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Terra na órbita do Linux


Sérgio Pretto, CIO do Terra Lycos, já colocou o pingüim em 75% dos sistemas da empresa no país

POR FLáVIA YURI

O gaúcho Sérgio Pretto sempre privilegiou o código aberto em suas escolhas. No comando da tecnologia da informação do Terra no Brasil desde a sua primeira semente — quando ainda era Nutecnet —, ele já teve tempo de espalhar pingüins por 75% da empresa. Desde janeiro do ano passado, quando assumiu a tecnologia da informação do Terra Lycos globalmente, um dos desafios de Pretto é migrar para código aberto boa parte dos sistemas dos outros 13 países onde a empresa atua. Hoje, aos 46 anos, vive numa espécie de ponte aérea entre Porto Alegre, São Paulo, Madri, Miami e Boston. Só no Brasil, estão sob sua tutela mais de mil servidores rodando aplicações com 7 TB de dados. Numa de suas paradas por São Paulo — sua residência oficial fica em Porto Alegre —, Pretto conversou com INFO. Veja, a seguir, trechos da entrevista.

INFO - Qual é a estrutura do Terra no Brasil?

Pretto - No Brasil, temos mais de mil servidores. Duzentos deles estão em São Paulo, no TIC (o data center da Telefônica), e mais de 800 servidores estão no nosso data center em Porto Alegre. Em operações, são 79 pessoas no país. A maior parte dos sistemas roda em Linux, cerca de 75%. Vinte por cento das aplicações estão em Microsoft, e 5%, em Solaris, da Sun.

E nos outros países, o Linux também é maioria?

Não. No geral, predominam Microsoft e Solaris. Com o tempo, faremos a migração da maioria dos sistemas para Linux. Essa é justamente a minha prioridade: padronizar as operações.

Por que Linux?

Eu nasci em Unix. Comecei como programador de Assembler e C+. No início, ainda na fase da Nutecnet, tínhamos o Unix da SCO, mas ele foi ficando obsoleto, e então migramos para Free BSD e depois para Red Hat.

Quanto o Brasil representa nas operações globais?

Sessenta por cento de todo o faturamento do grupo são gerados no Brasil. Aqui o provimento de acesso é muito forte. Em alguns países, como nos Estados Unidos, o faturamento depende de publicidade ou de produto.

Quantos usuários de banda larga o Terra tem hoje no país?

A gente fechou o ano passado com 500 mil usuários, representando 50% do mercado. O Terra é quem tem maior presença nacional em banda larga. Estamos em 658 cidades. No Brasil, a banda larga já representa 30% do nosso faturamento.

O que você acha do modelo brasileiro em que é preciso pagar um provedor de acesso e outro de conteúdo na banda larga?

Não existe almoço de graça. Se você paga apenas uma linha ADSL, é só isso que você terá. Mas, se você quiser correio eletrônico, suporte técnico e conteúdo, é preciso pagar para que alguém ofereça esses serviços.

E se o usuário quisesse ter só ADSL, você acha que ele deveria ter esse direito?

Acho que sim. Mas, para seu próprio bem, o usuário precisa estar atento a uma questão importante. A lei que separou o provimento de acesso e a infra-estrutura da operadora garantiu que não houvesse monopólio. No Terra, trabalhamos com três alternativas de tecnologia para não ficarmos dependentes de uma só. Nós ouvimos o que o usuário diz e vamos para cima das operadoras. Muita gente que tem problema com banda larga liga para o Terra e não para a operadora. O papel do provedor é fundamental para regular o acesso.

O que você acha que falta para mais gente aderir à banda larga?

Falta qualidade de serviços. Ela ainda oscila muito, cai muito. E isso é uma coisa que o provedor de serviços não controla. O que dificulta a nossa vida, pois fazemos a ponte com o usuário e ele muitas vezes nos culpa pela instabilidade da conexão.

Qual é o maior pesadelo para alguém que chefia uma operação como a do Terra?

O maior pesadelo é que aconteçam acidentes graves.

Como o da EMC? (Em abril de 2003, os servidores de e-mail do Terra ficaram dois dias fora do ar por causa de um problema no armazenamento.)

Como o da EMC. Tínhamos redundância total, SLA (Service Level Agreement) mundial, equipamentos de primeira linha — e fomos pegos pelo o que era imprevisível e totalmente improvável.

Qual foi o problema, afinal?

Eu prefiro não dizer o que aconteceu. O importante é que hoje mantemos um controle ainda mais rígido. Distribuimos o storage em diferentes equipamentos, de fornecedores diferentes. Acho que a EMC não deve ser crucificada. Já tinha ocorrido o mesmo com o ZIPMail e com o UOL. Nosso caso deu mais repercussão porque ficamos dois dias fora, mas isso também foi por uma questão de cuidado. Já tínhamos o problema. Então, o raciocínio foi “vamos voltar com calma para não pôr em risco os dados de nenhum cliente”. Foi grave, foi traumático, mas não foi a pior coisa que poderia me acontecer na vida.

Mas foi a pior coisa que profissionalmente lhe aconteceu?

Sim.

Você foi um dos pioneiros da internet no Brasil, quando criou a Nutecnet. Depois da venda da empresa para o Terra, foi o único dos sócios que permaneceu na empresa. O que fez você ficar?

Acho que pesaram dois pontos. O primeiro foi o desafio de fazer o Brasil competir com outros países, se destacar, exportar soluções. O outro ponto é o da ligação afetiva com a equipe e com a empresa. Trabalho com pessoas que começaram comigo em 1987, 1990, 1991, e que cresceram aqui. Fernando Madeira (hoje presidente do Terra no Brasil) começou com a gente como estagiário. É bem bacana ter essa história em conjunto e continuar trabalhando, fazendo isso crescer.

O que será a internet no futuro?

Será como uma tomada elétrica: imperceptível, de tão comum, e indispensável.

       


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