
São Paulo - Desde que meu livro MacroWikinomics foi publicado pela primeira vez várias tendências e previsões nele contidas já se cumpriram.
Um dos exemplos mais dramáticos é o das revoluções na Tunísia e no Egito. Se Twitter, Facebook e YouTube não existissem, os ex-presidentes tunisiano, Zine El Abidine Ben Ali, e egípcio, Hosni Mubarak, provavelmente ainda estariam em seus gabinetes.
Em dezembro de 2010, o tunisiano Mohamed Bouzizi ateou fogo ao próprio corpo depois que a polícia confiscou o carrinho que ele usava para vender verduras na rua. O suicídio despertou indignação e protestos turbulentos em todo o país. Tunisianos revoltados usaram o Twitter para organizar manifestações e informar o mundo sobre suas atividades.
"Redes sociais, Twitter e mensagens de texto foram essenciais para a revolução", diz Yassine Brahim, novo ministro de infraestrutura e transporte da Tunísia. "Vamos estimular a mídia social, a fim de construir uma democracia horizontal, em vez de uma democracia vertical." No Egito, em dezembro passado, Khaled Said, comerciante de 28 anos, foi espancado até a morte por dois policiais. Said havia publicado na internet um vídeo em que policiais apareciam vendendo drogas ilegais.
Dias depois de sua morte, um ativista dos direitos humanos, anônimo — sabe-se agora que era um executivo do Google -, criou no Facebook uma página chamada "Todos Somos Khaled Said". Na página havia fotos do corpo espancado e cheio de hematomas tiradas no necrotério. Também estava lá o vídeo de Said mostrando os policiais corruptos. Em poucas semanas, o registro no Facebook já contava mais de 100 mil amigos, número que depois cresceu para meio milhão. O Facebook tem mais de 5 milhões de usuários no Egito, e a página serviu como ponto de aglutinação para os protestos.
Ferramenta contra tiranos
Em geral, os ditadores tratam com punho de ferro a mídia de seus países, com a intenção de sufocar as críticas. Isso antes era simples. Assuma o controle das tevês e dos jornais e você controla o que o público sabe e, portanto, como ele age. Mas a internet é interativa e descentralizada. Seu modelo consiste em compartilhar informação de muitas pessoas para muitas pessoas. Assim, ela tem uma espantosa neutralidade. Ela é o que queremos que seja, e na Tunísia e no Egito as pessoas quiseram que a internet fosse uma ferramenta para derrubar tiranos.
Alarmado com o número e a crescente confiança dos egípcios protestando nas ruas, em dado momento o governo tentou parar os dissidentes, bloqueando a internet e cortando o acesso a sites como Facebook, Twitter e YouTube. Mensagens de texto pelos celulares também foram vetadas. Mas era tarde. O bloqueio à web alimentou a revolta. Subtraídos de suas ferramentas de comunicação, os egípcios não viram outra saída senão ir às ruas.
Em breve os regimes ditatoriais não terão sequer a opção de desligar a internet. Nas revoluções do passado, os velhos regimes entravam em colapso quando as massas paravam a economia com uma greve geral. Hoje, a rede está se tornando a base para a criação de riqueza, educação, cuidados com a saúde, cadeias de suprimentos, comércio e todas as outras facetas da sociedade. Para os governos, desligar a internet será como criar uma greve geral contra si mesmos.