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Jornada sem fios
As tecnologias wireless estão
mudando a forma como as pessoas
vivem, trabalham e se divertem
POR DéBORA FORTES
Sobral, interior do Ceará. São pouco mais de 9 da manhã quando 14 garotos se revezam na frente de sete computadores. Nos monitores, não há espaço para games irados. Com idades entre 14 e 21 anos, os meninos estão ali para aprender informática, uma das atividades da oficina-escola local. Alguns deles nunca tinham freqüentado nenhum colégio antes.
Santos, litoral de São Paulo. Às 8h15 da noite, Camila Martins Russo, analista de planejamento da Motorola, desce de um ônibus fretado. No trajeto de quase duas horas entre o escritório, na cidade de São Paulo, e sua casa, os e-mails e as planilhas são companheiros freqüentes. Assim como o notebook que ela carrega e da rede celular 2,5G que às vezes usa.
Rodovia Nova Dutra, Rio de Janeiro. Às 10 da noite, um médico está chegando a um pedágio. Não há nenhuma movimentação de procura de moedas ou dinheiro trocado. Quando o carro se aproxima das cabines, a catraca se abre automaticamente. E o valor será debitado na próxima fatura do cartão de crédito.
Nas três situações acima há um protagonista em comum, que trafega por aí de forma invisível. Seja para levar a internet a dois dos PCs da oficina-escola de Sobral e ao notebook dentro de um ônibus, seja para liberar as catracas do pedágio, várias siglas sem fio trabalham incansavelmente. Pode ser por Wi-Fi, rede celular, Bluetooth, rádio, RFID (Tecnologia de identificação por radiofreqüência. É usada nas etiquetas inteligentes) — ou até uma combinação delas. Pelo ar, dados críticos de um centro de terapia intensiva convivem com o som que chega sem fios às caixinhas traseiras de um home theater, sem preconceitos.
Hoje, é nas empresas que a onda sem fio está trazendo algumas das mudanças de comportamento mais visíveis. No escritório, a rede Wi-Fi rompe as barreiras do trabalho com hora e lugar marcados. Na fábrica, o RFID pode controlar milimetricamente cada etapa da entrada e saída de produtos. E, na rua, os vendedores consultam a posição atualizada dos estoques pela telinha do handheld. Algumas empresas no Brasil já aderem até a conceitos como o VoWi-Fi (Voice over Wi-Fi) (Designam a transmissão de aplicações de voz em redes sem fio) e o VoWLAN (Voice over Wireless Local Area Network), trafegando as ligações de telefone pela rede sem fio. De acordo com uma pesquisa do instituto Gartner, até 2009 cerca de 80% das empresas usarão recursos de voz sobre WLANs.
Quem anda pelo escritório da companhia de software SAS Institute, em São Paulo, pode pensar, num primeiro instante, que os telefones foram simplesmente abolidos. Os aparelhos tradicionais só sobreviveram na recepção, na copa e nas salas de reunião. Desde o fim de março, os 90 funcionários da subsidiária paulista acessam as ligações por meio de soft- fones, instalados em seus notebooks e desktops, usando um fone de ouvido integrado ao microfone. Voz e dados circulam juntos por uma rede Wi-Fi 802.11g, já preparada para 802.11x, com um link de 2 Mbps. Os notebooks podem trafegar online por qualquer um dos mil metros quadrados do escritório. “Ganhamos produtividade. Estamos sempre móveis, mesmo dentro da empresa”, afirma Milton Isidro, diretor-geral do SAS para a região Sul da América Latina. O investimento para levar o VoWi-Fi aos escritórios de São Paulo, Rio e Brasília foi de quase 200 mil dólares, e a empresa espera uma redução entre 30% e 50% no valor das contas de telefone. De quebra, a voz sobre IP também reforçou o arsenal de ferramentas dos adeptos do trabalho remoto. “As pessoas têm todo o seu ambiente dentro do notebook e podem acessá-lo por meio da VPN de qualquer lugar”, afirma Isidro.
Para quem vive longe do escritório, o home office se tornou uma das faces mais assíduas da jornada remota. Mas está longe de ser a única. O cenário pode ser um hotspot, o escritório de um cliente e — por que não? — um ônibus. É exatamente o caso da analista de planejamento da Motorola Camila Martins Russo, de 25 anos. Como mora em Santos e pega ônibus fretado, ela precisa sair da empresa pontualmente às 6 da tarde. Por isso, várias vezes por semana leva o notebook e, no caminho, responde aos e-mails, analisa planilhas eletrônicas e, eventualmente, acessa informações corporativas no banco de dados e no sistema de BI, usando uma conexão CDMA 1x da Vivo. “Assim, consigo sair no meu horário e ao mesmo tempo manter o trabalho em dia”, afirma. Quando não consegue se concentrar em alguma tarefa específica, Camila apela para um tipo de fio — no caso, o dos fones de ouvido de seu iPod.
Fora do home office, o escritório remoto nem sempre está restrito aos domínios dos notebooks. Cresce, em todo o mundo, o uso de aplicações baseadas em PDAs e em smartphones — e não só na área de automação de vendas. O Itaú BBA decidiu equipar cerca de 30 funcionários com o BlackBerry — o telefone inteligente criado pela canadense RIM que virou um fenômeno no mundo, com mais de 3 milhões de usuários, vendido aqui pela TIM. A maioria desses profissionais trabalha na área de banco de investimentos e precisa ficar superantenada. A grande sacada do BlackBerry está justamente em se manter sincronizado com o servidor de e-mails da empresa. O gerente-geral de tecnologia do banco, Francisco Manuel Ruas Pereira Coelho, trocou o celular por um BlackBerry há pouco mais de um mês e passou a monitorar a distância os e-mails. “Mas só respondo pelo aparelho se for um texto curto. Os longos deixo para depois, não é prático”, diz.
Enquanto as aplicações corporativas chegam com voracidade aos telefones inteligentes, outra frente ganha espaço nos celulares convencionais. É o vídeo, e não apenas para gravar a balada de quinta-feira à noite com a galera mas também para monitorar ambientes remotamente. A Vivo, por exemplo, já oferece no Brasil uma solução do gênero — a Olho Vivo. Está trabalhando e quer saber como anda seu filho, que está no apartamento com a babá? Primeiro, instala-se um software da operadora no computador de casa e liga-se a webcam. No celular, outra aplicação permite acompanhar o streaming de vídeo em tempo real — desde que, é claro, o aparelho esteja preparado para essa tecnologia.
As imagens também estão chegando à praia do Push to Talk over Cellular, o PoC. É o chamado PTV (Push to View) (Voltado para empresas, o sistema leva ao celular as funções dos aparelhos de rádio). “Com esse recurso, se você estiver falando por push to talk, basta apertar um botão para mandar uma foto para a sua equipe”, diz José Geraldo Alves de Almeida, gerente de desenvolvimento de novos negócios da Motorola. “No futuro, isso também acontecerá com o vídeo”, afirma.
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