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POR SILVIA BALIEIRO

Como os portáteis estão mudando a maneira como as pessoas e as empresas trabalham

Em janeiro deste ano, o empresário paulista Eduardo Gonçalves trocou a correria do centro de São Paulo por outro tipo de agitação: a das areias de Armação de Búzios, no litoral carioca. Entre uma caminhada na rua das Pedras e um banho de sol nas praias de Geribá, Ferradura e Brava, o celular tocou. Proprietário das duas lojas Digital West nos arredores da rua Santa Ifigênia, o famoso reduto dos eletrônicos, ele precisava aprovar com urgência uma negociação.

Gonçalves sacou seu notebook amarelo — um Asus Lamborghini com processador Core duo de 2 GHz, 100 GB de HD e 1 GB de RAM — e seu Vivo Zap, um cartão PCMCIA de acesso à internet via rede celular da Vivo. Bastaram cinco minutos para acessar o sistema de vendas online e fechar o negócio. “Sem o notebook eu possivelmente teria perdido a venda”, afirma.

Não é somente nas viagens que o empresário lança mão de seu portátil. Mesmo dentro das lojas, o computador é companhia obrigatória. As operações da Digital West são movidas por seis notebooks. Todos estão conectados à internet — provida por um acesso Speedy 650, da Telefônica — por Wi-Fi. Eles fazem o controle de estoque, elaboram orçamentos, realizam vendas, administram o site, emitem notas fiscais ou verificam contas a pagar e a receber. Um sistema online de administração roda no datacenter da LocaWeb e precisa ser acessado a cada transação realizada por Gonçalves e seus funcionários.

Há dois anos, a situação na Digital West era bem diferente. Cada loja tinha um desktop que rodava um sistema local. Quando a máquina travava ou o sistema ficava indisponível, todo trabalho tinha de ser feito com papel e caneta. Depois, um funcionário parava para mandar os dados para o sistema. “A cada parada, a confiabilidade das informações ficava comprometida”, diz Gonçalves.

A Digital West é apenas um exemplo de como os notebooks vêm invadindo as empresas. Segundo a consultoria IDC, a participação desses portáteis no mundo corporativo cresce três vezes mais que a dos desktops. Como resultado, a fatia dos notebooks nas vendas de PCs para empresas, que foi de 6% em 2006, deve ficar entre 15% e 20% este ano. Considerando o mercado de um modo geral, as vendas de notebooks chegaram a 560 mil unidades em 2006, de acordo com a IDC.

E isso é só o começo. Em mercados maduros como Estados Unidos e Japão, as vendas de portáteis representam 38% e 51%, respectivamente, o que mostra que no Brasil ainda há muito espaço para expansão. “Devemos crescer mais em notebooks do que em desktop este ano”, diz Hélio Rotenberg, presidente da Positivo, empresa que ocupa o posto número 1 nas vendas de computadores no Brasil.

A Dell, que está no topo dos PCs para o mercado corporativo, estuda aumentar sua linha de portáteis produzidos no país. “Quando as empresas perceberem a flexibilidade e a agilidade que o notebook traz para o negócio, entraremos num círculo virtuoso”, afirma Raymundo Peixoto, presidente da Dell.

Lei do Bem

Flexibilidade e agilidade para os negócios não são os únicos pontos a favor do crescimento das vendas no Brasil. Também pesou a favor desse boom a queda dos preços estimulada pela valorização do Real e, principalmente, a isenção da cobrança de PIS/Cofins para notebooks — que, a partir de janeiro, passou para até 4 000 reais. Na opinião de especialistas, a maior influência do item preço foi sobre as pequenas empresas e os usuários domésticos. “Dentro das grandes empresas a maior motivação para a compra de um notebook ainda é a mobilidade”, afirma Elber Mazaro, diretor de marketing da Intel.

Com a Lei do Bem, a diferença de preço entre um desktop e um notebook caiu de 3 000 reais para 1 000 reais nos modelos básicos. “O barateamento dos preços fez os notebooks chegarem às lojas de varejo, o que facilitou a aquisição do hardware, principalmente para pequenas empresas. Antes, elas eram obrigadas a comprar em revendas corporativas”, diz Reinaldo Sakis, analista sênior da IDC. Como conseqüência, as lojas especializadas procuraram outras formas de faturar. “Hoje nossa principal renda vem da oferta de serviços”, diz Paulo Castanho, proprietário da Casa do Notebook, com sede em São Paulo.

Encarando o AutoCAD

Além de preços mais acessíveis, os portáteis estão ganhando pontos no poder de processamento. “Os notebooks deixaram de ser um micro com performance pior que a de um desktop”, afirma Flavio Haddad, presidente da Lenovo Brasil. O engenheiro Dinarte Bonetti Júnior, comprova essa afirmação. Há 30 anos Júnior projeta casas na região da Serra da Cantareira, em São Paulo. Usuário de portáteis desde 1989, quando o equipamento era chamado de laptop, em 1995 o engenheiro passou a usar um “note” para rodar até o AutoCAD, da Autodesk. Apesar de ter uma máquina com tela de 14 polegadas, o engenheiro dispensava o papel na apresentação de suas obras. “Com o AutoCAD o cliente não só via como passeava pelo projeto”, diz.

Além da mobilidade, Júnior destaca a produtividade que veio acompanhada pelo micro portátil. Há quatro anos, numa viagem a Londres, o engenheiro finalizou um projeto e acompanhou o início das obras por meio de fotos e desenhos. Quando voltou, dois meses depois, a fundação do terreno já tinha sido concluída. “Se não fosse o notebook, as obras só seriam iniciadas depois que eu chegasse”, diz.

Hoje, o engenheiro continua acompanhado de um portátil. Sua máquina atual é um Tecra, da Toshiba, com um processador Pentium 4 de 2,8 GHz, 2 GB de RAM, HD de 120 GB e tela de 17 polegadas. Além dos projetos de CAD, Júnior roda nesse notebook o controle de suas empresas: uma construtora, uma imobiliária e uma loja de material de construção. “É mais produtivo ter um notebook para controlar as três empresas do que um desktop em cada escritório”, afirma Júnior.

Na Lobo Filmes, produtora de design e animação em São Paulo, After Effects, Photoshop, Illustrator e Maya são ferramentas básicas de trabalho. Há pouco tempo rodar esses programas num notebook estava fora de cogitação. Mas hoje é essa a máquina presente em seis das 12 mesas dos criadores da empresa. Um deles é Mateus de Paula Santos, sócio-fundador e diretor de criação da Lobo Filmes.

Para onde vai, Santos leva seu MacBook Pro, da Apple, com processador Core 2 Duo de 2,33 GHz, 3 GB de RAM e 160 GB de disco. Para vídeo há uma placa ATI Mobility Radeon X1600 com memória não compartilhada de 256 MB. A tela do portátil é de 17 polegadas, mas quando está no escritório o diretor de criação prefere fazer a visualização num megamonitor LCD de 30 polegadas, também da Apple. “Há dois anos tinha um desktop para criar os trabalhos e um notebook para as apresentações no cliente. Agora o notebook faz as duas tarefas”, diz Santos.

Petróleo na tela

Os notebooks também trabalham em alto-mar na extração de petróleo. Dentro das plataformas da Petrobras são os portáteis que fazem o trabalho de programação do CLP, o Controlador Lógico Programável. Essas máquinas estão ligadas a sensores que lêem a pressão, a força do gás, a temperatura local e a vibração das máquinas, entre outros parâmetros. Se a temperatura está alta ou se a pressão aumentou, o CLP manda um comando e regulariza a situação.

As mudanças de configuração e a leitura de dados obtidos pelo CLP são feitas com notebooks. Cada plataforma tem hoje 5 CLPs dentro das salas de controle. O funcionário pluga o notebook e faz a programação. O computador não precisa ter configuração muito avançada, mas há exigências que nem todos os modelos conseguem atender, como porta serial e drive de disquete. “O custo de parada para fazer upgrade é muito alto, por isso temos a preocupação de ter equipamentos que conversem com as máquinas em funcionamento”, diz Aparecido Laje, gerente de automação da Petrobras.

Antes, esse mesmo trabalho era feito com um desktop. No entanto, era preciso ter uma máquina ao lado de cada um dos controladores. Na hora de fazer a atualização, o técnico precisava carregar o programa na máquina e depois fazer a leitura. “Ganhamos rapidez na execução do trabalho e na economia de espaço, que já é escasso dentro de uma plataforma”, afirma Laje.

Sobram 3 horas

Da Petrobras à Santa Ifigênia, o uso mais intenso do notebook está fazendo as empresas enxergarem o portátil como ferramenta de produtividade. Um estudo realizado pelo Gartner mostrou que a troca de um desktop por um notebook pode aumentar a produtividade em aproximadamente 3 horas por semana. “Quanto mais fácil for o acesso à informação, maior será a rapidez na tomada de decisões”, diz Daniel Ribas, gerente de produtos para a área de notebooks comerciais da HP.

A Pfizer, uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo, colocou um notebook na mão de cada um dos seus 649 representantes no Brasil. Samia Moussa, de 28 anos, é um deles. Todos os dias a farmacêutica visita consultórios para divulgar os medicamentos da Pfizer. Além de folders e amostras grátis, um iPaq 2410, da HP, está sempre na maleta de Samia. Nele roda o sistema de visitação médica ETMS, desenvolvido pela Dendrite. O programa é uma espécie de formulário que a representante preenche com informações sobre as visitas.

Ao final do dia, já em casa, o notebook ThinkPad R51 da Lenovo com processador Pentium M de 1,5 GHz, 512 MB de memória e 30 GB de disco entra em ação. Samia sincroniza o iPaq e o notebook e depois se conecta à internet pela banda larga Speedy, de 300 Kbps, subsidiada pela Pfizer, para enviar as informações para a empresa. Feito isso, os dados passam a ser compartilhados com todos os outros representantes.

Antes da chegada do notebook esse processo, que hoje termina em um dia, podia levar 15 dias ou mais. Tudo era feito em papel. Os representantes preenchiam os formulários e enviavam os documentos pelo correio ou fax. No escritório da Pfizer, uma equipe era encarregada de digitalizar as informações para o sistema de visitação médica. “Ganhamos em confiabilidade e em rapidez de acesso aos dados”, afirma Marcelo Vieira, diretor de finanças e TI da Pfizer. Além do envio das informações, o notebook é usado para treinamento a distância dos representantes. “Nas aulas somos informados sobre as novas drogas e sobre o resultado de pesquisas farmacêuticas”, diz Samia.

Se a configuração dos notebooks corporativos varia de acordo com o tipo de negócio, uma preocupação é recorrente entre todos: a segurança. “As empresas abrem mão da webcam embutida e do gabinete brilhante para ter recursos como leitor biométrico e proteção de HD”, diz Renata Gaspar, diretora de computação pessoal para empresas da HP.

Entre os fabricantes, a tendência é tornar ainda melhor o desempenho dos portáteis. As baterias devem ficar mais leves e com mais autonomia, e o LCD poderá ser substituído por tela de LED, que consome menos energia. As possibilidades de conectividade, por sua vez, devem ficar mais abrangentes. “O que as empresas querem e precisam é aproveitar cada vez mais o tempo ocioso dos funcionários” diz Roberto Brandão, gerente de tecnologia da AMD para a América do Sul. O que pode acontecer dentro do escritório ou fora dele.

Workstation mobile?

Se a tarefa exige uma máquina poderosa mas portátil, esse é um trabalho para uma workstation mobile. É esse o nome que os fabricantes deram aos notebooks com poder de desktop, que inclui memória de vídeo dedicada, tela widescreen e, em alguns casos, leitor biométrico. São desse grupo modelos como o Compaq nw9440, da HP, o Precision M90, da Dell, e o ThinkPad Z60, da Lenovo. Lá fora, um dos modelos mais avançados é o Vaio VGN-AR270 CTO Blu-ray, da Sony, que tem 2 GB de RAM, 256 MB de memória de vídeo, tela widescreen de 17 polegadas e drive Blu-ray. O preço? 5 033,99 dólares.

1,1 milhão é a previsão de vendas de notebooks no país este ano

Fonte: Intel

Um em cada dez PCs

Fatia dos notebooks no mercado brasileiro de PCs — em %

5 - 2005

8 - 2006

10 - 2007

Fonte: IDC

80% dos notebooks vendidos no Brasil vão para as empresas

Fonte: IDC

As vendas dobram

Notebooks vendidos no Brasil — em mil unidades

275 - 2005

560 - 2006

Fonte: IDC

A evolução dos portáteis

1976

A Xerox PARC apresenta o Xerox Note Taker, considerado o primeiro computador portátil. Nunca chegou a ser comercializado.

128 KB de RAM

Processador de 1 MHz

22 quilos

1981

Surge o Osborne 1, da empresa Osborne Computer Corporation, o primeiro portátil comercial do mundo.

Monitor CRT monocromático de 5 polegadas

Processador de 4 MHz

65 KB de memória

12 quilos

1 795 dólares

1982

A Grid Systems Corporation anuncia o Compass. Em 1986 a máquina foi usada pela NASA em viagens espaciais.

Tela de 320 x 200 pixels

Processador Intel 8086

340 KB de memória

Modem de 1 200 bps

5 quilos

1983

A Compaq coloca no mercado seu primeiro produto, o Compaq Portable, 100% compatível com os computadores IBM, padrão de mercado na época. Vendeu 53 mil unidades em um ano.

Tela monocromática de 9

Processador Intel de 4,77 MHz

128 KB a 640 KB de RAM

Dois drives de disquete de 5,25 polegadas

12,7 quilos

3 590 dólares

De 8 000 a 10 000 dólares

1984

Surge o SX-64, da Commodore. Foi o primeiro portátil com tela colorida. Não fez sucesso: vendeu apenas 9 000 unidades até ser descontinuado em 1986.

Tela de 5 polegadas

Processador MOS 6510 de 1 MHz

64 KB de RAM

Sistema operacional Microsoft Basic 2.0

10,5 quilos

995 dólares

1986

A IBM anuncia o PC Convertible. O primeiro laptop da Big Blue também foi o primeiro computador a usar floppy de disquete de 3,5 polegadas.

Tela de LCD monocromática

Processador Intel 80c88 de 4,77 MHz

256 KB de RAM (expansível a 512 KB)

5,5 quilos

1 995 dólares

1987

A japonesa Toshiba cria o T1000, o primeiro portátil pequeno o bastante para ser carregado numa mochila.

Processador Intel 80c88 de 4,77 MHz

512 KB de RAM (expansível a 1,2 MB)

Disquete de 3,5 polegadas

2,9 quilos

1991

A linha PowerBook, da Apple, chega com três integrantes: o PowerBook 100, 140 e 170. Mesmo com gabinete mais enxuto que o do Macintosh Portable, de 1989, mantiveram o trackball

Processador de 16 MHz

2 MB de RAM (expansível a 8 MB)

HD de 20 MB ou 40 MB

2,3 quilos

2 500 dólares

1992

Sai o primeiro modelo da linha ThinkPad, da IBM. O ThinkPad 700c estréia o Trackpoint, o pontinho vermelho no centro do teclado.

Tela de 10,4 polegadas

HD de 120 MB

Processador 486SLC de 25 MHz

Sistema Windows 3.11

3 quilos

4 350 dólares

1993

A IBM apresenta o ThinkPAD 730T, chamado por muitos de Pen PC e considerado um Tablet PC. Tinha tela sensível ao toque, mas não trazia teclado nem mouse.

Tela de 9,5 polegadas

Processador 486SX de 33 MHz

12 MB de RAM e HD de 260 MB

2 quilos

3 499 dólares

2002

Já após a fusão com a Compaq, a HP mostra o Tablet PC Compaq TC1000.

Tela de 10,4 polegadas

Processador Transmeta Crusoe TM5800 de 1 GHz

768 de memória SDRAM

Placa de vídeo nVidia Ge Force 2 de 16 MB

1,3 quilo

9 633 reais

2004

A IBM apresenta o ThinkPad T42, o primeiro notebook com leitor de digitais embutido.

Tela de 15 polegadas

Processador Pentium M de 1,8 GHz

HD de 40 GB

256 MB de RAM (expansível a 2 GB)

2,5 quilos

2 000 dólares

       


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