Memórias de um DVD
Preservar a história
depende cada vez mais
de nós, dos gravadores
de DVD e dos scanners
POR DAGOMIR MARQUEZI
Nessa longa estrada da vida amigos somem, amigos ficam, mulheres marcam ou viram uma vaga lembrança. Muito do que fizemos fica presente, muita coisa desaparece e tudo o que podemos fazer é contar aos filhos nossas aventuras e repetir tudo de novo até que eles nos encarem como um velho gagá. O que foi a grande aventura de nossas biografias talvez vire um fio de lembrança que levaremos ao túmulo sussurrando para ninguém. Algumas pessoas não ligam para isso. Querem morrer sem deixar marcas nem levar lembranças. Outros são preservadores por natureza, como eu. Carrego papéis, fitas e fotos por décadas. Sou um adepto do conceito de que quem não conhece o passado repete os erros no futuro.
Felizmente tenho o privilégio de viver esta magnífica era digital. A cada velha foto em papel desbotado que eu passo pelo scanner sinto o alívio típico da tribo dos preservadores. A cada texto impresso que eu consigo digitalizar tenho a alegria de saber que ele não será mais destruído pelo bolor. Cada fita cassete que passei para minidisc foi uma vitória. Escrevo tudo isso para dizer que entrei numa nova fase tecnológica de preservação histórica. Essa fase custou 800 reais em dez vezes sem juros.
Lembro-me do tempo em que gravadores de DVD eram trambolhos de 6 mil reais. Agora, estão ao alcance do crediário da Lojas Americanas. Num domingo desses eu peguei toda minha enorme coleção de fitas VHS, joguei a metade inútil fora e organizei a metade útil. Lá está o passado. Os curtas-metragens que ajudei a produzir. Os capítulos das novela que ajudei a escrever. As entrevistas que dei e as que fiz. Cenas de família. Meu filho crescendo. A longa viagem pela Califórnia a bordo de um Mustang vermelho.
Algumas dessas fitas travaram ou foram tomadas pelos fungos. Ou estão uma bagunça eletrônica, cheias de interferências e distorções que terei de encaminhar a restauradores. Num país que trucida seu passado a cada minuto, eu faço minha parte. Uma das fitas registra minha participação num programa alternativo de televisão chamado Radar. A gravação é de mais ou menos 1983. Ali estou eu, muito mais magro, ainda de topete, vestindo uma camiseta de grandes listras vermelhas e brancas. Digo que eu, o espectador e a humanidade em geral estamos todos condenados a morrer em curtíssimo prazo, vítimas de um incontrolável holocausto nuclear.
Para mim, na época, parecia questão de horas se americanos e soviéticos decidissem apertar seus respectivos botões e os mísseis começassem a voar. Hoje, isso parece tão ridículo quanto minha camiseta de listras vermelhas e brancas. Ironicamente, sei que em alguns poucos anos talvez volte a me preocupar com isso. Aiatolás pirados do Irã garantirão a volta da paranóia.
Cada fita preservada transformada em megabytes num disquinho de DVD tem o sabor de vitória. Mesmo as mais pessoais. Porque não existe diferença entre o pessoal e o coletivo quando falamos em preservação. O sujeito que tirou a foto do primo num viaduto em 1913 estava fazendo história. Registrou as roupas que o primo usava, a moda da época, o estilo de foto, o viaduto — que já foi demolido.
O homem do século 21, se tem algum tipo de preocupação com o futuro, tem de acabar com a idéia de que existem especialistas para tudo. Nossa saúde depende de cada um de nós, a sobrevivência do precário ecossistema, idem. Assim como preservar a história depende cada vez mais de nós, dos scanners e dos gravadores de DVDs.