segunda-feira, 24 de outubro de 2011 - 17:17

Um Ubuntu para deficientes visuais

O aprendizado de software livre é um dos mais tortuosos que conheço. Não entenda mal, caro leitor. Não estou afirmando que é difícil aprender ou difícil demais a ponto de desencorajá-lo. Aliás, em qualquer área do conhecimento, esforço sempre é necessário.

O ponto a que quero chegar é que, graças à efervescência de tecnologias, sistemas e gostos, o software livre tem diversos caminhos de aprendizado. Você sempre tem de escolher o que lhe é conveniente e seguir em frente. E o que dizer de alguém que tenha uma deficiência visual? Qual caminho escolher? A resposta parece bem difícil em um primeiro momento.

Para responder, leia abaixo a entrevista com os criadores do Linux Acessível. O programador Fabiano Garcia Fonseca, que utiliza GNU/Linux desde 1998, é o idealizador do projeto. É também o responsável pelas otimizações de acessibilidade. Seu fiel escudeiro, o programador André Brandão (Zandre Bran, como é conhecido) é o desenvolvedor do linuxacessivel.org. Sua contribuição na comunidade Ubuntu é notavel. Ele é membro do Ubuntu Brazilian Team (@ubuntu.com) e do Ubuntu Accessibility, líder do Ubuntu Brazilian Documentation Team e participante do comitê organizador do FLISOL Campinas.

Como surgiu a ideia do Linux acessível?

Fabiano Fonseca, que tem deficiência visual, fez o primeiro contato com acessibilidade no Software Livre em 2007. A distribuição que na época oferecia melhor adequação para acessibilidade, antes mesmo da instalação ou carregamento do LiveCD, era o Ubuntu. O problema é que, embora seja acessível, o Ubuntu não tem como foco principal esse público específico.

O projeto começou com o blog pessoal do Fabiano Fonseca, cujo objetivo era principalmente escrever dicas de uso e para falar sobre acessibilidade no GNU/Linux. Com o passar do tempo, percebemos que adequações do Ubuntu eram necessárias para facilitar o uso para deficientes visuais. Foi então que em 2008 surgiu a primeira imagem de instalação (DVD) do linuxacessivel.org. Em 2010 André Brandão se juntou ao projeto e ajudou a transformar o blog pessoal em projeto, com canais próprios para atualização de acessibilidade, independentes do fornecido pela Canonical. Canais de suporte e estruturação de uma equipe para desenvolvimento do linuxacessivel.org, bem como uma nova forma de instalar o sistema.

Consideramos importante frisar que não somos uma distribuição GNU/Linux. O Linux Acessível é um Ubuntu personalizado, com adequações primordiais e pontuais para pessoas que possuem deficiência visual (parcial, total ou surdo-cegueira). Mais sobre a história do projeto no site oficial.

Que tipo de dificuldade vocês encontraram nas ferramentas adotadas? Foi necessário fazer muitas adaptações?

A maior dificuldade é testar novas versões da estrutura de acessibilidade, o Gnome ATK. Aplicar correções, criar um pacote instalável e disponibilizar como atualização. Muitas vezes é preciso fazer todo o processo, por não encontrar nada pronto. Outro ponto que demanda muito trabalho é testar os aplicativos que apresentem melhor compatibilidade com o leitor de telas Orca. Parece bem simples, mas não é difícil encontrar incompatibilidade de uma versão de aplicativo com uma nova versão do sistema.

Vale citar o objetivo geral do linuxacessivel.org, que é: desenvolver, pesquisar e aprimorar tecnologias sobre acessibilidade e usabilidade no software livre.

Quais são as ferramentas utilizadas na adaptação?

Muitas das configurações são manuais como a alteração comportamental de aplicativos. Por exemplo, o Pidgin é alterado para não “minimizar” na bandeja do sistema. Em algumas implementações, utilizamos comandos shell script em conjunto com o Zenity. Por exemplo, o instalador de extras e o exclusivo aplicativo XCMD, que redireciona a saída de comandos, para o Gedit, por exemplo. Isto facilita a leitura pelo software Orca.

Vocês têm alguma estatística de quantas pessoas poderiam ser beneficiadas com o Linux Acessível no país? E quantos usuários tem a distribuição?

O número levantando pelo censo de 2000 (o de 2010 ainda não foi publicado) informa que no Brasil existem 128.000 pessoas cegas e surdo-cegas. Este número representa 0,075% da população. O valor está bem abaixo do que a Organização Mundial de Saúde(OMS) aponta com a média mundial, que é de aproximadamente 0,6% da população.

Entretanto, o resultado do projeto “Pequenos Olhares”, de 2004, do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), afirma que o número de cegos no Brasil oscila entre 1 milhão e 1,2 milhão de pessoas, das quais 0,9% (765.000) dos casos de cegueira ocorreram em regiões de economia e serviços de saúde ruins; 0,6% (414.000) em regiões de economia razoáveis e com serviços de saúde ruins; e 0,3% (48.000) em regiões de economia e serviços de saúde bons. Portanto, mais de 90% dos deficientes visuais no Brasil estão em áreas de baixa renda.

Não temos estatísticas de downloads nem de suporte, já que o modelo é aberto à comunidade. Porém temos cadastradas em nossa lista de discussão cerca de 140 pessoas que em média trocam diariamente em torno de 7 mensagens, fazem 4 downloads e visitam o site cerca de 220 vezes ao dia. Encorajamos o uso.

Como são feitos os testes de usabilidade com a distribuição?

Antes de disponibilizar uma atualização ou publicar algo no site, testamos internamente. Os demais testes são feitos por voluntários da própria comunidade. O retorno de nossa comunidade é sensacional. Publicamente, somos gratos a todas as pessoas envolvidas em nosso ecossistema social colaborativo.

Como vocês vêem a regulamentação de acessibilidade no Brasil?

Regulamentação existe, falta a população conhecer. Frequentemente, fazemos palestras sobre acessibilidade em software livre e sobre acessibilidade na internet e o que percebemos é uma total falta de conhecimento, para não dizer preparo, dos novos profissionais que estão se formando em TI, sobre o tema.

Acessibilidade no software livre, para pessoas “normais”, já é um caminho árduo. Agora, imagine falar de acessibilidade em software livre para pessoas deficientes. Na verdade, esse caminho nem chega a ser árduo porque não existe, está sendo construído. Mas estamos otimistas porque o espaço para discutir acessibilidade na ótica de pessoas com deficiência visual no Brasil vem aumentando a cada ano.

Caso o leitor queira entrar na equipe com contribuições, como fazer?

Em nossa comunidade existem pessoas que desenvolvem código, outras escrevem documentação e dicas de utilização, suporte ao usuário e ainda há as que ajudam divulgando o linuxacessivel.org. Para participar não é necessário ter conhecimento técnico, apenas estar disposto a ajudar com alguma coisa.

Para participar, veja nossa lista de discussão, canal de bate papo pelo IRC, wiki, ou entre em contato direto com a equipe.

Para obter ajuda, vá até nosso canal de suporte.

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