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A explosão do VoIP
Como a tecnologia de voz sobre
IP está arrastando pessoas e empresas
para a nova era da telefonia
POR DéBORA FORTES
Quando a psicóloga Sheila Minski, de 31 anos, embarcou para a Austrália para estudar inglês, em novembro passado, levou na bagagem um acessório especial: um fone de ouvido integrado a um microfone. É por meio de um aparelho como esse, combinado com um número local de Curitiba, que ela vem se comunicando com a família e com os amigos, nas constantes paradas que faz nos cibercafés da cidade de Brisbane e em suas visitas a Sydney. “Optei pela voz sobre IP logo de cara, antes de sair do Brasil”, diz. A escolha foi o WebFone Virtual, da GVT, com softfone (Esse software é usado nas ligações por voz sobre IP originadas pelo micro) acessado pela web. O uso tem sido intensivo: em janeiro, Sheila estampou no extrato 202 minutos de ligação local com Curitiba, 45 minutos para celular e 40 para longa distância. Pagou, incluindo a mensalidade, 78 reais. Se fosse usada uma operadora como a Embratel, nas ligações a cobrar no sistema BrasilDireto, o valor chegaria perto de 400 reais — ao preço de 1,35 real o minuto.
Nos cibercafés, nas casas, nas empresas ou em qualquer lugar onde chegue uma conexão de banda larga, o VoIP está varrendo do mapa os paradigmas da telefonia convencional, a chamada PSTN (Public Switched Telephone Network) (Sistema internacional de telefonia. Carrega a voz de forma analógica). “A voz era commodity. Estamos reinventando-a 100 anos depois”, afirmou em entrevista à INFO John Blake, o principal executivo de voz sobre IP da BT Global Services, parte do grupo British Telecom, a operadora que deu uma reviravolta e cravou um lugar na vanguarda da telefonia por IP. Com o VoIP, pouco importa se há um cabo de telefone passando pela sua porta ou não. Nem se o destino é a casa do vizinho ou Regensburg, na Alemanha. Na internet, os pacotes de voz são apenas mais um tipo de dado trafegando pela rede IP, como um e-mail ou o download do último hit do rapper Eminem em MP3. “Basicamente será a morte das ligações em longa distância”, afirma Cássio Garcia, diretor da subsidiária brasileira da Nortel. Os institutos de pesquisa já prevêem as datas para o funeral. “Estamos num momento de transição. Em 2008, provavelmente o modelo de longa distância não existirá mais”, diz Patrícia Volpi, gerente do Yankee Group. De acordo com o instituto, hoje os descontos médios nas ligações por VoIP no país são de 20% a 30%, mas podem chegar a 70%.
Ninguém bateu tanto de frente com as letras das siglas DDD e DDI quanto o Skype. O software de telefonia que usa a tecnologia peer-to-peer foi gerado pelos mesmos cérebros do KaZaA (veja entrevista na página ao lado) e atraiu 24 milhões de usuários registrados, num ritmo de 130 mil novos adeptos por dia. Somada, essa legião já falou mais de 5 bilhões de minutos por IP. O Brasil é o quinto maior usuário do Skype, atrás dos Estados Unidos, Polônia, Alemanha e França. A maioria dos internautas fica restrita às ligações gratuitas do serviço — de computador para computador. O SkypeOut, a encarnação paga que permite fazer ligações para telefones convencionais, tem apenas 800 mil usuários. O Skype não deixou de lado nem mesmo os usuários de PDAs. Sua versão para Pocket PCs já foi baixada 1 milhão de vezes, segundo seus próprios cálculos.
O Skype chegou ao notebook do empresário Luiz Carlos Zorzetto, de 52 anos, há pouco mais de um ano, motivado pelas contas de telefone que passavam dos 500 reais. A explicação? Os constantes interurbanos de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, para Lisboa, onde a filha, Cintia, mora. “Hoje, falo com ela até três vezes por dia”, diz Zorzetto. Do outro lado, a dentista Cintia, de 25 anos, recebe as ligações vindas do Skype não só pela conexão de 1 Mbps que tem em casa como pelo celular, no serviço pago — e passou para o time dos evangelizadores do programa. "Fico insistindo para que minha irmã também use”, diz. O Skype, entretanto, ainda não seduziu outro membro importantíssimo da conta telefônica: a mãe de Cintia. Por isso, Zorzetto pretende instalar um sistema que possa ser usado diretamente no aparelho de telefone.
Nessa hora, entra em ação um pequeno dispositivo chamado ATA (Analog Telephone Adaptor), uma espécie de gateway que converte os sinais analógicos do telefone para digitais — e leva o VoIP para longe do PC. Esse tipo de produto (veja teste na página 64) possui entradas para se ligar à linha de telefone e à conexão de banda larga. Sozinho, ele não faz nada. É preciso se associar a um serviço VoIP para receber um número de telefone específico. Se nas duas pontas houver um ATA, fala-se sem custo, como se fosse um ramal de uma empresa. Caso contrário, a ligação percorre um caminho que mescla trechos IP com a rede pública. Quanto mais longa a jornada por IP, mais barata fica a ligação. Além de libertar o usuário de VoIP dos limites do computador, a grande sacada do ATA é a mobilidade: dá para levá-lo a qualquer lugar para onde você vá e fazer ligações locais para a cidade do número de origem. Na suíte de um hotel, por exemplo.
É justamente um modelo como esse que tem feito outra startup, a americana Vonage, brilhar no VoIP. Criada sob o signo do SIP (Session Initiation Protocol) (Protocolo dominante hoje nas ligações de voz sobre IP) e tendo entre os fundadores o visionário Jeff Pulver, a empresa ultrapassou a barreira dos 400 mil usuários e quer chegar a 1 milhão até o fim de 2005. Só quem mora nos Estados Unidos, Canadá ou Reino Unido pode assinar o serviço, com planos oferecidos desde 14,99 dólares. Hoje, Pulver é apenas sócio minoritário da Vonage, mas se envolve com várias startups — de VoIP, é claro. “Eu me sinto como se estivéssemos atravessando a adolescência da voz sobre IP. Fico imaginando o que os próximos dez anos poderão trazer”, afirma Pulver em seu blog.
Enquanto esse futuro não chega, os laboratórios de pesquisa trabalham em questões bem concretas para a nova face da tecnologia IP. Uma delas é o protocolo SIP, usado pela Vonage e por boa parte dos produtos e serviços de VoIP, e que está em fase de maturação. “O SIP ainda não está suficientemente maduro para carregar as aplicações que desenvolvemos. Quando ele virar um padrão de fato para telefonia IP, permitirá mesclar aplicações”, afirma Luiz Machado, gerente de comunicações IP da Cisco. Outro desafio está nos codecs e na busca de formas para reduzir o tamanho dos pacotes sem comprometer a qualidade das ligações. Com uma boa compressão, os especialistas de voz sobre IP recomendam uma banda de pelo menos 30 Kbps para cada chamada. Sem uma compressão turbinada, a banda necessária pode subir a 60 Kbps. A sofisticação nos codecs de voz e imagem está chegando a tal ponto que a Nortel, por exemplo, já usa a tecnologia DivX para fazer videochamadas em seus equipamentos. DivX, como todo mundo sabe, é um formato conhecido e apreciadíssimo por quem tem hábito de assistir a filmes e seriados no PC.
Do lado do usuário, o ponto central está em ter uma conexão de banda larga estável — se a latência for alta, nada feito. Quando os pacotes se perdem, a conversa será afetada. Por isso, algumas empresas que estão prestando serviços de VoIP montaram kits para testar a qualidade de banda dos clientes antes de assinar os contratos. É o caso da GVT, que usa hoje um pacote combinado de aplicativos, mas está desenvolvendo um software para integrar essa função.
Fonte: Yankee Group
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