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TI para todos A tecnologia chega a quem não tem acesso a quase nada Viviane Zandonadi Como as pessoas, as ONGs, as empresas e o governo usam a tecnologia de informação para melhorar a vida da legião dos brasileiros sem PC e internet? INFO mapeou dezenas de iniciativas para responder a essa pergunta, e criou o Prêmio INFO de Inclusão Digital que pretende jogar os holofotes sobre quem faz diferença nessa área. Recebemos 68 inscrições para o prêmio. Sem a menor demagogia, pelo menos 56 dos programas de inclusão digital inscritos fazem o maior sentido, cada um com sua dimensão e alcance. Veja a lista de todos eles em www.info.abril.com.br/inclusaodigital. Selecionamos três, igualmente interessantes, para levar o prêmio. Oficina de sites O programa Garagem Digital joga o Photoshop e o Flash nas mãos da garotada da periferia de São Paulo O Centro de Profissionalização de Adolescentes Padre Bello (CPA) fica em São Mateus, na zona leste de São Paulo. O bairro é castigado por problemas típicos de periferia. Enquanto as crianças brincam na rua de chão batido, uns patos, perdidos por ali, bebem do córrego que exala mau cheiro. Mais de 300 mil pessoas moram na região. Desde 2002, o CPA sedia, entre outras atividades, o programa Garagem Digital, que é uma parceria da HP com a Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente. O programa nasceu na zona sul da cidade, em 2001, na Associação Meninos do Morumbi. Já formou 360 jovens. Hoje, além da Garagem instalada no CPA, há mais três nas cidades de São Gonçalo do Amarante, Beberibe e Limoeiro do Norte, no Ceará. A idéia é desenvolver competência no uso da tecnologia da informação e comunicação. Os participantes têm entre 14 e 24 anos e são selecionados de acordo com a disponibilidade escolar e/ou de trabalho, a região onde moram, a renda familiar e uma entrevista. A rotina das aulas estimula o senso crítico e a capacidade de trabalhar em grupo, mediar conflitos, argumentar, planejar, executar e avaliar trabalhos, acessar e contextualizar informações. Na prática, isso quer dizer que durante nove meses, duas vezes por semana e cerca de quatro horas por dia, as turmas de 30 ou 60 alunos se reúnem na Garagem para aprender a mexer no computador, a fazer sites em programas como Fireworks, Dreamweaver, Photoshop e Flash, a apurar informações e a criar conteúdo informativo. A sala tem 16 computadores, uma impressora e está online em banda larga. Os garotos escolhem um tema, sugerido pelos professores, e, no fim do programa, apresentam um produto: pode ser site ou portal, invariavelmente ligado à realidade da região e da comunidade. Uma aula na garagem Manhã de quarta-feira. Sala de aula da Garagem Digital. O ambiente não lembra em nada uma escola convencional. Tem música de fundo e a turma está envolvida na criação de um site sobre meio ambiente. O professor Sérgio Florentino, o Mota, escolheu Luz do Sol, de Caetano Veloso, para embalar a aula daquele dia. “Os versos evocam temas com os quais os alunos trabalham, como fotossíntese, energia da luz e ciclo das águas”, diz. Não por acaso, os garotos optaram por fazer um site de meio ambiente. Uma das características do bairro de São Mateus é ser muito pobre e ao mesmo tempo estar envolvido por uma extensa área (31 quilômetros quadrados) de preservação ambiental, a cabeceira do Rio Aricanduva. O trabalho inclui, além do aprendizado do HTML, muita pesquisa na internet e de campo. Estimulados pela possibilidade de publicar, os garotos vão às ruas, e à mata, apurar as necessidades da região e o que pode ser feito para proteger e melhor aproveitar a área de preservação. Inclusão em massa 472 mil pessoas já passaram pelos telecentros da prefeitura de São Paulo Cursos básicos de informática, oficinas de HTML, montagem de PCs e acesso livre e monitorado à internet. Vai por aí o menu de atividades dos telecentros, como são chamados os laboratórios de inclusão digital da prefeitura de São Paulo. O cardápio só não é tão grande quanto o número de laboratórios: são 118. Por eles já passaram 472 mil pessoas. Cada telecentro tem cerca de 20 PCs, terminais burros ligados em servidores e com internet banda larga. O sistema operacional é Linux. Em geral, o curso de informática é básico, com manhas de processador de texto, planilha de cálculo e navegação. Os monitores e coordenadores recebem treinamento específico e salários que podem chegar a 600 e 900 reais por mês. Os voluntários são normalmente destacados entre os freqüentadores. O laboratório é mantido pela prefeitura ou em parceria com alguma instituição. O acesso é gratuito para a população, claro, mas a manutenção do programa custa, em média, 8 mil reais por unidade. O telecentro pode ainda oferecer oficinas com cursos mais aprofundados, desde que existam condições e demanda. Em alguns casos, como quando o laboratório ainda é muito novo, o próprio instrutor adianta o expediente. Ângelo Bertolini, 19 anos, é monitor do telecentro que fica no CEU (Centro de Educação Unificado) Aricanduva, na zona leste de São Paulo. “O pessoal aprendeu a fazer blog e começou a pedir noções de HTML”, diz. “Como não havia curso formatado, pedi autorização e fiz uma apostila de cinco aulas, até que a gente tenha uma versão oficial com certificado.” Um diferencial dos telecentros que ficam em CEUs é que são cravados junto de escolas de educação infantil e ensino fundamental, o que permite que a garotada já cresça com a perspectiva de estudar informática. Não é pouco, já que a maioria não tem computador em casa. Tanto os laboratórios de informática quanto os CEUs são construídos preferencialmente em bairros da periferia, onde a exclusão digital é gritante. O primeiro bairro da capital a receber um telecentro foi a labiríntica Cidade Tiradentes, uma gigantesca Cohab (centro habitacional construído pela Companhia Metropolitana de Habitação) onde moram mais de 200 mil pessoas. Inaugurado em 2001, o telecentro fica em uma praça onde antes não tinha nada além de um conhecido ponto de tráfico, substituído por computadores. Em seguida, chegaram a padaria comunitária, o centro de saúde voltado a doenças sexualmente transmissíveis e, agora quase pronta, uma praça com quadra, parque infantil e pista de skate. O usuário médio dos telecentros é jovem (50% têm menos de 20 anos), tem renda de até dois salários mínimos e é mulher. Quando não estão fazendo nenhum curso, os freqüentadores usam o computador para criar e enviar currículo, pesquisar para trabalho de escola ou procurar emprego. O pessoal mais maduro também é ativo. Maria do Carmo Facione, 52 anos, é pioneira. Foi a primeira pessoa a visitar o primeiro telecentro de todos. Concentrada, ela não pára de escrever no site nem para dar entrevista. No acesso livre, os visitantes do laboratório têm apenas uma hora para ficar no computador. O tempo é precioso. Maria do Carmo gosta de escrever a história do Brasil. Tem um site sobre o “apogeu do café” e outro sobre a Revolução de 30. Ônibus e computador no canavial Adolescentes de Pernambuco aprendem informática em laboratório itinerante Imagine-se nos históricos canaviais e engenhos de açúcar do Nordeste, no município pernambucano Cabo de Santo Agostinho, a 30 quilômetros de Recife. De um lado, cana. Do outro, construções da época da escravidão. Mais adiante, um ônibus. Vá em frente. Não é uma condução convencional. Está cheia de computadores e alunos. O ônibus, ou Centro de Qualificação Itinerante, é peça-chave no projeto Informática para Todos, um dos braços do programa de qualificação profissional da cidade, pólo de indústrias, comércio e turismo. O ônibus vai a lugares ermos, onde a sala de aula convencional de informática não chega porque falta dinheiro. A coordenadora do projeto, Margarete Calado, contabiliza: desde o ano passado, passaram pela catraca 560 alunos. O veículo tem 20 computadores, cortinas, ar-condicionado e bancos que acomodam 40 alunos que aprendem informática básica de escritório e digitação. O principal objetivo — a maioria é mulher com mais de 16 anos e renda familiar de um salário mínimo — é conseguir vaga no mercado local, formado por multinacionais como Belco e Coca-Cola. Uma pequena parcela vai em busca de reciclagem. A infra dos centros que ficam em terra firme conta com seis a oito micros, um para cada dupla, mesas, cadeiras e quadro-negro. A configuração vai do Windows 98 ao XP. Os alunos são orientados por um instrutor e um monitor, e a carga horária de cada curso é de 60 horas, com duas horas diárias de estudo. Turmas especiais de reciclagem têm aulas nos fins de semana. Dos 12 instrutores e nove monitores, sete são voluntários e boa parte dos instrutores é formada por ex-alunos, como Marcos Dias, 23 anos, que começou a trabalhar como office-boy, fez o curso, virou monitor e há quatro anos ensina os jovens que cresceram no quintal ao lado. “Faço curso universitário de pedagogia. Quero ser professor”, diz Dias. Segundo Margarete Calado, até o Natal, 3 100 jovens (além dos 12 mil que já passaram por lá) terão aprendido noções básicas do informatiquês e anexarão aos currículos certificados técnicos. O projeto não é auto-sustentável, ainda. Custa ao cofre municipal 216 mil reais por ano.
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