´O cybercrime virou um negócio profissional´

Por Fernando Valeika de Barros, para a INFO
• quarta, 03 de agosto de 2011
Divulgação
Ievgeny Kaspersky comanda um time de 54 analistas

São Paulo - O que Eugene Kaspersky gosta mesmo de fazer é descobrir como atuam as cada vez mais sofisticadas pragas virtuais. Mas hoje seu tempo é dividido entre estratégias corporativas, ações de marketing, viagens e reuniões com os novos sócios do fundo americano General Atlantic. Kaspersky falou com a INFO em Estepona, na Espanha.

Nos últimos meses aconteceram invasões a sites de governos e empresas. Foram descobertos vírus complexos, como o Stuxnet, botnets como o TDSS e ameaças a smartphones e tablets. A internet está mais perigosa?

Sim. A cibercriminalidade transformou-se em uma atividade milionária e profissional. A Kaspersky Lab fez uma pesquisa com 1,3 mil profissionais de pequenas, média e grandes empresas de 11 países e 91% declararam que já sofreram pelo menos uma ameaça externa, como invasão, vírus, spywares ou programas maliciosos para roubar senhas ou dados confidenciais.

Como funciona o cibercrime?
As quadrilhas que atuam na internet têm funções divididas. Há gente especializada em roubar e vender listas com números de cartões de crédito e documentos, outros em desenvolver programas para infectar máquinas, especialistas em roubar contas bancárias ou dados pessoais e de empresas, gente envolvida com lavagem do dinheiro. Eles contratam mulas que ficam com cerca de 15% do produto do roubo. Os últimos cinco anos foram a época de ouro da cybercriminalidade.

Aparelhos como smartphones e tablets serão os próximos?
É aí que o dinheiro está indo. E rápido. Como dizem os americanos: no money, no business, no crime. A próxima onda de ataques serão esses dispositivos móveis.

O senhor contrata hackers?
Não. Contrato gente competente. Mas não é difícil encontrar bons profissionais para trabalhar na Kaspersky Lab, em Moscou. Os russos amam softwares e ainda têm uma formação excelente em matemática e ciências exatas. 

Há talentos de sobra para a criminalidade virtual, não?
Há hackers russos, mas também existem na Ucrânia, na Romênia, nos Países Bálticos, que têm boa educação em exatas. Os chineses também têm bons hackers, principalmente para produzir trojans enviados por meio de jogos. Há muitos americanos e europeus nessa também. Os brasileiros são conhecidos por produzirem softwares para roubar senhas bancárias.

Para mim a principal questão é a falta de uma ciberpolícia internacional. Enquanto os criminosos falam entre si e armam golpes em poucos segundos, as autoridades perdem um tempo enorme para colocar as mãos neles, em procedimentos burocráticos. Para combater o crime na internet seria preciso muito mais agilidade por parte dos países e leis de alcance internacional para facilitar as investigações.

Como foi que o senhor virou caçador de vírus?
Em 1989, quando já tinha me formado no Instituto de Criptografia, Telecomunicações e Ciência da Computação, em Moscou (então ligado ao Ministério da Defesa da União Soviética) e era oficial do Exército, tive uma máquina infectada por um vírus. Era um Cascade, considerado inofensivo, perto das ameaças que existem hoje em dia. Veio em um floppy-disk. Consegui descobrir os danos que fazia, limpar a máquina e gostei daquilo. Desde então, comecei a colecionar amostras de vírus de computador. Um dia, decidi sair do Exército e fui trabalhar nisso. Minha família achou que eu estava maluco, mas sabia que computadores podiam ter futuro.

O que o senhor foi fazer?
Recebi um convite de meu ex-professor Alexey Remizov para trabalhar na sua empresa de software, a Kami. Minha primeira missão foi demitir dois auxiliares. Isso quer dizer que trabalhava por três no desenvolvimento de programas antivírus da companhia. E como não tinha o dinheiro dos grandes, como a Symantec e a McAfee, tinha de ser esperto para avançar em busca de novas soluções. Enquanto eles investiam mais em marketing, nosso caminho foi investir em tecnologia e criatividade.
 

Os últimos meses foram agitados para o senhor. Aconteceu o sequestro do seu filho Ivan, no final de abril, a chegada do fundo americano General Atlantic, os ataques a grandes empresas...
O sequestro de Ivan foi obra de um bando de gente estúpida e, felizmente, acabou bem, com ele solto, sem pagamento de resgate. No caso da General Atlantic, alguns dos nossos acionistas decidiram sair da empresa e eles entraram no conselho de administração. Mas eu não revelo os nomes (segundo publicou o jornal Financial Times, sua ex-mulher Natalya vendeu boa parte de sua participação pelo equivalente a 200 milhões de dólares). Mas a chegada do fundo é boa: teremos mais dinheiro para fazer novos investimentos, para crescer, fazer negócios. A minha fórmula é agitar, agitar, mas nunca misturar (risos).

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