A carreira tá no mapa!
Ana Lúcia Moura Fé
8 de junho de 2009
A primeira viagem internacional de Rafael Martinez, de 24 anos, em setembro de 2008, foi longa, de São Paulo a Pequim. Na capital chinesa, o estudante de informática da Unicamp fez treinamento na Destinator Technologies, dona de um software de navegação para GPS. Martinez trabalhava como estagiário há quatro meses na Movix, especializada em aplicações de navegação. Com seis meses de casa, foi efetivado como analista de sistemas júnior. “Não imaginava que em pouco tempo estaria em projetos importantes, participando desde a análise de fontes de informação até sua inserção em um mapa digital”, diz.
A carreira rápida de Martinez é um exemplo de como a popularização de ferramentas de geotecnologia, como GPS e mapas online, vem acelerando a demanda de profissionais nessa área. “Trabalhar com mapas hoje é um grande negócio. As aplicações associadas a bancos de dados são incontáveis”, diz o engenheiro cartógrafo Emerson Zanon Granemann, que dirige o site MundoGEO. Segundo ele, serviços de localização são o mercado que mais cresce, por exigir constante atualização. Já as aplicações mais populares são as de celulares, navegadores e rastreamento com GPS.
O aquecimento do mercado contou com um empurrão de empresas como Google, Microsoft e Yahoo!, que atraíram o interesse dos internautas para seus serviços. Marcelo Quintella, gerente do Google Maps no Brasil, diz que cresce o número de empresas que incluem suas informações em mapas do Google e que passam a exigir mais sofisticação e personalização da ferramenta. “Nesse caso, elas precisam de um profissional apto a usar tanto o módulo gratuito de programação e base de dados quanto o API Premier, a versão paga do Google Maps.”
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Das 40 unidades da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), 30 usam recursos de geotecnologia. O maior mercado para esse pessoal é o governamental, na opinião de João Vila, pesquisador da Embrapa Informática Agropecuária. Mas ele também percebe que na área privada a demanda por profissionais é crescente. “Todo grande empreendimento no Brasil, seja uma indústria, seja uma fazenda que planeja desmatar áreas para pasto, precisa de licenciamento ambiental, que requer espacialização da propriedade e, portanto, profissional que entenda de geotecnologia”, diz.
A Sisgraph, que fornece câmera para fotos aéreas e aplicativo da americana Intergraph, contrata engenheiros e analistas de sistemas com forte embasamento em bancos de dados e linguagem de programação. A tarefa da equipe é customizar o aplicativo de acordo com as necessidades do cliente, integrando o software com outras tecnologias, como GPS, rádio e PABX. “Hoje, empresas de todos os tamanhos e segmentos estão abrindo os olhos para a importância de se ter informação gráfica no lugar de extensos relatórios”, diz Fernando Schmiegelow, diretor de marketing da Sisgraph.
Os salários em geotecnologia são compatíveis com o que o mercado paga em média para analistas de sistemas e engenheiros, conforme o nível do profissional – júnior, pleno ou sênior. De acordo com Wagner Pacífico, diretor de marketing da Multispectral, produtora de mapas digitais, o salário inicial de um engenheiro cartógrafo é de cerca de 2 500 reais, podendo atingir 8 mil reais no momento em que assume função de liderança. “Já os chamados cadistas, que em geral são profissionais de geografia ou processamento que desenham os mapas validados pelo cartógrafo, têm salários que variam de mil reais a 5 mil reais”, diz ele. Por sua vez, os programadores e analistas de sistemas ganham de 2 mil reais a 8 mil reais, dependendo da linguagem de programação usada. “Esses profissionais devem conhecer geometria analítica e linguagem orientada a objeto”, informa.
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Como se preparar
A Imagem, empresa especializada em sistemas de informação geográfica, criou há um ano a Academia Gis (sigla que significa Sistema de Informações Geográficas), com cursos de geoprocessamento, além de certificação internacional da Esri. Já foram treinados cerca de 1 700 profissionais, o que ainda não é o suficiente para atender a demanda do mercado, segundo Marcos Covre, diretor da Imagem. “Há casos de clientes que compraram nossas aplicações e acabaram contratando nossos funcionários, após desistirem de procurar gente apta a usar o sistema.”
Os profissionais da área mais disputados são o analista Gis e o desenvolvedor Gis. O analista trabalha mais para empresas usuárias, públicas e privadas, como a Petrobras, e secretarias do meio ambiente. Já o desenvolvedor Gis é o profissional de TI que, em geral, é contratado por empresas que fornecem software e serviços de mapas. Segundo Covre, um dos perfis mais valorizados e disputados é o engenheiro cartógrafo com especialização em desenvolvimento de software. “Ele tem a visão dos dois mundos”, diz.
Para quem está planejando se especializar por conta própria, os cursos de geotecnologia pesam no bolso. Na Academia Gis, a média dos preços é de 1 200 reais. Mas o gasto pode valer a pena: quem tem uma certificação internacional na área aumenta em até 53% as chances de conseguir um emprego, e recebe salários de 10% a 100% maiores em relação a profissionais que não ostentam o título, segundo a consultoria IDC. “A certificação atesta que o candidato está apto a desenvolver em qualquer plataforma”, diz Juliano de Carvalho Vitor, instrutor da Academia Gis.
Quem tem tempo e garra para ir além dos cursos de especialização, pode tentar uma pós-graduação na área. O mestrado em sensoriamento remoto do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) é um dos mais fortes do país, na opinião de João Vila, pesquisador da Embrapa. O curso funciona em São José dos Campos (SP), é gratuito e oferece diversas linhas de pesquisa, entre elas o geoprocessamento. A seleção é muito rigorosa. “Mas quem consegue entrar tem emprego garantido”, diz Maurício Alves Moreira, pesquisador do Inpe e coordenador do curso