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Os nanotubos chegam à TV


A televisão do futuro já ameaça sair dos laboratórios

POR MAURíCIO GREGO

A televisão, que durante décadas evoluiu letargicamente, de repente se tornou um dos temas mais quentes no mundo da tecnologia. A razão para essa mudança está no processamento digital das imagens. Com ele, a eletrônica de consumo e a informática finalmente convergiram na TV. Imagens de alta definição e telas finas cada vez maiores já são atrações cotidianas nas lojas, em variações de LCD, plasma e retroprojeção. Nas feiras, telonas de 100 polegadas já fazem seu show. Uma maior interatividade com o usuário começa a acontecer, abrindo possibilidades de comércio de produtos pela TV e venda de programação sob demanda.

A face mais visível da nova televisão está nos próprios televisores. Embora os volumosos modelos de raios catódicos ainda correspondam a 90% das vendas mundiais, a tendência rumo às telas finas é clara. Em 2008, 30% dos aparelhos vendidos deverão ter tela fina. Há várias tecnologias sendo estudadas para melhorar a imagem e baixar o preço deles. Uma das mais promissoras é a de emissão de campo (em inglês, FED, Field Emission Display). A camada frontal dessas telas é uma placa transparente coberta, por dentro, com material fosforescente, que se ilumina ao ser atingido por elétrons - como nos cinescópios de raios catódicos. Mas, em vez de um único canhão de elétrons, as telas FED empregam milhões de catodos minúsculos dispostos sobre uma placa. A maioria dos fabricantes usa nanotubos de carbono para direcionar os elétrons. Por isso, também se diz tela de nanotubos. Essas telas são tão finas quanto as de cristal líquido. Mas podem produzir imagens com maior resolução, melhor contraste e ângulo de visualização mais amplo.

Entre as empresas que estão desenvolvendo telas de emissão de campo estão a Sony, a Philips, em associação com a LG, e a Canon, que tem uma aliança com a Toshiba. Executivos da Toshiba disseram que a empresa pretende fabricar painéis FED já em 2006, mas é pouco provável que eles se tornem comuns em televisores antes de 2008. Inicialmente, esses aparelhos estarão na faixa de preços mais alta do mercado. Mas essas telas são de fabricação mais simples que as de cristal líquido ou plasma. Por isso, seu preço tende a cair rapidamente à medida que o volume de produção cresce.

Os fabricantes também desenvolvem soluções intermediárias para reduzir o desnível que existe entre os aparelhos de raios catódicos e os de tela fina. Tanto a Samsung como a Philips - esta em conjunto com a LG - deverão iniciar, ainda neste ano, a fabricação de cinescópios de raios catódicos 30% mais finos que os atuais. A Samsung também apresentou recentemente uma tela de 21 polegadas baseada em diodos orgânicos, conhecidos pela sigla Oled (Organic Light Emiting Diode). Esse tipo de tela, já empregado em visores de celulares, poderá ser uma alternativa mais barata ao cristal líquido também nos televisores.

Já a tecnologia de cristal líquido sobre silício, ou LCoS, parecia ter perdido seu apelo depois que a Intel abandonou seus planos nessa área, no ano passado. Mas outros fabricantes continuam apostando nela. A Sony, por exemplo, está lançando nos EUA um televisor de retroprojecão, o Qualia 006, de 70 polegadas, baseado em LCoS.

Enquanto um televisor analógico atual tem a mesma resolução que um de 40 anos atrás, os modelos com processamento digital devem evoluir num passo muitíssimo mais rápido. Vai ser cada vez maior o número de aparelhos com resolução real de 1 920 por 1 080 pixels, o padrão 1080i. Outros produtos devem acompanhar essa mudança de patamar. Filmadoras de uso amador de alta resolução já começam a aparecer em feiras. E, neste ano, devem chegar ao mercado aparelhos e filmes nos novos formatos de disco que devem substituir os atuais DVDs. A lamentar, só a dualidade de padrões - Blu-Ray e HD-DVD -, que lembra a batalha entre VHS e Betamax nos anos 80.

Mas a evolução vai muito além dos aparelhos. Com o tempo, haverá mudanças no modelo de negócios da televisão e nos hábitos do consumidor. Com a digitalização dos sinais, fica fácil enviar dados junto com o som e a imagem. As empresas de TV paga fazem isso para fornecer sinopses dos filmes e vender programação pay-per-view. Mas essa idéia pode ser ampliada para novas formas de interação com o consumidor. Uma delas é o t-commerce. A pessoa vê um anúncio com uma oferta interessante e aperta uma tecla no controle remoto. O decodificador de TV conecta-se a um servidor e exibe informações adicionais na tela. Com o controle remoto ou um teclado, o usuário fornece os dados necessários e fecha a compra. O funcionamento do sistema não é muito diferente do que é usado em lojas na web. Dentro de dois ou três anos, é provável que essa forma de comércio se torne comum.

Outra tendência é a transmissão de TV pela internet ou IP-TV. Serviços desse tipo já funcionam em alguns países, movidos pelo interesse das empresas de telecomunicações em criar novos negócios com sua infra-estrutura. Poderão ser também um caminho para a TV por cabo, em que imagens e dados já convivem. Nesse cenário, os anúncios poderiam ser personalizados como na web. Num horizonte um pouco mais distante está a TV totalmente sob demanda, em que cada um escolhe o que quer ver no horário em que preferir. Para isso, muita banda de transmissão será necessária. Se, num grupo de 100 residências, cada uma recebe uma programação diferente, a banda requerida será 100 vezes maior que a usada para entregar os mesmos programas a todas. Por isso, esse serviço deve demorar anos para se tornar popular.

TV à chinesa em Manaus

A empresa chinesa TPV, que fabrica em Manaus os monitores da marca AOC, vai produzir também televisores de cristal líquido na cidade. Na China, ela faz televisores de LCD de 15 a 32 polegadas, e, de plasma, de 42. É a segunda maior fabricante de monitores do mundo. Em dezembro passado, acertou a compra de fábricas de monitores da Philips - um negócio de 358 milhões de dólares. Se tudo der certo, vai ultrapassar a Samsung, a atual líder, e se tornar a número 1. Sua entrada no mercado de televisores no Brasil pode ajudar a baixar os preços dos aparelhos de tela fina.

       


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