A Internet virou doença?
Visitei a primeira "clínica" brasileira especializada em casos de dependentes da Internet
POR DAGOMIR MARQUEZI
Você é viciado em internet? Provavel-mente todo leitor da INFO deve ser. A gente se estica online muito mais do que deveria, tem momentos de pura inutilidade na rede. É um vício. Mas não um IAD. IAD quer dizer Internet Addiction Disorder, algo como Distúrbio de Depen-dência da Internet. Uma nova doença mental? Ainda não. Mas uma síndrome, o sintoma de um problema extremamente novo. Não vamos esquecer que o boom da internet tem apenas cinco ou seis anos.
Qual o limite entre ser viciadinho em internet e sofrer de IAD séria? Eu visitei a primeira “clínica” brasileira especializada, o NPPI (Núcleo de Pesquisa da Psicologia em Informática) da PUC-SP. Está entre aspas porque não chega a ser uma clínica, apenas um centro de estudos e aconselhamento.
Os psicólogos do NPPI fazem a separação básica entre o uso criativo e o uso restritivo da internet. Se você usa a internet criativamente, por mais horas que fique ligado, está construindo alguma coisa, trabalhando, conversando etc. Mas no uso restritivo, como o nome diz, a internet restringe a sua vida real. Eles deram vários exemplos reais de gente que os procurou — por e-mail.
Os casos incluem pessoas que ficam tanto tempo online que perdem o emprego, perdem o ano na escola, deixam de sair de casa, deixam de tomar banho. Vivem uma vida paralela onde a fantasia e a realidade parecem ser mais ou menos a mesma coisa. Os sintomas da Internet Addiction Disorder são parecidos com outros sintomas de dependência (de drogas, de bebida, de jogos de azar etc.) Em primeiro lugar conta se você precisa cada vez mais tempo de internet para se satisfazer. Em segundo, se sente a síndrome de abstinência quando está offline. Em terceiro, se seu trabalho, seu estudo, sua saúde, sua vida pessoal e social estão sendo prejudicados pelo uso obcecado da internet. Finalmente, a pergunta que cabe em qualquer tipo de dependência: você mente sobre seu uso da internet? Diz que está conectado há uma hora e meia quando está fixado no monitor há 12?
Caso sua vida se encaixe no que está escrito nesse parágrafo acima, faça um favor a você mesmo: escreva um e-mail para o NPPI da PUC (clinica@pucsp.br) e descreva seu caso. Talvez você precise de ajuda clínica. É bom também saber que existe quem discorde disso tudo, e negue até a própria existência da IAD. O psicólogo americano John Grohol diz que essa é doença inventada para dar emprego a psicólogo. Ele afirma que todo o conceito desse distúrbio é quase plágio de um problema real, a dependência de jogos de baralho, bingo etc.
Para o doutor Grohol, existe preconceito contra a internet. Segundo ele, se a pessoa está plugada há dez horas, está viciada. Mas se ela passar dez horas seguidas lendo um livro, será cumprimentada pela sua curiosidade cultural. E ele acha que, tirando os exageros, a internet só faz bem à vida sexual e social das pessoas. O próprio pessoal do NPPI reconhece que os chats, por exemplo, estão dando um upgrade na vida dos casais.
Não vamos ser cínicos. Todos nós provavelmente passamos longas e excelentes horas na internet. Eu sempre critiquei esses tecnófobos que se julgam superiores porque não têm computador em casa e passam suas noites lendo ou pintando aquarelas. A internet, quando bem usada, é um instrumento imbatível em qualquer campo da atividade humana. Pobre de quem resiste.
PS. – Muito obrigado a todos que me mandaram dicas de programas para gravar os vídeos do YouTube.