Campus da Universidade de Berkeley, na Califórnia,
setembro de 2005 – Cientistas descobrem que a gravação do som das teclas do
computador pode revelar senhas e até mesmo textos confidenciais. Em dez minutos
de gravação de áudio do teclado, é possível recuperar 96% das informações
digitadas. Um algoritmo decifra tudo baseado nos sons de cada caractere.
Amsterdã, outubro de 2005 – A polícia holandesa prende
três crackers, acusados de comandar uma rede de 100 mil computadores zumbis
espalhados pelo mundo. Entre os crimes imputados a eles, está chantagear uma
empresa americana com a ameaça de um ataque de negação de serviço.
São Paulo, outubro de 2005 – Os analistas da WebSense
notam um aumento no número de cavalos-de-tróia que gravam os movimentos das
telas de quem usa internet banking, numa resposta às iniciativas dos bancos de
evitar senhas com toques de teclado.
Globalizado, profissional, onipresente, o crime digital
avança cada vez mais. Só no primeiro semestre deste ano, foram criadas 11 mil
pragas virtuais para o Windows, uma quantidade 48% maior do que a dos últimos
seis meses do ano passado. E 2004 não pode ser chamado exatamente de ano da
tranqüilidade. As perdas causadas pelo ciber crime chegaram então a 17,5 bilhões
de dólares, segundo as estimativas da Fórum Systems. São roubos de identidade,
fraudes, desvios de dinheiro, espionagem, chantagem. Hoje, os crackers não
lembram nem de longe a garotada que, ainda pouco tempo atrás, queria assombrar o
mundo ingenuamente, invadindo sites conhecidos, ou escrevendo código paramostrar
suas habilidades técnicas e ganhar o respeito de seus pares. Hoje crackers
vendem seu conhecimento a grupos criminosos organizados em vários pontos do
planeta. Da Rússia ao Rio de Janeiro, da China à Holanda. Responder a essas
crescentes ameaças só com software não funciona. “É um Band-Aid”, definiu o
agente do FBI Daniel Larkin, que comanda o Centro de Queixas de Crime de
Internet nos Estados Unidos, para o semanário Business Week. “Se você não
derruba esses caras, eles voltam.”
O dia-a-dia das empresas, atualmente, é permeado por
ameaças rotineiras. No dia 1o de outubro, a Companhia de Bebidas Ipiranga, de
Ribeirão Preto, engarrafadora e distribuidora da Coca-Cola, sofreu oito
tentativas de ataque de phishing – todas bloqueadas pela solução de inspeção de
conteúdo web e de e-mails instalada em sua rede. No dia seguinte, mais quatro
tentativas do mesmo tipo pararam na barreira de segurança da empresa. Isso sem
contar os diversos vírus e cavalos-de-tróia que também vivem rondando sua rede,
formada por 25 servidores Intel e dois Risc, 350 PCs Pentium e 20 estações thin
client.
Somente entre junho e agosto deste ano, a Trend Micro
identificou 4 140 novos códigos maliciosos – o dobro do número registrado em
igual período de 2004. Um dos motivos desse crescimento acelerado está na
proliferação de variantes de um mesmo vírus. Mas há também novas pragas surgindo
e se disseminando cada vez mais rápido, graças à própria evolução da tecnologia
– e a recursos como a banda larga, o correio eletrônico e as redes sem fio.
“Hoje, um dos grandes problemas de segurança são as
contaminações por códigos maliciosos como os vermes (worms), que se instalam
sozinhos nas máquinas e se espalham exponencialmente, atingindo usuários e
empresas de todos os portes”, afirma Fernando Santos, gerente de área da
CheckPoint para o Cone Sul. No levantamento da Trend Micro, os vermes ficaram em
segundo lugar no ranking das pragas virtuais registradas em agosto, com 23% do
total de ocorrências – os cavalos-de-tróia ficaram na liderança, com 37%.
Ao contrário das primeiras gerações de vírus, que apenas
tinham o objetivo de se disseminar pelos computadores, as novas pragas estão
mais inteligentes e, por isso, mais difíceis de pegar. “O spyware, por exemplo,
entra na máquina e fica quieto, sem chamar a atenção, esperando para roubar
informações sigilosas”, observa Fábio Picoli, gerente de novos negócios da Trend
Micro. Já o phishing procura obter essas informações “pescando” usuários
ingênuos, que confiam em e-mails solicitando a atualização de dados pessoais. O
pharming age de modo diferente, plantando referências falsas num servidor DNS,
porém com o mesmo objetivo: enganar o usuário para conseguir senhas de contas em
banco ou números de cartões de crédito. Todos eles são códigos maliciosos,
criados por crackers interessados em conseguir ganhos financeiros.
Para se proteger de possíveis danos, as empresas reforçam
a segurança, investindo em firewall, antivírus – dois elementos básicos tanto na
rede como nas estações –, sistemas de detecção e de prevenção de intrusos (Intrusion
Detection System e Intrusion Prevention System), software de redes virtuais
privadas (VPN), filtros de conteúdo, anti-spam e anti-spyware. Quanto mais
críticos os sistemas de TI para o negócio maior deve ser a proteção – que pode
incluir ainda autenticação mais forte do usuário, certificação digital,
biometria e dispositivos como token.
Mas a guerra parece estar longe do fim. “Como as empresas
hoje estão mais preparadas, os ataques agora procuram atingir as redes de uma
forma combinada, por exemplo, por meio de um e-mail sem nenhum arquivo anexo,
mas com um link para um site em que o usuário baixa um código malicioso sem
perceber”, afirma Paulo Renato Rocha Fernandes, diretor de canais para pequenas
e médias empresas da Symantec. Pior ainda, esse código malicioso pode ser um
cavalo-de-tróia como o Tooso.F, que procura desativar o antivírus e outras
aplicações de segurança e pode até sobrescrever o arquivo Hosts do computador,
para impedir o acesso aos sites das empresas de anti-vírus e de segurança.
Agora, os crackers estão preparando sua artilharia contra
as redes de serviços de telefonia pela internet (VoIP). Segundo um relatório
semestral da Symantec, muitos serviços desse tipo ainda estão vulneráveis – e
sujeitos a ameaças como spam de áudio, phishing de voz e redirecionamento das
chamadas telefônicas. Para se proteger de tantas ameaças, a colaboração do
usuário é fundamental. Mostrar os riscos que ele está correndo – e trazendo para
a empresa – ao entrar num site de conteúdo duvidoso, ou ao abrir um e-mail de
origem desconhecida, pode ser um passo importante para começar a ganhar essa
guerra.
A proliferação dessas ameaças está cada vez mais rápida. O
worm Zotob, por exemplo, detectado em agosto, surgiu apenas quatro dias após a
divulgação de uma vulnerabilidade no Windows – que ele usa para se instalar. E,
em cinco minutos, espalhou-se por milhares de computadores no mundo todo.
“Quando um novo vírus é detectado, o fabricante da vacina precisa isolá-lo e
estudá-lo, para lançar a correção”, observa Maurício Gaudêncio, gerente de
desenvolvimento de negócios para segurança da Cisco Brasil. “Isso pode levar uns
40 minutos. Só que, em cinco minutos, um vírus é capaz de derrubar uma rede.
”Para piorar a situação, a quantidade de novas pragas e de variantes das já
existentes aumenta a cada dia, obrigando os fornecedores de soluções a correr
contra o tempo – e as empresas a reforçar a segurança de suas máquinas e da
própria rede corporativa.
O perigo do spyware é um capítulo à parte. “Alguns mais
recentes são difíceis de serem retirados, até porque não há uma padronização
dessa ameaça, como ocorre com os vírus”, diz Rogério de Campos Morais,
presidente da Internet Security Systems (ISS) no Brasil. As vulnerabilidades dos
sistemas abrem brechas tanto para os spywares quanto para os vermes e outras
pragas virtuais, que chegam principalmente por e-mail, spam e sistemas de
mensagens instantâneas. “Um em cada 125 e-mails que circulam pela web são
tentativas de phishing”, afirma Fernandes, da Symantec. A estatística está no
relatório Internet Security Threat do primeiro semestre deste ano, um
levantamento da Symantec sobre as principais ameaças à segurançana internet no
mundo. Segundo a pesquisa, o volume de ataques de phishing subiu de 2,99 milhões
para 5,7 milhões de mensagens por dia, entre o último semestre de 2004 e o
primeiro de 2005. Ophishing é um tipo de código malicioso, criado para roubar
informações dos usuários – como senhas de contas bancárias e de cartões de
crédito. Os códigos maliciosos representaram 74% das 50 principais pragas
detectadas pela Symantec nos primeiros seis meses do ano.
Outra ameaça que vem crescendo são as redes bot. São redes
coordenadas de computadores controladas a distância por crackers, por meio de
programas instalados secretamente nas máquinas. O relatório da Symantec
identificou 10 352 micros escravizados em redes bot ativas por dia no mundo –
dos quais 19% estão no Brasil. Essas redes, em geral, são usadas para
comprometer sistemas e até para realizar ataques de negação de serviço (em
inglês, Denial of Service Attack, ou DoS), outro problema sério na internet. Um
cracker pode colocar um grande número de máquinas para acessar um mesmo site ao
mesmo tempo, de modo a provocar um DoS e tirá-lo do ar. Estratégia parecida é
usada pelos vírus e vermes de rede. “Eles entram na máquina sem que o usuário
perceba e criam um tráfego muito grande, com o objetivo de fazer a rede parar”,
diz Picoli, da Trend Micro. “É uma ameaça grave para pequenas e médias
empresas.”