quinta-feira, 24 de junho de 2010 - 5:54

Processos, Metodologias e o Cérebro Humano

O cérebro humano é uma máquina fantástica, e dizer isso é basicamente uma redundância do termo. Porém existem muitas anedotas e misticismo quando se fala sobre ela.

Todos já discutiram alguma vez a separação da “Emoção” do “Raciocínio”. Desde os tempos de Platão, as emoções são vistas como algo que atrapalha o pensamento lógico. Pior ainda: a maioria das pessoas realmente acredita que, pelo menos nas decisões mais importantes, nós somos capazes de deixar as emoções de lado e pensar de acordo com o pensamento de economia clássica: baseados em fatos, evidências e custo-benefício.

Porém, a verdade é que na grande maioria das vezes não é assim que nos comportamos. Em uma situação cotidiana, quando vamos a um supermercado, dificilmente ficamos fazendo aritmética, considerando os ingredientes de cada produto, o valor nutricional. Normalmente olhamos para um produto e decidimos se compramos ou não baseados no que sentimos. No meio de dezenas de marcas diferentes para um mesmo tipo de produto, escolhemos baseado em experiências passadas, em algum acontecimento marcante, nas lembranças e assim por diante, e tudo em frações de segundos. Nós preferimos levar um produto “80% light” do que levar um “20% gorduroso”, apesar de ambas as frases dizerem a mesma coisa.

Antonio Damasio é um conhecido neurologista que estuda o cérebro e nosso comportamento. Ele estudou pacientes que literalmente perderam a capacidade de ter emoções por causa de danos cerebrais, seja por tumor, por problema genético. Poderíamos pensar, assim como o grande filósofo Platão, que uma pessoa sem emoções seria capaz de tomar as melhores decisões o tempo todo, uma vez que não seria influenciado por elas.

Porém, o que acontece é que sem as emoções essas pessoas não conseguem aprender. Qualquer decisão trivial se torna uma análise de custo-benefício. Decisões cotidianas como que roupa vestir, que canal de televisão assistir, tomar chá ou tomar café, todas as coisas mundanas que decidimos quase instantaneamente, esse tipo de paciente pode demorar até horas para chegar a uma conclusão.

Um fato que já sabemos é que todas as emoções, tristeza, compaixão, alegria, depressão, prazer, etc são reações químicas no cérebro, todas elas. Inclusive já sabemos como influenciar ou controlar muitas dessas emoções. Usuários de drogas sabem a sensação de prazer. Pessoas que tomam antidepressivos também. Todos químicos que atuam no cérebro e modificam nossas emoções. Esquizofrenia e Parkinsson, por outro lado, são danos nesse sistema químico.

Outro fato é que nosso cérebro foi feito – ou melhor dizendo, evoluiu – para aprender. Aprendemos com tentativa e erro. Aprendemos observando e inferindo padrões. As emoções fortemente influenciam nossas decisões. E isso não é ruim. Quando aprendemos algum padrão, dopamina é liberada no cérebro, criando uma sensação de prazer. Gostamos de descobrir o padrão das coisas, tentar prever eventos futuros.

Em um experimento com macacos, onde tocamos um sino e depois damos uma banana, o macaco aprende o padrão “depois do sino vem a banana”. Ele aprende isso e podemos medir a dopamina sendo liberada já quando o sino é tocado, porque o macaco aprende a prever esse acontecimento. Se acendermos uma luz, tocarmos o sino e depois dermos a banana, o macaco aprende que o evento “luz” dá sequência ao sino e depois à banana. Isso pode ser repetido com diversas etapas e o macaco aprende o padrão. Porém, se seguirmos o padrão e a banana não vier no final, o macaco efetivamente fica triste, porque a previsão não funcionou.

Nós também funcionamos assim.

Para muitos eventos simples, com poucas variáveis, isso vai funcionar bem. Talvez por isso muitos gostem de rotina, onde os resultados são bem definidos. Nosso cérebro, no entanto, tem um defeito: na ânsia de encontrar padrões, o cérebro tentará encaixar padrões onde eles não existem. É como nascem as superstições. Antes de entendermos meteorologia, as tribos primitivas achavam que o fato “chover” estava relacionado à uma dança que eles acabaram de fazer. Portanto imaginavam que repetindo a dança choveria novamente.

Traduzi no meu outro blog um artigo da Scientific American demonstrando como somos “matematicamente ignorantes”. Tentamos achar um padrão para tudo. Um trecho que ilustra nossas superstições e explicações sobre coincidência é este:

Sempre é possível combinar dados aleatórios e encontrar alguma regularidade. Um exemplo muito bem conhecido é a comparação das coincidências nas vidas de Abraham Lincoln e John Kennedy, dois presidentes com 7 letras em seus últimos nomes, e eleitos com 100 anos de diferença, 1860 e 1960. Ambos foram assassinados numa sexta-feira na presença de suas esposas, Lincoln no teatro Ford e Kennedy num automóvel feito pela Ford. Ambos assassinos tem 3 nomes: John Wilkes Booth e Lee Harvey Oswald, com 15 letras em cada nome completo. Oswald atirou em Kennedy de um armazém e correu para um teatro, e Booth atirou em Lincoln em um teatro e correu para um tipo de armazém. Ambos os sucessores vice-presidentes eram Democratas sulistas e ex-senadores chamados Johnson (Andrew e Lyndon), com 13 letras em seus nomes e nascidos com 100 anos de diferença, 1808 e 1908.

Mas se compararmos outros atributos relevantes falhamos em encontrar coincidências. Lincoln e Kennedy nasceram e morreram datas (dia e mês) e em estados diferentes, e nenhuma das datas é separada de 100 anos. Suas idades eram diferentes, assim como os nomes das esposas. Claro, se alguma dessas fosse correspondente estariam na lista de coincidências “misteriosas”. Para qualquer pessoa com vidas razoavelmente cheia de eventos é possível encontrar coincidências entre elas. Duas pessoas se encontrando numa festa normalmente encontram coincidências chocantes entre elas, mas o que são – aniversários, cidades natais, etc – não são previstos de antemão.

O mundo real é cheio de aleatoriedades. Não é difícil encontrar padrões nelas. Na realidade é muito fácil. No mundo real, situações complexas tem muitos aspectos aleatórios. O mundo real é muito mais aleatório do que se imagina. E nosso cérebro ainda não evoluiu o suficiente para se sentir realmente confortável num mundo totalmente aleatório.

Um exemplo são pessoas de sucesso. Imagine um mega-investidor como Warren Buffett. Livros e mais livros são impressos, com análises, biografias, teorias, tentando explicar o processo que leva uma pessoa ordinária a ganhar bilhões na bolsa de valores. Apenas por especulação e se Warren Buffett for nada mais, nada menos, do que um acidente estatístico?

Nassim Taleb explica isso num artigo de Malcolm Gladwell:

Suponha que existem 10 mil gerentes de investimento por aí, o que não é um número tão irreal assim, e que a cada ano metade deles, totalmente por acaso, ganharam dinheiro e a outra metade perdeu dinheiro, também totalmente por acaso. E suponha que todo ano os que perderam dinheiro saem do mercado, e esse jogo é repetido todos os anos com os que sobraram. Ao final de 5 anos, ainda existiriam 330 pessoas que ganharam dinheiro seguidamente em todos os anos. E depois de 10 anos ainda existiriam 9 pessoas que ganharam dinheiro todos os anos, seguidamente, totalmente por acaso, por pura sorte da aleatoriedade. E quem pode dizer que Buffett não é um desses 9?

Nosso cérebro, no entanto, tem prazer em tentar encontrar padrões em tudo. Especialmente em casos de sucesso. Queremos encontrar a receita, a fórmula mágica. Algumas vezes ficamos com aquela sensação de “o que ele tem que eu não tenho?” E às vezes duas pessoas são tecnicamente igualmente capazes, mas uma é mais rica e outra não. A diferença pode ser simplesmente aleatoriedade. “Mas isso não é justo!” você pode reclamar, porém o mundo não foi feito para ser justo. Justiça é um conceito humano. A realidade não tem senso de moralidade humana, ela apenas “é”.

A ciência, felizmente, tem um procedimento certo para evitar essa armadilha de nosso cérebro: o método científico. Tudo pode começar justamente com um desses enganos do nosso cérebro, achando que encontrou um padrão, gerando uma teoria. Agora essa teoria tem que ser colocada à prova. Para que se torne uma boa teoria precisamos não só tentar comprová-la mas, principalmente, tentar desprová-la. Mesmo se não encontrarmos uma forma de desprovarmos a hipótese, nem por isso ela pode ser considerada uma “Lei”. A ciência toma muito cuidado nas afirmações que faz. Mesmo que uma determinada teoria tenha funcionado bem mil vezes, basta um único caso de fracasso para que essa teoria seja rejeitada. É graças a essa maneira de pensar que nós temos fundações muito sólidas e confiáveis na ciência. Livre de superstições e misticismo.

Processos, Metodologias e Superstições

Eu dei toda essa explicação para chegar ao assunto principal no caso deste blog: gerenciamento de projetos e de pessoas. Se vocês estão acompanhando meus posts até agora, notaram que em nenhum momento eu tento pregar nenhuma metodologia, nenhum processo, nenhum procedimento, nenhuma receita de bolo. Coisas do tipo “como fazer estimativas corretas”, “como prever o sucesso de um projeto” e coisas desse tipo.

Se você é bem atualizado também deve saber que existe todo um mercado de indivíduos e empresas que tentam justamente isso: lhes vender processos e metodologias. Seja a Engenharia de Software tradicional, PMI ou até mesmo as chamadas “metodologias Ágeis”.

Antes de fazer isso preciso deixar um alerta: todas essas metodologias foram inicialmente pensadas com a melhor das intenções. A idéia era compartilhar os fatores que levaram determinado projeto ao sucesso. Porém, minha explicação é mais ou menos assim: os líderes desses projetos, ou melhor, seus cérebros, incansavelmente começam a tentar encontrar padrões. Talvez seja o post-it na parede. Talvez seja o tipo de documento usado. Talvez seja a forma das pessoas se sentarem na mesa. Isso tudo forma um conjunto de “pseudo-verdades” que nosso cérebro entende que são as “luzes” e os “sinos” que levam à “banana”. Esses líderes aplicam em outros projetos, e assim como Nassim Taleb explicou, seguidamente têm sucesso.

Eureca! Parece que encontramos a fórmula para transformar ferro em ouro! Rapidamente essas pseudo-verdades são formatadas na forma de metodologias, enlatadas, empacotadas e vendidas.


Porém, pensem por um momento: e se todas essas metodologias forem exatamente como a dança da chuva? Como eu disse antes, é muito fácil encontrar padrões na aleatoriedade. Quando começamos a discutir minúcias, do tipo com que nível de detalhe devemos fazer uma estimativa? Que métricas devemos usar? Quais os mecanismos de comunicação da equipe? Não consigo deixar de pensar nas tribos primitivas discutindo coisas como “Quais penas devemos vestir? Que cores devemos usar na cara? Devemos dar passos longos ou curtos na dança?”

Mas a questão principal não vem à tona: é a dança da chuva que efetivamente faz chover? Ou no nosso caso: é a metodologia que de fato leva o projeto ao sucesso?

E o método científico? O problema é que um “projeto” é uma situação muito complexa. Mesmo os menores projetos são complexos. No sentido de que existem mais variáveis do que é possível medir. Um dos jeitos de testar uma teoria é fazer um experimento duplo-cego, como os laboratórios de remédios fazem: um grupo de pessoas recebe o medicamente de verdade e outro grupo recebe um placebo, sem saber. Se ambos os grupos tiverem aproximadamente o mesmo resultado, significa que o remédio não funciona.

Porém, uma metodologia é mais complicada do que um remédio. Mesmo que consigamos criar dois ambientes de trabalho físico isolados e idênticos, colocarmos dois grupos de pessoas “aproximadamente” semelhantes em cada um, começarmos exatamente ao mesmo tempo, com os mesmos requerimentos, num lado com a metodologia “A” e no outro com a metodologia “B”. Ainda assim não temos como comparar os resultados. Isso porque metodologias envolvem as micro-decisões e capacidades de cada pessoa e “aproximadamente semelhantes” é muito diferente de “iguais”. É impossível duplicar o mesmo grupo de pessoas em cada um dos ambientes. Teríamos que conseguir primeiro clonar as pessoas com sucesso. Daí, com grupos exatamente idênticos, poderíamos fazer um experimento duplo-cego. Mas isso é impossível.

A conclusão é que é impossível provar uma metodologia desse tipo como “correta” assim como é difícil desprová-la. Portanto, é inútil tentar afirmar que elas funcionam ou não. É claro que elas influenciam e, separadamente, cada uma das técnicas pode ser testada com mais cuidado. Porém, acho que não é possível afirmar cientificamente que elas funcionam.

“Mas eu testei a metodologia X no meu projeto e funcionou!”

Excelente, bom para você. Porém, para cada projeto que foi bem sucedido com certa metodologia, podemos encontrar um caso em que deu errado também. Mas os indivíduos e consultorias que vendem essas metodologias são espertas: se um projeto deu certo foi graças à metodologia. Agora, se um projeto deu errado é porque as pessoas é que não seguiram a metodologia como deveriam. Portanto, a culpa nunca é da metodologia! É uma excelente retórica para formar um argumento de vendas. E se as pessoas não estão acostumadas a avaliar as coisas racionalmente – e como expliquei acima, na maioria das vezes não raciocinam mesmo – teremos muitos consultores ganhando muito dinheiro sem precisar se comprometer com resultados.

Isso é importante porque muitos acreditam que, com a ajuda da metodologia da moda, basta aplicá-la a uma equipe que só tem pessoas inexperientes que um bom resultado vai aparecer, porque o importante não são as pessoas mas sim o processo. E é exatamente o contrário: na maioria das vezes essas metodologias não descrevem quais são as exatas qualificações que cada membro precisa ter. Porque é impossível listar todas. No máximo existem descrições vagas de “papéis” que mais geram discussões do que respondem à pergunta. Um projeto com chances de ser bem sucedida começa tendo pelo menos algumas pessoas muito experientes que saberão conduzir o resto da equipe.

Finalmente, minha recomendação é: estude as tais “metodologias”, como disse antes, de fato elas tem algumas técnicas que tem valor. Porém entenda que nenhuma delas representa a verdade. E não adianta tentar somar duas meia-metodologias que isso não vai torná-las “mais completas”. Entenda que projetos são executadas por pessoas e o comportamento humano é difícil de prever e o ambiente do mundo real é cheio de variáveis imprevisíveis, formando um sistema complexo com muita aleatoriedade envolvida.

Comece aceitando que o mundo é aleatório e fora do seu controle. Em situações complexas é melhor errar antes do que depois porque os erros trazem informações que ajudam a refinar as decisões seguintes. Aceite que é impossível prever o que vai acontecer no futuro num sistema complexo, em vez disso adapte-se: aceite que algumas coisas vão sair como previsto mas que algumas coisas vão necessariamente precisar mudar. Talvez alguma funcionalidade não prevista precisará ser feita, nesse caso talvez o prazo precise ser esticado. Talvez alguma funcionalidade prevista no fundo não era tão necessária e possa ser descartada. É assim que lidamos num ambiente complexo e imprevisível: adaptando.

A biologia explica: todos os seres vivos do planeta são resultado de uma constante sequência de tentativas e erros. A natureza não é “perfeita”, no sentido de que não existe um criador, não existe um design inteligente, não existe um grande plano, não existe destino. Todo ser vivo veio de um rascunho biológico muito ruim que, pouco a pouco, via seleção natural, foi descartando o que não funcionava e favorecendo o que funcionava. Nós humanos temos resquícios biológicos (como o apêndice, por exemplo). Somos um produto em constante evolução. Para muitos o atual estágio é “bom o suficiente”. Em termos de projetos é nesse ponto mesmo que ele pode ser lançado, quando estiver “bom o suficiente”, ou seja, ainda tem arestas a arrumar mas no geral funciona.

Tentativa e erro. Adaptação. Evolução. É assim que se gerencia qualquer coisa.

Se quiser uma visão mais detalhada sobre esse assunto recomendo começar lendo os seguintes livros:

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