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O ERP agita os pequenos


Como os sistemas de gestão empresarial estão mudando o coração dos pequenos negócios

POR ROSA SPOSITO

Todos os oito funcionários da administração foram demitidos. Os gastos com treinamento dobraram. E a empresa teve de montar um departamento de tecnologia. Que tipo de vendaval passou pela Plenna Balanças Digitais e Analógicas — uma pequena fábrica no bairro do Bom Retiro, em São Paulo? Foi a implantação de um sistema de gestão empresarial. A Plenna ilustra bem os desafios que os pequenos negócios enfrentam ao adotar um ERP — algo que mexe com cada centímetro da organização e com a cultura dos funcionários.

A Plenna não era exatamente uma novata: usava um sistema de gestão, com recursos limitados, desde 1987. Quando decidiu fazer um upgrade, em 2000, comprou o pacote Protheus, da Microsiga. “A gente sofreu bastante”, diz Dany Piatetzky, 39 anos, sócio, diretor comercial e o responsável por TI na Plenna. Mesmo tendo passado por treinamento, os funcionários não conseguiam explorar os recursos do sistema. “Tivemos de trocar toda a equipe da área administrativa, porque eles só conseguiam executar duas ou três operações que estavam acostumados a fazer no ERP antigo. Era como se tivéssemos comprado um BMW para andar a 80 km por hora”, afirma.

Oito pessoas foram substituídas em 2001, e a empresa dobrou o investimento em treinamento. Mas o uso da ferramenta de gestão só deslanchou em 2004, depois que a Plenna contratou um analista de sistemas para dar suporte aos usuários. Hoje o ERP está integrado, com informações centralizadas no banco de dados Oracle, que podem ser acessadas por qualquer um dos 22 usuários do Protheus. Só que apesar dos 700 mil reais já investidos, a empresa ainda não atingiu a meta de ter uma ferramenta para apoio a decisões — que está embutida em um dos módulos do pacote da Microsiga.

De acordo com uma pesquisa do IDC, com executivos de 460 pequenas e médias empresas brasileiras, o ERP aparece em segundo lugar na lista de prioridades de investimentos em TI para este ano — logo depois da segurança. A participação das pequenas empresas no mercado de ERP no país ainda é baixa. “As vendas de pacotes no Brasil somaram 184,1 milhões de dólares em 2005, dos quais apenas 8,8% vieram de pequenas empresas”, afirma Marcelo Kawanami, analista de pesquisa da Frost & Sullivan. São 16,2 milhões de dólares por ano.

Para os fornecedores, o mercado é promissor. Tanto que empresas de soluções tradicionalmente usadas por grandes corporações — como a SAP e a Oracle — investiram em sistemas pré-configurados e com licenças mais em conta para diminuir a necessidade de customização, reduzindo o tempo e os custos de implantação. As pequenas empresas, em geral, não têm um time de TI preparado para ajustar o ERP aos seus processos de negócio. “Muitas vezes é o próprio dono quem cuida de tudo”, diz Fabio Costa, presidente da IDC Brasil.

15 toneladas de pães

De modo geral, o que leva uma pequena empresa a buscar um sistema de gestão é o crescimento do negócio. Foi assim com o supermercado Casa Santa Luzia e com a loja de produtos para animais e plantas Cobasi. Ambas são usuárias do RMS Retail, uma espécie de SAP do varejo, desenvolvido pela paulista RMS. Até dois anos atrás, o Santa Luzia usava um sistema simples, para controle de estoques e suporte a compras. Mas a empresa cresceu — hoje trabalha com 30 mil itens e produz 15 toneladas de pães e 25 mil pratos congelados por mês.

Mesmo sendo um dos donos do negócio, Azuil Lopes, diretor de TI da Casa Santa Luzia, levou dois anos para convencer a diretoria a investir na mudança de sistema — que envolveu também a compra do banco de dados Oracle, de quatro novos servidores e a troca de cerca de 50 PCs. Foram quatro meses para converter e complementar os cadastros de produtos. Agora a empresa passa por uma nova fase do projeto, que envolve a padaria, os pratos congelados e a rotisseria, com um módulo criado pela RMS em conjunto com a Casa Santa Luzia. “Colocamos as receitas no sistema e, quando o prato fica pronto, ele dá baixa automática no estoque dos ingredientes”, diz Lopes.

Na Cobasi, que tem sete lojas, o pacote da RMS entrou em operação em julho. Ele substituiu um sistema em Cobol que havia sido desenvolvido internamente por um dos sócios da empresa — o diretor administrativo Paulo Nassar, de 39 anos, formado em economia — junto com uma equipe de três analistas e programadores. Nassar cuidou de cada detalhe da implantação do RMS Retail, que já consumiu um investimento de mais de 300 mil reais. “Implantar um ERP não é fácil. Para que tudo dê certo, é preciso ter pessoas que decidam, que conheçam muito bem o negócio e que tenham todos os processos devidamente mapeados.”

Por seis meses, os testes de cada módulo do sistema tomaram a maior parte do tempo de Nassar dentro da empresa. Em contrapartida, quando o sistema antigo foi desligado, não houve choque. “Agora as lojas estão todas online e a atualização das informações é imediata”, diz.

Software de aluguel

Alugar o software pode ser uma alternativa para pequenas empresas que não têm dinheiro em caixa para comprar um ERP. Diversos fornecedores de pacotes oferecem essa opção. “Além de não pagar pela licença do software, a empresa não precisa investir em hardware e os custos de manutenção e de suporte caem drasticamente”, diz Bruno Rossi, diretor de consultoria da ASM do Brasil. É o caso da Soma Brasil, que fabrica lâminas magnéticas para motores e transformadores. Usuária do pacote de gestão da Datasul desde 1995, a empresa contratou o serviço de outsourcing do fornecedor para evitar investimentos na atualização do software e de hardware.

       


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