
Em um dia escaldante do verão russo, ele finaliza mais uma verificação da quarta geração do TDSS (também conhecido como TDL-4 ou Alureon), uma ameaça do tipo cavalo de troia introduzida em 2008 e que, desde então, volta modificada e cada vez mais danosa. Descoberta em agosto do ano passado, sua quarta variante silenciosamente se instala no MBR, o registro-mestre de inicialização do disco rígido, inclusive em sistemas operacionais de 64 bits, transformando a máquina em um escravo. A partir de bancos de dados MySQL instalados na Lituânia, Moldávia e nos Estados Unidos, o TDSS contaminou, apenas nos três primeiros meses deste ano, 4 524 488 máquinas. Algo como 135 mil delas estavam em território brasileiro. “Esta é a ameaça mais sofisticada inventada até hoje”, escreveu Golovanov num relatório que fez sobre a praga.
Segundos depois, suas conclusões chegavam à tela do notebook Sony Vaio de Yevgeny Kaspersky, que estava a caminho do GP da Europa de Fórmula 1, em Valência, na Espanha. Fundador e principal executivo da Kaspersky Lab, ele é um dos patrocinadores da escuderia Ferrari e estampa sua marca nos carros do espanhol Fernando Alonso e do brasileiro Felipe Massa. Kaspersky nem franziu a testa quando recebeu a notícia vinda de seu QG na Rússia. “Como sou paranoico, há duas décadas minha questão predileta no trabalho é saber quais são as más notícias do dia”, disse Kaspersky a INFO.
Notícias ruins não faltam na rotina de Yevgeny ou Eugene, como prefere ser chamado nesses tempos de internacionalização de sua empresa. Nas últimas semanas, Eugene e seu batalhão de analistas trombaram com o rootkit TDSS, desmontaram o vírus Stuxnet, descrito por um engenheiro da Kaspersky Lab como “assustadoramente complexo”; receberam a notícia da fusão de atividades do ZeuS e do SpyEye, dois programas ilegais, concebidos para surrupiar senhas bancárias; analisaram os ataques ousados de hackers a empresas como a Sony, a invasão a domínios bem protegidos, como os e-mails da Nasa e da Adobe; e ainda acompanharam as ações do grupo LulzSec contra sites do governo brasileiro.