Saque o relógio para pagar!
Sergio Murtinho, CIO da Redecard, conta
para onde caminha a tecnologia de transmissão
nos cartões de débito e de crédito
POR FRANçOISE TERZIAN
Já pensou em pagar a gasolina no posto usando apenas um relógio ou um simples colar? Pois esse tipo de tecnologia é uma das coisas que andam na cabeça do engenheiro carioca Sergio Murtinho, diretor executivo de operações, tecnologia e serviços da Redecard. Aos 44 anos, Murtinho capitaneia a infra-estrutura por trás da captura e da transmissão das transações com cartões de crédito e débito de bandeiras como MasterCard, RedeShop, Maestro e Diners. Para isso, o CIO está sempre antenado com as tecnologias sem fio — tanto no trabalho como em casa. Dono de um notebook, um PDA e dois celulares, ele também levou os domínios do Wi-Fi ao seu apartamento em São Paulo.
A massa de dados que Murtinho tem de gerenciar no dia-a-dia impressiona. Só no ano passado, a Redecard realizou 800 milhões de transações e faturou 53,5 bilhões de reais. Em épocas como o Natal e o Dia das Mães, a rede — que tem mais de 860 mil estabelecimentos credenciados — dá conta de cerca de 7 milhões de transações por dia. Veja, a seguir, trechos da entrevista que Murtinho concedeu à INFO.
INFO - Com a tendência da extinção dos fios e celulares cada vez mais complexos, o cartão ainda sobreviverá?
Murtinho - No mercado de pagamentos eletrônicos, o que se vende, no fundo, é um tráfego de confiança. O cartão é a materialização da sua identidade, com seu nome, número e conta. Nos Estados Unidos, há um piloto da MasterCard que usa relógios Swatch com RFID. Você entra no McDonald’s, coloca o relógio em contato com o caixa e a conta é paga. O formato do cartão é algo simbólico, pode ser redondo, um bracelete, um relógio. O que se faz é ir eletronicamente até o banco e, em três ou quatro segundos, retornar com a informação de que o sujeito tem crédito e que o lojista poderá fornecer o produto com a garantia de receber depois. Todo o ciclo é baseado na confiança e quem garante isso é a tecnologia.
O pagamento feito por meio do relógio também será testado no Brasil?
Vamos testar aqui também, mas ainda não sabemos se usaremos um relógio, um colar ou o cartão com RFID. O meio físico não importa. Com o RFID, na hora de pagar a compra, o cliente poderá passar direto no caixa do supermercado. O meio de pagamento será reconhecido automaticamente, sem a necessidade de se tirar o cartão da carteira. Dá para passar a até 1 metro de distância.
E se eu estiver na fila logo atrás com o meu cartão? Não existe a possibilidade de o sistema debitar o valor de outra pessoa na minha conta?
Isso pode acontecer, mas a logística operacional não permitirá esse tipo de erro. Os supermercados deverão fazer um corredor especial para esses pagamentos. E aí o sistema vai pegar o cartão que está mais próximo.
Por que a maioria dos POS (Point of Sale) usados nos estabelecimentos ainda tem fios?
A gente começou a trabalhar com tecnologias wireless no fim de 2000. Na época, usávamos a tecnologia CDPD (Cellular Digital Packet Data), da BCP, e um POS grande. Fizemos um piloto em Alphaville. O restaurante America e pizzarias locais entregavam o pedido em casa e efetuavam o pagamento com cartão na hora, na porta de casa. Sem fios, os dados eram transmitidos, e o recibo, impresso. Era um equipamento completo, com POS com teclado e impressora acoplados. Só que aí vem o lado que ninguém nunca lembra. A dificuldade, nesse caso, não era a tecnologia, mas sim o operacional. Imagine um motoqueiro com um equipamento grande. Perdemos muitos equipamentos (de cerca de mil dólares cada), que chegavam aqui em dois, três pedaços.
Há também a questão preço, não?
Eu instalo um POS a cada quatro minutos no Brasil. Em comparação à base total, bem poucos são sem fio. É uma tecnologia que custa quatro vezes o preço do terminal convencional. O wireless faz sentido quando você tem necessidade de manter o cartão presente ou porque a mulher não gosta de sair do carro em um posto de gasolina. Nesse caso, o terminal é levado até o cliente, a uma distância de até 100 metros de sua base. Outro benefício do sem fio é a vantagem de evitar fraude e clonagem, algo que custa muito para a indústria.
E, atualmente, como está essa tecnologia empregada nos sistemas de entrega?
Hoje, os equipamentos são menores, mais rápidos e utilizam as bandas de celular de dados GSM ou GPRS como meio de transmissão, com criptografia e segurança. E o aparelho é simplesmente um POS daqueles tradicionais que você vê no balcão das lojas, só que menor, mais compacto e vai numa bolsa. Dessa forma, dá para pagar com cartão de crédito, débito, voucher eletrônico e, inclusive, com cheque. O entregador de pizza consegue consultar o cheque na hora com o Serasa.
Qual a saída caso o POS wireless não funcione?
O sinal da rede celular hoje é estável na maior parte dos lugares, mas se acontecer de não pegar, há uma contingência, e o entregador de pizza efetua o pagamento de forma manual, no papel mesmo.
Com a evolução da telefonia celular, há algum serviço que a Redecard começará a oferecer?
Estamos estudando o táxi com pagamento móvel. Fizemos um piloto há três anos, que foi abortado por conta da área de sombra que impediu a máquina de funcionar. Hoje, voltamos a pensar em desenhar um piloto, mas daí eu caio em outro problema. Nas tecnologias sem fio, os piores problemas são operacionais e não tecnológicos. O aparelho tem uma bateria. Há o acendedor de cigarros que fica na frente, mas o aparelho precisaria ser colocado atrás, perto do passageiro. Além disso, como é que eu garanto, por exemplo, que o passageiro não vai levar o aparelho?
O que as redes 3G dos celulares agregarão aos serviços prestados pela Redecard?
Com o 3G, colocarei serviços de voz sobre IP com mais performance, já que o POS pode funcionar como telefone também. O estabelecimento que é cliente da Redecard tem hoje um POS para autorizações de crédito e débito e um telefone ou um computador para solicitar antecipação de crédito ou material que acabou. Com o 3G, poderei centralizar tudo num lugar só.
Quando poderemos usar o celular nos pagamentos?
Estamos com um projeto que prevê o mobile commerce. Mas, neste momento, temos como foco o fornecedor e seu cliente. Imagine que o caminhão de um fabricante de cervejas chega para entregar dez caixas em um bar e pede para ver o cartão. O vendedor do fabricante pega o celular, passa o cartão — modelos assim estão sendo desenvolvidos —, recebe um OK e libera a cerveja porque está garantido de que aquele cartão tem saldo e já foi autorizado. Nesse caso, o celular funciona como um POS.
Há também projetos de automação de força de vendas na Redecard?
No segundo semestre, vamos anunciar uma solução com PDAs para os vendedores irem a campo, em tempo real, tratarem da vida dos estabelecimentos. O PDA trabalhará interligado à nossa central aqui dentro.
Vocês são adeptos do trabalho remoto?
Possuímos escritórios remotos de vendedores espalhados pelo Brasil, com computador, fax, impressora e xerox. Eles usam a tecnologia MetaFrame de emulação, na qual, via internet, é possível ter a empresa toda em seu terminal. Também inovamos na hora de evitar riscos, como o de a empresa parar em caso de incêndio. Se isso acontecer, nós rapidamente moveremos algumas pessoas-chave para o hotel Blue Tree, que fica aqui em frente. Munidos de notebooks, pelo MetaFrame conseguimos operar a empresa via internet.