mas depende de sorte. Nos nacionais, as vagas para o exterior são escassas — no ApInfo, das 60 mil veiculadas em 2006, apenas 1% era para fora do país. Vale também procurar os consulados dos países de interesse. O Canadá, por exemplo, incentiva a imigração.
Vantagens & Desvantagens
Alimentação, moradia e transporte local costumam fazer parte do pacote de benefícios. Leandro e Rafael, por exemplo, contaram com ampla ajuda de custos, o que lhes permitiu poupar boa parte dos salários em moeda forte. Mas a bagagem de volta traz mais do que dinheiro. Aprendem-se idiomas, outras metodologias de trabalho, como funcionam as empresas fora do Brasil, ampliam-se as redes de contatos e a visão de mundo, encarando as boas e más características de cada lugar. Danilo e Rafael queixam-se do inverno europeu. Luisão experimentou a sede em dias de jejum em Dubai, enquanto Leandro sofreu em Luanda por ser branco. Arrependimento? Só o de não ter ido antes.
Publicado originalmente na revista INFO de fevereiro de 2007