O Banrisul trai o pinguim
Linux ou Windows? O CIO Ney Michelucci Rodrigues, do Banrisul, fica com os dois
POR FRANçOISE TERZIAN
Windows nas estações de trabalho, Linux na maioria dos servidores. Durante a atualização do parque de máquinas do Banrisul, o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, o lugar de cada sistema operacional foi delimitado sem radicalismos, sob o comando do gaúcho Ney Michelucci Rodrigues, de 52 anos, diretor de TI do banco estatal. Com uma equipe de 600 profissionais na área de tecnologia, Rodrigues administra um orçamento de 125 milhões de reais por ano e mantém no ar uma rede de 401 agências e 290 postos de atendimento, além das contas de 2,89 milhões de clientes. Para muita gente, ver o Windows ganhando espaço no Banrisul pode soar estranho — o banco ficou conhecido como um fervoroso evangelista de Linux. A decisão causou polêmica na ala mais radical dos adeptos do software livre. Na entrevista a seguir, Rodrigues explica os motivos da opção pelo Windows XP nos 10 mil desktops da instituição.
INFO - Por que o Banrisul, que sempre levantou a bandeira do Linux, resolveu voltar para o Windows?
Rodrigues - A decisão de uso do Windows envolve apenas as estações de trabalho. Isso aconteceu por conta da atualização do nosso parque de máquinas, em agosto do ano passado. Tínhamos um ambiente complexo, que incluía mais de cinco fabricantes de equipamentos e três plataformas operacionais: Windows 95, Windows 98 e Conectiva. Das 7300 máquinas de 401 agências e 290 postos de atendimento, cerca de 35% usavam Linux. É difícil manter e atualizar um ambiente tão diversificado como esse. Agora, os 10 mil desktops do Banrisul estão em processo final de adoção do Windows XP. Até o momento, 95% já migraram para o XP.
O que levou o banco a se decidir pelo Windows em vez do pingüim nos desktops?
Manter a plataforma Linux nos desktops nos daria um custo adicional. Tiramos o Linux das estações de trabalho, mas o Banrisul continua trabalhando com esse sistema nos servidores de negócios no prédio central, nos servidores das agências e nos 2300 ATMs.
Em que, exatamente, o uso do Linux sairia mais caro?
O banco precisa estar sempre atualizado nas versões que rodam nas máquinas, e o que tínhamos aqui era um Conectiva desatualizado. Sairia mais caro porque eu já tenho uma série de situações com contratos da Microsoft, como suporte de alto nível. Agregar mais 7 mil posições não altera em nada esses contratos, enquanto nos manter em Linux me obrigaria a contratar um integrador. Com o Linux, o custo sairia entre 10% e 15% mais alto.
O banco continuará usando Linux?
Não estamos nos afastando do Linux. A preferência parte do momento e de uma análise exclusivamente financeira, econômica e comercial. Não olho em função do passado, mas sim do futuro. Um exemplo de continuidade de adoção do software livre é o mainframe, que ganhará uma partição em Linux.
Todos os servidores do banco rodam o pingüim?
Nem todos. Há também os que rodam Windows. Tudo depende da aplicação. Nas agências, quase 100% dos mais de 400 servidores são Linux. Já na administração central, 50% dos 250 servidores usam Linux. Estamos fazendo um estudo de atualizações. Devemos trocar a distribuição Conectiva pela Red Hat.
Por que vocês decidiram mudar para o Red Hat em vez de continuar na linha Mandriva Conectiva?
Primeiro, porque o Red Hat já está consolidado. Das quase 300 distribuições Linux existentes, a Red Hat é uma das primeiras para os quais os grandes fabricantes de hardware e software disponibilizam seus drivers e certificam seu software. A Red Hat é uma das poucas distribuições homologadas para Oracle, um banco de dados largamente utilizado no banco. Além disso, existe similaridade com o Conectiva Linux usado atualmente, o que permite a manutenção da equipe técnica sem muitos treinamentos adicionais. Finalmente, a facilidade para encontrar suporte técnico e treinamento qualificado para Red Hat também é um fator que foi considerado.
Que outros tipos de software livre o Banrisul usa?
Nas estações de trabalho de agências, usamos o pacote OpenOffice. Nos sistemas operacionais também temos o FreeBSD e o Suse, no mainframe. Usamos vários outros tipo de software livre, sem custos de licença. Eles entram em 1750 ATMs, 150 dispensadoras de cheques, 650 terminais de extratos e pagamentos de contas, 450 servidores de agências e 70 servidores de firewall, proxy, autenticação e em diversas outras aplicações.
Qual foi a repercussão com a comunidade linuxista nessa decisão de adotar Windows nos desktops?
Foi negativa. Infelizmente, algumas correntes pró-software livre divulgaram de forma equivocada ou até intencional que o banco estaria abandonando o software livre. Ocorre que a padronização do sistema operacional aconteceu em estações de trabalho apenas. Foi uma decisão respaldada por um estudo técnico, um ROI de cinco anos. A avaliação do Custo Total de Propriedade apontou o Windows XP como a solução mais adequada. As decisões no Banrisul sempre serão norteadas por meio de estudos técnicos respeitando o trinômio simplificação, continuidade e gerenciamento. Enfim, uma relação ótima entre custo/benefício. Nesse caso, não havia dúvidas. A prova é que o mercado tem relutado em adotar o Linux nos desktops.
Que tipos de desenvolvimento de software o banco faz em casa, com as equipes internas?
Por característica própria, o banco desenvolve internamente todos os seus sistemas aplicativos. Nos últimos anos, estamos buscando soluções de mercado para produtos administrativos e gerencial.
Na equipe de profissionais de TI, ter experiência em software livre é condição indispensável?
Não, mas é recomendável. O Banrisul investe em treinamento sempre que necessário.
Como o banco está usando os smart cards?
Temos aplicações como smart cards com multiprocessamento, que vão carregar toda a parte do internet banking, proteção de segurança e certificação digital. Desde o ano passado, operamos um cartão inteligente com sistema operacional Multos, que proporciona multifunções para transações de acesso altamente seguro ao internet banking. É o smart card que processa a criptografia e a remete para o computador central. Atualmente são 35 mil cartões com smart card em operação e em torno de 250 mil clientes que interagem diariamente com o banco pela internet.
O smart card só tem vez no internet banking?
Não, o Banrisul também já trabalha com smart card no Banco Sim, que é destinado a atender a população desbancarizada. Hoje, temos 3 mil correntistas de uma agência do município de Pelotas, no Rio Grande do Sul, que passam por um piloto de smart cards. Ao todo, o Banco Sim tem 2,8 milhões de correntistas.
Ser um banco de linha mais popular como o Sim implica ter tecnologias menos sofisticadas?
Entendo que não, pelo contrário. A tecnologia, mesmo que sofisticada, tende a diminuir o custo. Aliás, foi exatamente no Banco Sim que introduzimos o primeiro modelo de transação EMV full grade, mecanismo de autenticação dinâmica de dados, em smart card.
O uso mais intensivo de tecnologia se reflete no aumento do número de transações dos clientes?
Sim, a diversidade e segmentação dos canais de atendimento, fortemente alicerçados em tecnologia, são amplamente demonstradas pelo crescente número das transações bancárias realizadas atualmente, se comparadas com o que se fazia há 10 anos.
Qual a explicação para ampliar a quantidade de agências justamente em um momento em que o total de usuários de internet banking aumenta?
A demanda por transações e atendimento em agências ainda perdura. A questão da migração para outros canais, por exemplo, o internet banking, é um movimento crescente, diretamente relacionado com a questão cultural e o nível econômico da população.