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Um dia seremos todos wireless


Com uma máquina que cabe dentro do bolso, vamos trabalhar em qualquer lugar onde haja sinal de celular

POR DAGOMIR MARQUEZI

O dia estava frio e úmido e meus ossos doíam. Eu esperava passar um dia de roupão, debaixo de um edredon, no sofá. Mas tudo o que eu consegui foi um telefonema nervoso. Do meu chefe. “Temos um grande acidente na via Dutra. Morreu a principal testemunha do escândalo daquela famosa estatal. Corra pra lá, mande matéria completa para o jornal e boletim para o rádio.” Saí de casa só com um agasalho impermeável. E meu celular. Não precisava de mais nada.

Cheguei ao local do desastre e logo percebi que era o primeiro repórter presente. Alguns policiais tomavam conta do local, chefiados pelo tenente Pedreira, velho conhecido meu. Fingi que não sabia da importância da vítima. Logo Pedreira estava olhando para o outro lado e me deixando à vontade. Circulei os destroços, farejando detalhes, pedaços do quebra-cabeça, pistas quentes.

Foi quando descobri um bloco de papel meio chamuscado, mas perfeitamente legível. Assim que percebi o tamanho da encrenca que tinha nas mãos, puxei meu celular do bolso e liguei para o chefe. Exigi dele a manchete principal da primeira página.

Eu não podia perder tempo. A primeira coisa que fiz foi usar o celular para tirar algumas fotos do local. Incluindo o close de uma pasta, semidestruída, com o logotipo da Presidência da República. Mandei as fotos por e-mail para o diagramador do jornal. Em seguida, abri o celular como se abre um livro. Ele se revelou um microminicomputador. Entrei no editor de texto e comecei a batucar nas miniteclas com meus polegares. Antes da redação final, chequei alguns detalhes do caso no Google, pelo browser da pequena tela.

Não é o mais confortável computador do mundo para escrever. Mas, ora essa, eu estava de pé ao lado de um carro destruído, no meio da via Dutra, escrevendo a minha matéria antes que qualquer outro repórter ao menos chegasse ao local! No bloco chamuscado, havia números altamente comprometedores. Montei uma tabela dos números do escândalo na planilha do celular — e mandei tudo por e-mail. Se tivesse que apresentar aquilo tudo em slides, como um PowerPoint, poderia montar tudo lá mesmo, de pé na Dutra.

Antes de me mandar, pensando nos prêmios que ganharia com a matéria, tinha mais duas tarefas a cumprir. Primeiro, gravei no celular um boletim para o noticiário de rádio. Dei um trato na minha voz e mandei. Depois, como sempre faço, abri meu blog no browser e escrevi um relato exclusivo, do tipo “coisas que você não vai ler amanhã no jornal”. Meus leitores sabem que não há blog jornalístico mais quente na cidade. Pronto. Missão cumprida. Como eu não sou de ferro, pluguei meus fones de ouvido no celular, abri o Real Player e voltei ao calor do sofá, ouvindo música relaxante em MP3.

EPÍLOGO

Tem uma mentira neste relato. Não existe mais repórter desse tipo no Brasil. Mas o celular existe. É o Nokia 9500 Communicator, operado no Brasil pela TIM. Custa cerca de 4 500 reais e está disponível apenas para empresas. Mas um dia, você sabe, custará menos e será a grande onda no Natal. Modelos concorrentes surgirão. Talvez esse nome — Communicator — pegue. Eu, pessoalmente, acho limitado. Não explica tudo o que essa pequena maravilha é capaz de fazer. Um dia será equipamento-padrão. Uma mão na roda para qualquer profissional. Todos wireless, com uma máquina de trabalho e diversão no bolso, em qualquer lugar onde haja sinal de celular.

       


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