Yes, nós temos software!
Pode ser uma simples aplicação para celular escrita em Java. Ou um sistema para o mainframe de uma refinadora de petróleo. A vocação brasileira para o desenvolvimento de programas nunca esteve tão em alta. Entre as 200 maiores empresas de tecnologia do país, 51 se dedicam majoritariamente ao setor de serviços de software — e empregaram juntas 58,3 mil pessoas em 2005. Boa parte desses profissionais trabalha em fábricas de software que não apenas abastecem o mercado nacional como também exportam tecnologia. Os adeptos vão de gigantes como a IBM e a indiana Tata Consultancy Services a nomes criados no Brasil, como a Stefanini e a CPM.
O aquecimento da demanda por serviços de software gera um movimento ascendente de investimentos. A IBM, por exemplo, vai injetar 1 bilhão de dólares no desenvolvimento de software de gerenciamento ao longo dos próximos três anos. Nesse período, a empresa quer expandir sua base de clientes em 65% e pretende chegar a uma equipe de 15 mil programadores espalhados pelo mundo.
O Brasil tem um papel importante dentro dessa estratégia de investimentos — até porque os serviços já correspondem a mais de 40% do faturamento da empresa no país. No ano passado, a IBM inaugurou em Hortolândia, no interior de São Paulo, seu Global Command Center, centro de tecnologia que comanda as operações de serviços de outsourcing prestados no país e no exterior.
“A demanda é grande tanto do ponto de vista dos pedidos que chegam dos clientes como da nossa necessidade por mais profissionais qualificados”, afirma Marcelo Annarumma, diretor de Recursos Globais e Iniciativas Estratégicas da IBM para a América Latina. Com isso, a Big Blue chega a quarteirizar alguns projetos de outsourcing. A consultoria brasileira attps, por exemplo, já atendeu a clientes da IBM como a Petrobras e a Esso.
De fato, o desenvolvimento de software tem expandido o número de vagas para os profissionais de TI brasileiros. É o caso da CPM, que tem entre seus acionistas o Bradesco e o Deutsche Bank. Com 2 mil profissionais focados em desenvolvimento, a empresa ampliou sua mão-de-obra em 35% e deve continuar expandindo o quadro. Neste momento, profissionais especializados em Cobol e DB2 estão entre os perfis que a CPM busca no mercado.
Outro exemplo da pujança das fábricas de software está na Tata Consultancy Services Brasil, braço do grupo indiano Tata. “Na TCS, 75% dos nossos mil funcionários são desenvolvedores”, diz Sérgio Rodrigues, country manager da empresa. E tem espaço para mais gente. “Há mais de 500 vagas em aberto para desenvolvimento em plataformas como Java, .Net, Oracle, SAP e Cognos”, afirma Joaquim Rocha, diretor de Recursos Humanos da TCS. Depois da Índia, o Brasil é o país que mais cresce para o grupo — e gera códigos para lugares como Venezuela e França.
DE COBOL A .NET
Se na década passada boa parte do desenvolvimento de uma empresa era realizado internamente, hoje mais de 50% ocorrem fora de casa. O que muda para o profissional de TI é o lado do balcão em que ele vai atuar. “Este é um dos melhores momentos para analistas e programadores de empresas de serviços, por conta da grande demanda por tecnologias variadas de web, como .Net e Java; mainframe, caso do Cobol; e SAP, com o Abap”, afirma Marco Stefanini, presidente da consultoria Stefanini IT Solutions.
Não por acaso, dos 4 mil funcionários da empresa, metade só desenvolve software. Em 2006, a Stefanini planeja aumentar em 25% o número de profissionais de desenvolvimento. Essas contratações são motivadas por projetos que envolvem desde sistemas de supply chain e portais a aplicativos específicos para a área de telecomunicações.
Por conta das demandas externas, a Stefanini tem operação em 14 países — da Argentina e México aos Estados Unidos e Espanha. Dependendo dos trabalhos, desenvolve tanto aqui quanto lá fora. E a representatividade das vendas externas vem crescendo. Hoje, 20% da receita da Stefanini é gerada no exterior. Em 2009, a meta é fazer com que a área internacional alcance 50% do faturamento. Outra oportunidade considerada lucrativa para as fábricas de software é a manutenção. “Entre 60% e 70% do orçamento de aplicação hoje é voltado para manutenção”, afirma Stefanini.
O negócio é o offshore
Segundo Maurício Minas, vice-presidente sênior da CPM, os serviços de TI movimentam mais de 1 trilhão de dólares em todo o mundo, valor que inclui desde atividades de projeto e gestão até desenvolvimento de software. Desse total, 600 bilhões de dólares vêm de serviços terceirizados, um mercado que cresce a uma taxa de 6% ao ano. Já o offshore outsourcing, que acontece fora do país de origem do contratante do serviço, representa 35 bilhões de dólares desse volume.
Nicho com crescimento anual a taxas de 40%, o offshore outsourcing é dominado atualmente pela Índia, responsável por 20 bilhões de dólares do bolo. O Brasil ainda fica com meros 500 milhões de dólares, mas é visto como uma das principais promessas do offshore. “Nosso país desenvolve software para o mercado doméstico há trinta anos. Hoje, é um dos maiores pólos de recursos”, afirma Minas. Para ganhar destaque no exterior, as fábricas brasileiras de códigos também têm buscado o caminho da certificação. A Stefanini e a TCS são dois exemplos de consultorias que contam com o CMMi (Capability Maturity Model) de nível 5. Esse certificado, com cinco níveis, confere à empresa um padrão de qualidade internacional na engenharia de software.
Algumas empresas, no entanto, deixam de aproveitar a onda de offshore justamente por não conseguir preencher todas as vagas de desenvolvimento. “Com a forte demanda interna, ainda não estamos divulgando nossos serviços fora do Brasil porque nem teríamos como atender”, afirma Sérgio Rodrigues, da Tata Consultancy Services Brasil. O caso não é isolado. “Nosso problema não é de demanda, mas de capacidade de produção”, diz Elcio Mansur, vice-presidente da attps Informática.
Com 143 vagas em aberto para profissionais com perfis variados — como desenvolvedor Java, Lotus Notes e Visual Basic — e atuação em quatro cidades diferentes, a attps vem tendo dificuldade para preencher suas posições. “Não sei se conseguiremos contratar todos os profissionais que precisamos até o fim do ano”, diz Mansur. A empresa tem hoje um quadro de 530 colaboradores, sendo que quase 90% desenvolvem software.
Experts em mainframe
Não é na Índia e muito menos na China que fica instalado o maior celeiro para profissionais de plataformas de grande porte. O endereço tem sido o Brasil, país que tem muita mão-de-obra especializada em mainframe. Segundo Maurício Minas, da CPM, a Índia, que poderia ser nossa principal concorrente neste quesito, tem poucos profissionais especializados em mainframe. O motivo? Quando ela ingressou no desenvolvimento, o conceito que estava em alta era o de plataforma baixa. Entretanto, mais de 85% dos dados do mundo ainda correm em mainframe, tecnologia que, segundo Marcelo Annarumma, da IBM, é de difícil formação. Até 2010, ele estima que haverá um déficit de 200 mil pessoas especializadas em mainframe no mundo.
Por outro lado, em plataforma baixa, o que tem gerado muita procura no mercado atualmente é J2EE, .NET e plataformas de negócios como SAP e Oracle. Maurício Minas, da CPM, dá um conselho para quem planeja se candidatar a uma dessas vagas: não mudar constantemente de emprego. “O turn-over alto impede o profissional de conhecer o cliente, sua rotina e seus processos a fundo”, diz. Segundo Minas, esse é justamente um dos problemas pelo qual passa a Índia neste momento.
500 é o número de vagas abertas para PROGRAMADORES na TCS, braço da indiana Tata
Fonte: TCS
20% daS VENDAS da Stefanini vêm do mercado externo
Fonte: Stefanini
Vem aí os captive centers
Mais uma buzzword ganha fama no mercado de outsourcing: os captive centers. São fábricas de software criadas por subsidiárias de multinacionais onde a relação custo-benefício de desenvolvimento é atrativa. Assim, elas passam a exportar programas para suas matrizes. Mais de dez empresas já montaram captive centers no Brasil. Philips, Dell, Rhodia e Johnson & Johnson são alguns dos exemplos. “As multinacionais têm optado pelo Brasil pelo fato de suas filiais aqui instaladas serem grandes e haver muitos recursos de TI”, afirma Maurício Minas, vice-presidente sênior da CPM.