Partes da Máquina Diferencial No. 2, exposta em LondresDe fato, se eles tiverem sucesso, a máquina criada terá apenas uma pequena fração da capacidade de computação dos microprocessadores de hoje. Ela não vai depender de softwares e silício, mas de engrenagens de metal e de uma versão singular de um antigo cartão perfurado da IBM.
O que ela será capaz de fazer, porém, é responder a uma pergunta que tem atormentado os historiadores há décadas: será que um matemático excêntrico chamado Charles Babbage concebeu o primeiro computador programável em 1830, cem anos antes de a ideia ter sido apresentada em sua forma moderna por Alan Turing?
A máquina nas pranchetas de desenho do Museu da Ciência, em Londres, é conhecida como Máquina Analítica – um monstro do tamanho de uma sala que seu inventor imaginou, mas nunca construiu.
O projeto dá seguimento aos bem sucedidos esforços de um grupo ligado ao museu para replicar uma invenção muito menos complicada de Babbage: a Máquina Diferencial No. 2, uma máquina de calcular composta por cerca de 8 mil componentes mecânicos montados com precisão de relojoeiro. Esse projeto foi concluído em 1991.
Os novos esforços – liderados pelo programador John Graham-Cumming e pelo ex-curador do museu Doron Swade – já digitalizaram desenhos técnicos sobreviventes de Babbage para a Máquina Analítica. Mas os desafios da construção impressionam.
No caso da Máquina Diferencial, houve um planejamento completo. A Máquina Analítica, pelo contrário, foi um trabalho que se encontrava em andamento, posto que Babbage aperfeiçoou constantemente seu pensamento no decorrer de uma série de projetos.
Assim, a esperança é de tornar a análise da construção aberta a sugestões – os planos serão publicados na Internet no ano que vem e o público será convidado a oferecer ideias.
''Não há um conjunto único de planos que defina o projeto de uma máquina única’', disse Tim Robinson, guia do Museu da História do Computador, localizado em Mountain View, na Califórnia. ''Essa máquina ficou o tempo todo em um estado de fluxo’'.
O projeto é significativo, em parte, porque há um debate acalorado a respeito de se – caso houvesse tempo e recursos – Babbage teria sido capaz de construir a máquina que ele imaginou.
A ideia foi proposta no ano passado por Graham-Cumming. Ele sugeriu um projeto de três etapas: em primeiro lugar, seria feita a escolha de um plano no qual focar; em seguida, seria criada uma simulação de um computador tridimensional; finalmente, a máquina seria construída.
''Espero que as futuras gerações de cientistas possam apreciar a Máquina Analítica, pensem em Babbage e se sintam inspiradas para trabalhar em seus próprios projetos de viagens no tempo’', escreveu ele.
Babbage, que viveu entre 1791 e 1871, é justamente conhecido como o ''pai da computação’'. Mas ficaria a cargo de uma colega cientista, Ada Augusta King, condessa de Lovelace, apreciar plenamente o fato de que suas invenções eram mais que apenas ferramentas para tabular logaritmos e funções trigonométricas automaticamente.
Lovelace – filha do poeta Lord Byron – percebeu que a Máquina Analítica poderia ser uma máquina de mídia mais geral, capaz de fazer músicas e manipular símbolos. E 113 anos antes de John McCarthy cunhar o termo ''inteligência artificial’', ela considerou – e em seguida rejeitou – a noção de que computadores são capazes de demonstrar criatividade ou mesmo de pensar.