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Um computador para presidente!


Os PCs resolvem problemas. São lógicos. E os políticos? Eles, não

POR DAGOMIR MARQUEZI

Outro dia, escrevi sobre o revolucionário Google News, que edita sua página na internet sem interferência humana. A cada poucos minutos os computadores da Google consultam 4 500 fontes noticiosas espalhadas pelo mundo e verificam quais os assuntos em destaque. Algoritmos decidem quais as notícias principais e sorteiam as fotos mais apropriadas para cada notícia. Minha fé nos seres humanos diminuiu mais ainda desde então. Resolvi levar essa perspectiva adiante.

Minha proposta hoje é a seguinte: gostaria de lançar um computador como candidato à próxima eleição presidencial. O governo seria composto por uma rede de computadores-ministros e computadores-secretários. Vamos assim economizar o salário inchado de dezenas de milhares de funcionários públicos de alto escalão com suas aposentadorias milionárias, suas dúzias de assessores, os assessores de seus assessores, seus carros com motorista... Computadores só precisam de uma tomada para funcionar e uma conexão com a internet.

Acima de tudo, computadores funcionam. E funcionam pois são lógicos, e não ideológicos. Não obrigam um país a se adaptar a teorias de cadáveres. Computadores não são maoístas, stalinistas, trotskistas, fidelistas, guevaristas, nem brigam entre si para ver quem tem razão. Computadores analisam problemas e os resolvem. Não combatem a miséria com demagogia nem botam a culpa dos nossos problemas em computadores estrangeiros. Qualquer calculadora de bolso sabe que nenhum país pode ser “justo” quando atravanca a própria economia com a maior carga de impostos do mundo e uma burocracia dos infernos. Qualquer controle remoto sabe que é estupidamente suicida destruir o que temos de mais valioso, nosso meio ambiente. Parece óbvio, mas políticos humanos não enxergam o óbvio.

O computador-presidente em Brasília vai acabar com as barreiras para abrir e fechar empresas no Brasil. Vai fechar cartórios, deletar regras estúpidas, facilitar as coisas. É lógico. Como o governo cibernético vai ser muito barato, os impostos vão desabar, os juros vão encolher, a economia vai esquentar e a campanha fome-zero vai mudar para obesidade-zero. A biodiversidade está bem protegida? O computador (qualquer 286 rodando DOS) vai somar dois mais dois e tirar o dinheiro dos burocratas e gabinetes e encher os parques nacionais com fiscais do Ibama bem equipados. É lógico. O Brasil é campeão mundial de acidentes de trânsito? Campanhas educativas e guardas nas ruas. É lógico.

Governos humanos não são lógicos. Eles fazem alianças, acordos, formam maioria no Congresso, demitem ministros, discursam de improviso, viajam pelo mundo, choram em favelas, inventam clichês, nomeiam dezenas de milhares de correligionários e aumentam ainda mais os impostos para pagar essa multidão. Transformam o poder que ganham no voto num clube privê para amigos e chegados ao redor de churrascadas e uísque 20 anos. O Brasil sempre foi assim, talvez só esteja piorando.

A questão aqui não é partidária, ainda que alguns partidos sejam piores que outros. A questão é que os homens não estão sabendo administrar sua liderança entre as espécies. Tudo bem que vencemos os computadores em alguns aspectos — somos mais criativos, emocionais, temos prazeres, inventamos. Por outro lado, computadores não se corrompem, não se agarram a conjuntos de idéias falidas, não vivem em função de dinheiro, não praticam massacres por fanatismo político ou religioso. E não destroem o planeta em que estão plugados. Em quem você vota?

       


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