DAGOMIR MARQUEZI
POR DAGOMIR MARQUEZI
Eu, no Second Life?
É uma tentação escapista. Mas pode mudar o mundo
Segunda vida para mim sempre foi uma questão religiosa. Temos esta vida aqui, com suas glórias e desgraças, grandezas e misérias. Haverá outra quando nossos olhos se fecharem e nossos corações pararem? Isso é uma questão de fé. Mas entramos no século 21 com um novo conceito de “outra vida”. Ela já não depende mais de crença, mas de banda larga e um cartão de crédito.
O Second Life (www.secondlife.com) virou mais um fenômeno da internet. Suas implicações culturais devem apontar para caminhos que nem podemos tentar imaginar agora. Eu me inscrevi mas... não fui muito adiante. Achei meio complicado. E percebi que se tornaria outro ralo para meu tempo, já tão administrado. Está difícil tocar todos os compromissos da minha First Life. Mas eu já dei umas voltas pela Second na carona de uns amigos.
Achei um mundo esquisito, falso, incompleto, simplista. Ou seja, irresistível. Percebi o perigo de entrar em mais um mundo paralelo. Especialmente em um planeta onde quase TODAS as mulheres são deliciosas e se vestem como a elite das profissionais do sexo. Talvez um dia eu entre de vez no Second Life, e aí vou ter de arcar com a conseqüência: menos tempo de mundo real, como se ele estivesse sobrando. Aquilo é uma tentação escapista, por enquanto. Mas pode mudar o mundo. Juro.
Quando soube que uma grande empresa global vai dar cursos virtuais aos seus funcionários no Second Life, comecei a levar a sério as possibilidades desse mais novo e inacreditável instrumento de interação humana. Ailin Graef, uma chinesa que mora na Alemanha ganhou o primeiro milhão de dólares (bem reais, por sinal) especulando com os terrenos imaginários da Second Life por meio de seu avatar, Anshe Chung. Pouca gente conhece o rosto de Graef, mas a coleção de pixels chamada Anshe Chung foi capa da Business Week.
Não vão faltar condenações (especialmente de psicólogos e pedagogos) ao fenômeno do Second Life. Elas já começaram, e vão insistir no fato de que nada pode substituir a experiência da vida real. É claro que eles têm razão. Mas quando a realidade se torna tediosa, mecânica e previsível como um velho videogame, uma segunda vida ajuda a manter a sanidade.
E por falar em segunda vida, a Electronic Arts anunciou mais uma geração do bom e velho The Sims — o Sims História. A idéia é que você assista à vida de um personagem Sim como uma mistura de novela com Big Brother. Você comanda a vida da personagem Rita Najura, mas às vezes ela tem vontade própria e toma decisões independentes do que você tinha planejado.
A linha História transforma a experiência de simulação de seres humanos (o próprio princípio do The Sims) num conteúdo que pode ser descrito em forma narrativa por você. O que era um jogo se transforma em uma nova forma de ficção, com personagens movidos por inteligência artificial. Absolutamente revolucionário, pode virar o instrumento perfeito nas mãos de um escritor de mente aberta. Ele pode iniciar uma história que se desenvolve sozinha.
Excelente idéia. Mas a modéstia não me impede de declarar que (até que provem em contrário) eu inventei isso em 1999 nas páginas da revista Web!, prima-irmã da INFO. Instalei o The Sims no meu desktop, criei avatares meu e do meu filho e comecei a viver a realidade paralela, como uma obra de ficção chamada O Diário dos Sims, uma ciber-novela.
Durante quase dois anos descrevi o que aconteceu naquele universo: meu casamento na cozinha, meu emprego no marketing político, meu avatar assassinando um rival, o enriquecimento ilegal do meu personagem, seu romance com uma Ana Kournikova virtual... Uma obra de ficção com vida própria.