Prateleira cheia no Wal-Mart
Bill Gonzales comanda a tecnologia que abastece os 300 supermercados da rede no Brasil
POR FRANçOISE TERZIAN
De hora em hora, cada item que passa pelos caixas de uma das 300 lojas do Wal-Mart no Brasil é transmitido para o computador central da matriz, na cidade americana de Bentonville, no Arkansas. Numa operação que leva meros dois segundos, os dados são processados e voltam para o Brasil em formato de ordem de compras. Benchmark mundial em tecnologia, o Wal-Mart usa a TI para fazer o reabastecimento automático de produtos nos supermercados. No Brasil, quem empurra o carrinho lotado de bits e bytes é Bill Gonzales, um chileno de 55 anos que passou a maior parte da vida no Canadá e já coordenou vários projetos de integração do Wal-Mart pelo mundo. Veja trechos da entrevista que ele concedeu à INFO, no QG da empresa, em Tamboré, na Grande São Paulo.
INFO - Como funciona o sistema de reabastecimento automático do Wal-Mart?
Gonzales - A cada hora, os bancos de dados das nossas lojas enviam um relatório de vendas ao sistema central da matriz, em Bentonville. Os sistemas de lá analisam as vendas e mandam a ordem de compra para cada país. Dessa forma, é gerado o reabastecimento automático. O processo de ida e volta leva, em média, dois segundos. Quando chega ao Brasil, a informação cai no servidor de compras local, que lança uma ordem ao EDI.
Todos os fornecedores se comunicam por EDI?
Não. Entre nossos 3 mil fornecedores brasileiros, há desde pequenos agricultores locais que se comunicam via telefone ou fax até grandes que usam web EDI.
O fornecedor sabe como andam suas vendas?
Sim. Isso é possível graças a um sistema global chamado Retail Link. Ele foi desenvolvido internamente e fica centralizado nos Estados Unidos. Contém dados de todas as transações ocorridas por mercadoria ou categoria em qualquer ponto-de-venda do mundo. Com ele, o fornecedor consegue saber quantos tubos de pasta de dentes vendeu na loja de Osasco às 16 horas.
Quando RFID será ampliado para o Brasil?
O Wal-Mart está fazendo estudo de RFID no Canadá e na Inglaterra. No Brasil, não é uma prioridade neste momento. A tecnologia ajuda o negócio, mas não é o negócio. A prioridade atual é a integração dos sistemas e processos das redes Bom Preço e Sonae, adquiridas pelo Wal-Mart respectivamente em 2004 e 2005.
Em que fase está esse projeto?
Estamos em processo de integração dessas companhias. Quando terminarmos, todo o poder computacional ficará nos Estados Unidos. O Wal-Mart opera de forma centralizada. É em Bentonville que fica o datacenter da rede, onde estão sistemas como os de suporte às lojas e ao centro de distribuição, financeiro e de recursos humanos. Mas todos os países têm centros computacionais locais. Aqui em Tamboré temos um minidatacenter onde ficam armazenados sistemas para pagamento interno, relacionamento com o fornecedor e servidores de e-mail.
O Wal-Mart usa CRM?
Não. Preço baixo é o que atrai o cliente. Eu não sei quem é você, mas eu sei o que você compra. E olha que temos, semanalmente, 160 milhões de clientes passando por nossas lojas em todo o mundo. O item mais vendido no Wal-Mart em qualquer lugar é a banana. Daí, eu analiso o que você mais compra com banana. Se for Coca-Cola, eu a aproximo da banana. Usamos o software Market Basket, que estuda as compras por cliente. É uma base de dados imensa concentrada nos Estados Unidos.
Há planos de trabalhar com e-commerce no Brasil?
Isso é uma prioridade. Queremos oferecer a versão online das lojas do Wal-Mart e do Sam’s Club.
Por que o Wal-Mart desenvolve tanto internamente?
Somos um varejista muito grande, com pagamento de 1,8 milhão de pessoas, vendas anuais de 320 bilhões de dólares e mais de 100 mil lojas em 15 países. Para suportar todo esse volume, nossos sistemas precisam estar ligados à nossa história.
Você tem liberdade para comprar um software nacional ou é obrigado a seguir a matriz?
O uso de sistemas centralizados evita que os países invistam em um sistema computacional core, como financeiro e de gestão. É claro que há sistemas locais como de pagamento, de relacionamento com o fornecedor, servidor de e-mail, servidores de segurança. Em casos em que a necessidade de negócio justifique fazer desenvolvimento ou compras locais a gente faz.
O que roda nos PDVs do Wal-Mart?
Nossos cerca de 4,5 mil PDVs são todos da IBM, assim como o sistema operacional proprietário, que foi customizado para nós. Já as aplicações foram desenvolvidas internamente pelo Wal-Mart. Em cada loja, também trabalhamos com servidor Unix no back office.
O Pão de Açúcar e o Carrefour usam PDVs com Linux. Você pensa em seguir pelo mesmo caminho?
Não. Temos uma experiência enorme, de muitos anos, com Unix. Temos novas tecnologias constantemente sendo avaliadas por nossos laboratórios nos Estados Unidos e o Linux é uma delas. Mas não planejamos usá-lo neste momento.