domingo, 10 de outubro de 2010 - 11:42

O que significa ser um Gerente?

Por incrível que possa parecer, não existe uma boa definição, simples, clara e curta que pode definir o que é ser um “gerente”. Gerente não é uma profissão. Você não pode “aprender” a ser um gerente numa escola ou curso. A única forma de aprender é tentando, errando, melhorando, continuamente e indefinidamente.

Uma das melhores definições que encontrei é de ninguém menos que o professor Henry Mintzberg, em seu recente livro “Managing”, publicado em 2009. Uma leitura madura e leve.

Recomendo a leitura desse livro. Se você é um gerente iniciante ou quer ser um gerente, talvez este livro lhe dê alguma visão do que vai enfrentar à frente. Se você já é um gerente, vai ficar surpreso pois muitos livros teóricos pintam cenários que você nunca viu na prática – fazendo-o se questionar se você está fazendo a coisa certa ou não – e este livro talvez defina melhor os problemas reais que você enfrenta.

Quero trazer alguns trechos da primeira metade do livro.

Gerenciamento Não é uma Profissão

Depois de anos procurando por Santos Graal, é hora de reconhecer que gerenciar não é nem ciência nem profissão; é uma prática, aprendida primariamente através de experiência, e enraizada em contexto.

Certamente não é uma Ciência. Ciência tem a ver com o desenvolvimento de conhecimento sistemático através de pesquisa. Isso nem de longe é o propósito de gerenciamento, que tem a ver com ajudar a conseguir realizar coisas em organizações. Gerenciamento não é nem mesmo uma ciência aplicada, porque isso ainda é ciência. Gerenciamento certamente aplica ciência: gerentes precisam usar todo o conhecimento que conseguir. E eles certamente usam análise, enraizada no método científico (que significa aqui mais prova científica do que descoberta científica).

Mas gerenciamento efetivo é mais dependente na arte e é especialmente enraizada em ofício. Arte produz o “insight” e “visão”, baseado em intuição (Peter Druker escreveu em 1954 que “os dias do gerente ‘intuitivo’ estão contados”. Meio século depois, ainda estamos contando.) E ofício tem a ver com aprendizado a partir de experiência – trabalhando nas coisas à medida que o gerente avança.

Portanto, vale repetir o que Mintzberg costuma dizer: é impossível formar gerentes na escola. Não é um “talvez”, é uma certeza. Na escola você pode aprender técnicas de contabilidade, de marketing, conhecimento técnico repetitível. Nada disso gera um gerente e muito menos um líder. Se uma escola, um curso de MBA diz “Formamos Líderes”, isso é mentira. Essas escolas formam técnicos; técnicos que vão trabalhar em atividades técnicas até crescerem para começar a acumular responsabilidades e, talvez, um dia conseguirem realmente gerenciar alguma coisa.

Gerenciamento é uma Prática

Coloque junto uma boa porção de ofício com o toque correto de arte junto com algum uso de ciência e você acaba com um trabalho que é, acima de tudo, uma prática. Não existe “uma melhor maneira” de gerenciar; tudo depende da situação.

Nem mesmo é uma Profissão. Já foi apontado que engenharia também não é uma ciência ou uma ciência aplicada tanto quanto uma prática em seu próprio direito. Mas engenharia aplica uma boa porção de ciência, codificada e certificada quanto à sua eficiência. E portanto ela pode ser chamada de profissão, que significa que ela pode ser ensinada antes da prática, fora de contexto. De certa maneira, uma ponte é uma ponte, ou pelo menos ferro é ferro, mesmo que seu uso tenha que ser adaptado para a situação do momento. O mesmo pode ser tido sobre a medicina. Mas não sobre gerenciamento:

Muitas capacidades médicas de diagnóstico, inferência e tratamento … assumem que uma doença pode ser decomposta em problemas separados que não diferem muito entre pacientes e podem ser tratados por remédios razoavelmente padrões … Em contraste, muito do trabalho gerencial envolve lidar com problemas que são muito interdependentes com outras partes da organização, são específicas a esta firma, mercado e indústria em particular e não facilmente reduzíveis para uma síndrome padrão geral que pode ser tratada por técnicas específicas.

Gerenciar é um trabalho de negociação, de trocas, de ceder, de conquistar. Não existe um procedimento, não existe uma metodologia, não existe um corpo de conhecimentos rígido que define esse papel. Não dá para saber “qual é o nível” de um gerente porque não existe um “padrão” de comparação. Existem bons gerentes e maus gerentes, apenas isso. Os “maus gerentes”, na realidade, sequer poderiam ser chamados de “gerentes” porque de fato não estão gerenciando.

Gerenciamento Real

Já foi dito que um expert é alguém que sabe mais e mais sobre menos e menos até que finalmente ele ou ela sabe tudo sobre nada. O problema do gerente é o oposto: saber menos e menos sobre mais e mais até finalmente ele ou ela saber nada sobre tudo.

Muitos acham que fazendo diversos cursos, pós-graduação, MBAs, etc vão necessariamente torná-lo um bom gerente. E não existe essa correlação. Sim, existem excelentes gerentes que tiveram uma boa formação, mas não foi a formação que o tornou um bom gerente. Não confundir, correlação com causalidade. No caso geral, essa pessoa simplesmente está postergando aquilo que realmente lhe daria chance de se tornar um bom gerente: a prática.

Gerentes que não fazem e lidam, e então não sabem o que está acontecendo, podem se tornar incapazes de surgir com decisões sensíveis e estratégias robustas.

Também existe a idéia de que gerentes não devem colocar a mão na massa. Claro, porque ou ele gerencia ou ele executa. O que não significa que o gerente deve ser ignorante quanto à área onde atua. Muito pelo contrário, um gerente que tem um excelente conhecimento técnico de sua área tem mais chances de conseguir entender o contexto.

Pensar é pesado – pensar demais pode cansar demais um gerente – enquanto agir é leve – agir demais pode fazer o gerente não conseguir parar.

Da mesma forma, liderança demais pode resultar em um trabalho sem contexto – sem mira, sem foco, sem ação – enquanto muito relacionamento pode produzir um trabalho desconectado de suas raízes internas – relações públicas em vez de conexões tangíveis. O gerente que somente comunica nunca termina nada, enquanto o gerente que somente “faz” termina fazendo tudo sozinho. E o gerente que somente controla riscos termina controlando uma casca vazia de homens e mulheres “sim”. Nós não precisamos de gerentes orientados-a-pessoas, orientados-a-informação ou orientados-a-ação; precisamos de gerentes que operam nesses três planos. Somente juntos todos esses papéis em todos os três planos fornecem o balanço que é essencial à prática de gerenciamento.

O que Mintzberg coloca, e que é óbvio, é que se você quiser ser um autor renomado de gerenciamento, escrevendo livros, dando palestras, deve focar em um e apenas um aspecto e exaltá-lo como a “peça que falta”. Porém, a realidade é que um gerente que foca apenas em um aspecto da prática de gerenciamento com certeza está fazendo a coisa errada. Um bom gerente sabe equilibrar os diferentes papéis em diferentes situações, mas usa todos sempre que precisa.

Enfim, como podem ver, o papel do Gerente é muito mais amplo do que parece. Apenas estudar procedimento não o torna um gerente, assim como estudar uma tabela de cores não o torna um pintor, ou saber ler uma partitura não o torna um compositor.

Arte, Ofício, Técnica e Prática. Esta é a definição de Gerenciamento. Um gerente que não entende isso sempre será um péssimo gerente.

Como adendo, cuidado, às vezes vemos – não somente gerentes – mas profissionais muito ativos, que parecem que fazem muita coisa porque falam com muitas pessoas, agem bastante, estão sempre acelerados. Porém este sempre parece ser o sintoma do “profissional-herói”. E na minha definição significa justamente o indivíduo que está fazendo seu trabalho da forma errada: parecendo que está fazendo muito mas na realidade está apenas sendo ineficiente e, pior, corrigindo os próprios erros que gera no caminho, parecendo que está resolvendo muita coisa mas, na realidade, está apenas correndo atrás do próprio rabo.

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