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De carona no celular


Será que desenvolver aplicações para telefones móveis dá dinheiro?

POR ROSA SPOSITO

Quem vê a febre de downloads de jogos, ringtones e outros aplicativos para celulares pode achar que desenvolver programas para esse mercado é um bom negócio. Afinal, a tendência é a demanda aumentar, na medida em que as redes de celulares ficam mais rápidas e os aparelhos, cada vez mais sofisticados. Mas dá para ganhar dinheiro desenvolvendo esses programinhas?

“Dá, porque o mercado ainda tem muito para crescer”, afirma o engenheiro eletricista Marcelo Costa, diretor de tecnologia e inovação e sócio-fundador da mineira Takenet, cujo forte são os toques de campainha para celular. Antes que você se anime, é bom saber que não basta ter uma boa idéia ou ser um desenvolvedor aplicado para conquistar espaço. Paciência, disposição e capacidade de investimento — ainda que pequena — são ingredientes fundamentais para qualquer empreendimento nessa área.

A história da própria Takenet é um exemplo disso. Criada em 1999, a empresa apostou desde o início na convergência entre a internet e o celular. Em novembro daquele ano, colocou no ar o Shazan.net, site de busca baseado na tecnologia WAP. “Como na época não havia um modelo de negócios para essa aplicação, não tivemos resultado financeiro”, diz Costa. Durante dois anos, ele e seus três sócios — dois deles também engenheiros — investiram recursos próprios para manter a empresa, que tinha dois funcionários. Ao mesmo tempo, investigavam o mercado. Foi quando descobriram que alguns usuários preferiam comprar determinados modelos de celular porque ofereciam mais opções de toque de campainha.

Assim a Takenet encontrou sua vocação: criar ringtones para download. O primeiro produto foi lançado em janeiro de 2001, em Brasília, pela Americel (hoje do grupo Claro). No mesmo ano, outras operadoras aderiram à novidade. Atualmente, a Vivo é a principal parceira da Takenet. Além de ringtones, a empresa oferece outros programas para download, como papéis de parede, cartões multimídia e vídeos. O principal modelo de remuneração tem sido o compartilhamento da receita (ou revenue share), pelo qual recebe da operadora um percentual do valor cobrado pelo download do aplicativo.

Costa afirma que, desde 2002, os sócios pararam de colocar dinheiro do bolso para cobrir as despesas. Mas o lucro só veio a partir de 2003, quando os ringtones da Takenet tiveram um total de 18 milhões de downloads — número que saltou para 47 milhões, em 2004. Para dar conta da demanda, a empresa hoje possui 105 funcionários, entre os quais 13 músicos e cerca de 35 desenvolvedores de software, especializados em várias tecnologias, como Brew, Java, WAP e MMS.

A nTime, do Rio de Janeiro, tem uma história parecida. A empresa nasceu em 2000, por iniciativa de cinco amigos que faziam o curso de engenharia da computação na PUC-Rio — e, dentro dele, a disciplina de empreendedorismo. “Um dos projetos dessa matéria era, justamente, o de criar uma empresa”, diz Rafael Duton, atual diretor de marketing da nTime. Também nesse caso, o alvo foi a internet e sua perspectiva de evolução para a mobilidade. Com o objetivo de atender esse mercado, os cinco jovens — hoje com 28 anos em média — criaram uma plataforma de desenvolvimento de jogos para celulares.

A empresa só conseguiu colocar seus produtos no mercado em 2002. Primeiro foram os jogos, lançados pela Telesp Celular (atual Vivo) por intermédio do portal SeliG, do provedor iG. “Foi o primeiro dinheiro que recebemos, ainda no modelo de remuneração fixa mensal, por jogo”, afirma Duton. Aproveitando a Copa do Mundo de 2002, a empresa também desenvolveu um quiz sobre o assunto, via SMS, que foi lançado em várias operadoras — entre elas, ATL, Tess, Americel e depois a Vivo. No fim do mesmo ano, outro produto criado pela empresa, o Mobile Desktop, voltado para acesso remoto a arquivos e aplicativos do computador, virou uma solução exclusiva da Vivo, que o rebatizou de Escritório Móvel.

Hoje, a nTime tem seu foco principal no mercado de consumo e, além da Vivo e da Claro, fornece produtos também para a Oi, a Brasil Telecom e a Telemig. A forma de remuneração básica é o compartilhamento de receita. Se dá para ganhar dinheiro? Duton diz que ainda é cedo para ter lucro. “O mercado ainda está no início, mas vai crescer, e nós queremos construir uma empresa sólida, por isso reinvestimos 100% do que ganhamos”, afirma. Com um faturamento de cerca de 3 milhões de reais em 2004 (o dobro do obtido em 2003), a nTime pretende manter essa política de reinvestimento pelos próximos cinco anos.

Empresa Júnior

A Compera, de Campinas, tem obtido bons resultados não só com sua linha de entretenimento — que inclui cartões, fotos e serviços multimídia, como o Fotoblog Oi — mas também com a solução Dispara (para a automação de equipes de campo) e com o desenvolvimento de projetos de mobilidade sob encomenda para empresas. Entre elas estão o grupo Camargo Correa, a Agip Lubrificantes e a Siemens VDO. “Estamos em fase de obter a certificação CMMI (Capability Maturity Model Integration) nível 2 e, até julho, pretendemos atingir o nível 3”, afirma o engenheiro da computação Fábio Povoa, vice-presidente de negócios e um dos fundadores da Compera.

Ele tinha pouco mais de 20 anos quando criou a empresa, em 1997, junto com o sócio que conheceu na Unicamp, Fabrício Bloisi. Ambos participaram da Empresa Júnior de Computação, mantida pela universidade, e com base nessa experiência fundaram a Intraweb. Em 2000, a empresa recebeu um aporte de capital do grupo Rio Bravo Investimentos, que tem entre os sócios o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco. Foi quando saiu da incubadora, fundiu-se com a GoWap (outra empresa do grupo) e mudou o nome para Compera. Hoje, a Compera também fornece produtos multimídia para diversas operadoras — Oi, Brasil Telecom, TIM e Claro. E desenvolve ainda projetos em outros países da América Latina, principalmente no Peru e na Colômbia. Seu faturamento vem crescendo ano a ano: 2,5 milhões de reais em 2003, 4 milhões em 2004 e a previsão é atingir 6 milhões em 2005. “As perspectivas são muito boas”, diz Povoa.

O engenheiro com mestrado em administração Sérgio Carpenter, presidente e sócio-fundador da WIZ Technologies, também investe no mercado de aplicações móveis, mas faz uma ressalva. “Para ganhar dinheiro por intermédio das operadoras, é preciso ter escala”, afirma. Isso significa não só um número expressivo de clientes mas também a capacidade de oferecer o aplicativo em vários modelos de aparelhos. Segundo ele, esse é um dos trunfos da WIZ: sua plataforma permite portar as aplicações para até 60 modelos de celular, de tecnologias Java e Brew.

Ao criar a WIZ, em 2000, Carpenter trouxe para a empresa sua experiência na indústria de telecom— trabalhou dez anos na AT&T e, depois, prestou serviços de consultoria para empresas como a Nokia. Nos primeiros anos, concentrou-se em atender o mercado corporativo, desenvolvendo soluções baseadas em WAP — entre elas, o serviço de mobile banking do BankBoston. “A idéia era garantir o faturamento da empresa, já que não havia nenhum modelo eficiente de cobrança dos serviços para o segmento de consumo”, afirma. Em sua opinião, esse modelo só apareceu no Brasil em 2002, quando a WIZ direcionou seu foco para o mercado de consumo. Hoje, a empresa tem um portfólio de 45 aplicações, disponíveis em 14 operadoras do mundo — entre elas, a Verizon, nos Estados Unidos, e a Vodafone, na Espanha. Sua linha de produtos inclui o jogo Pênalti, um dos mais baixados na Vivo, o aplicativo Crazy Tones, com toques de campainha baseados na voz humana, e o serviço Vivo Localiza, de localização de pessoas pelo celular.

O crescimento do mercado de aplicações móveis começa a atrair até empresas estrangeiras para o país. A holandesa Mobile Fun, que trabalha com 26 operadoras no mundo, desembarcou aqui há um ano e já tem seus produtos disponíveis na Vivo e na Claro. São programas para a personalização de celulares, como ringtones e papéis de parede, serviços de chat (via SMS, WAP e internet), vídeos e cerca de 200 jogos, a maioria para a plataforma Brew. Filipe Rosa, diretor-geral da Mobile Fun no Brasil, concorda que para ganhar dinheiro nesse mercado é fundamental ter volume — o que exige parceria com várias operadoras. “E é preciso apostar nos aplicativos certos e manter o foco em determinadas áreas”, aconselha. Mas também é necessário investir. “O serviço de chat, por exemplo, é rentável, mas requer investimento em servidores, call center e em estrutura, porque as operadoras geralmente querem a solução completa”, diz ele. “Já os jogos não exigem tanto investimento, mas têm retorno menor.”

       


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