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Os amigos do pingüim
Como o software livre está
se infiltrando na tecnologia das
empresas de TI brasileiras
POR FRANçOISE TERZIAN
Está nos servidores da IBM, no banco de dados da Oracle, nos clusters da Itautec. Num movimento certeiro, o software livre vai ganhando espaço dentro de produtos e serviços dos veteranos da tecnologia — dos pequenos desenvolvedores aos gigantes de TI. Há tempos, a escolha deixou de ser meramente uma questão de preferência. Hoje, a opção de não trabalhar com software livre pode virar sinônimo de perder clientes preciosos — um supermercado, um banco, uma companhia aérea, só para dar alguns exemplos. Os números vão ganhando fôlego. Um estudo da empresa de pesquisas americana Evans Data Corp mostra que 40% dos desenvolvedores de software em todo o mundo têm o Linux como primeira escolha de sistema operacional para suas aplicações.
São os grandões, entretanto, que fazem mais barulho em torno do mundo do pingüim. O exemplo clássico é o da IBM, que afirma já ter injetado mundialmente mais de 1 bilhão de dólares no software livre. "O Linux é estratégico para nós, por isso apostamos forte no desenvolvimento e no suporte ao software livre. Nosso objetivo é torná-lo o mais disseminado quanto possível no Brasil", afirma César Taurion, gerente de Novas Tecnologias da IBM. Hoje, todas as ferramentas da empresa rodam a plataforma Linux, desde o mainframe até DB2, Tivoli e Websphere. Usuária da própria tecnologia, a IBM trabalha em todo o mundo com mais de 3 mil servidores e 30 mil desktops rodando Linux.
Apesar de incentivar fortemente o uso de software livre, Taurion afirma que a IBM não vai deixar de lado o software proprietário. "Os dois modelos de negócios vão conviver. Há programas que podem ser livres e outros de conhecimento restrito. Os dois modelos vão continuar a existir, assim como a tevê aberta e a fechada", diz. O interesse da IBM na plataforma aberta se traduz em iniciativas como a criação do Linux Technology Center (LTC) em parceria com a Unicamp e o Linux Integration Center (LIC), em São Paulo. O LTC brasileiro tem como missão treinar desenvolvedores de software para a melhoria do Kernel do Linux, enquanto o LIC é um centro de referência para clientes interessados na implantação de soluções de software que incluem o middleware IBM em Linux. Nesse centro, a empresa consegue reproduzir o ambiente tecnológico de seus clientes e auxiliá-los no processo de migração. Além disso, também tem espaço para dar treinamento no sistema.
Outro nome que associou sua marca diretamente ao Linux é a brasileira Cyclades. O primeiro produto da empresa baseado em software livre veio em 1993, com as placas multisseriais, base das soluções para os provedores de internet de conexão discada. A Cyclades se define como uma companhia comprometida e alinhada com o Linux e o código aberto. "Nossos produtos são escaláveis e alavancados pela tecnologia Linux, que adiciona flexibilidade, facilidade de customização e alto grau de segurança", diz Estevão Alves de Andrade, gerente de marketing de produtos e pré-Vendas. A empresa se prepara para anunciar, nos próximos meses, a primeira família de switches KVM (Keyboard Video and Mouse) com Linux. Entre os funcionários, a turma do pingüim é forte. De engenheiros de software a pessoal de suporte, a Cyclades tem uma equipe de 45 pessoas especializadas na área.
Já a Oracle conta, mundialmente, com 1000 desenvolvedores só em Linux. "Com base em características como segurança e alta disponibilidade, desenvolvemos toda nossa linha de produtos na plataforma Linux", diz Eduardo Lopez, vice-presidente de Tecnologia da Oracle no Brasil. Para a companhia, o Linux é muito mais do que uma bandeira para vendas. No Centro de Processamento de Dados da Oracle, localizado em Austin, no Texas, 100% dos 700 servidores de camada intermediária com sistemas internos e também de clientes (on-demand) rodam Linux. "Usar equipamentos de baixo custo e criar grid computing são alguns dos principais benefícios dessa plataforma", afirma. Toda a última geração de produtos Oracle, a família 10g, que abrange banco de dados, servidor de aplicações e gerenciador de sistemas corporativos, foi desenhada para atuar em grid, isto é, compartilhando a capacidade de processamento – uma das áreas onde o Linux impera.
Desktop aberto
Enquanto o pingüim faz barulho nas aplicações corporativas, também aumenta o movimento em torno dos desktops, segundo mostram os institutos de pesquisa. O IDC Brasil, por exemplo, acredita que haverá um crescimento significativo da plataforma aberta nos desktops. Se em 2003 esse índice estava em 2,96%, neste ano representará 7,25%. A grande fonte de migrações para o Linux são os sistemas operacionais Netware, Unix e Windows antigos.
De olho nesse nicho, a brasileira Cobra colocou no mercado, há dois meses, o Freedows, um conjunto de programas que reúne sistema operacional baseado em Linux (mas com a cara do Windows XP) e aplicativos de escritório. O desenvolvimento e o suporte do Freedows foram feitos em parceria com a Abrasol (Associação Brasileira das Empresas de Software Livre). "Boa qualidade técnica, redução de custo e competitividade aos negócios são as principais razões para se adotar o Linux", diz Graciano Santos Neto, presidente da Cobra.
Disponível em seis versões (Lite, Standard, Professional, Thin Client, SMB e CE), o Freedows permite que se aproveite o conhecimento dos usuários em outras plataformas, sem treinamento. Ou seja, o usuário do novo sistema operacional pode continuar trabalhando com aplicações que já usava, como Word e Excel, ou substituí-las por alternativas em software livre. "Assim, a empresa ganha flexibilidade para decidir a melhor forma de fazer a migração, conforme as características específicas de cada ambiente de trabalho", diz Ricardo Antônio Batista, vice-presidente da Cobra. O preço é um dos atrativos do sistema. A versão Professional, por exemplo, custa 120 reais por usuário, com atualização e suporte técnico por um ano.
A Cobra também dá suporte ao Linux usado em servidores e terminais no Banco do Brasil. Batista comenta ainda que um dos motivadores do investimento da Cobra em software livre é seu ingresso no mercado europeu, que se intensifica com a abertura de uma fábrica em Portugal. "Na Europa, há uma grande demanda por software livre e há incentivos em alguns países. Portanto, é interessante incluir soluções de desktop em nossa oferta", afirma.
O desktop também é a forma que a Sun encontrou para recuperar o atraso em software livre nos servidores. Uma de suas ações foi anunciar, no primeiro semestre, a versão em português da suíte StarOffice 7.0, que custa 80 dólares para o consumidor final e 180 reais para empresas (na compra de, no mínimo, cinco licenças). Para instituições de ensino, por meio de convênio firmado com o Ministério da Educação, o produto é gratuito. Popular, o StarOffice já teve mais de 40 milhões de cópias distribuídas em todo o mundo. No Brasil, uma pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que o pacote da Sun é responsável por 5% do mercado de suítes de produtividade de escritório, com tendência de atingir a faixa de 10% em aproximadamente dois anos.
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