O fenômeno do software livre
Veja como o mundo
livre avança engolfando empresas
e governo no Brasil
POR DéBORA FORTES
Um físico, um estudante adolescente, um analista de sistemas, um administrador de empresas, um autodidata. É praticamente impossível encontrar um padrão para definir a nova geração de desenvolvedores de software livre que desponta no país. Eles ilustram perfeitamente a vocação multifacetada desse mundo livre — uma característica presente não apenas no perfil dos desenvolvedores, mas também no uso que se alastra nas empresas e no governo brasileiro. Pouco importa o tamanho ou o setor de atividade. Dos pequenos servidores web aos mainframes, o software livre vai conquistando um lugar de respeito na tecnologia de empresas como a Petrobras, a Varig, o Pão de Açúcar, a Embrapa, o Banco Itaú e a Mais Indústria de Alimentos (veja as matérias desde a página 61).
A lista de adeptos não pára de crescer. Na maior parte dos casos, o grande protagonista — e a porta de entrada — do mundo livre nas empresas responde pelo nome de Linux. O sistema vem ganhando popularidade principalmente em servidores com aplicações específicas, como web, e-mail, arquivos, proxy e firewall. Dê uma olhada nos números da última edição da pesquisa “As 100 Empresas Mais Ligadas”, de INFO, publicada em abril de 2003. Entre os maiores nomes do país, 52% já usam o Linux. O Unix aparece com 66% e o Windows com 97%.
Em muitas das empresas, o que se vê é o pingüim tomando o lugar principalmente de servidores que rodavam Unix. A explicação é simples: os dois sistemas herdam o mesmo DNA e a troca pode ser feita sem traumas. Um estudo da empresa de pesquisas inglesa Ovum estima que, nos próximos dois anos, em cada quatro migrações de servidores Unix, o pingüim ficará com três — e a Microsoft com uma. Uma tendência começa a se desenhar entre os especialistas em Unix. “Em alguns anos, o Unix do jeito que a gente conhece hoje acabará virando apenas um sabor do Linux”, afirma Cesar Brod, consultor da universidade gaúcha Univates, um grande pólo de software livre no país. A Sun, um dos nomes mais agarrados ao Unix, cedeu espaço ao pingüim em alguns modelos de máquina. “Mas o nosso carro-chefe para servidores de missão crítica é o Solaris. Acreditamos que ainda há vulnerabilidades no Linux para essa área”, diz Cleber Morais, diretor-geral da Sun no Brasil.
O Windows também vem perdendo algum espaço para o Linux, mas os institutos de pesquisa identificam uma tendência diferente. “Nossas bases de dados mostram que o Linux entra principalmente nos upgrades de versões antigas, como o Windows NT 4.0”, afirma Ted Schadler, vice-presidente de pesquisas de software da Forrester. A questão, entretanto, não deve ser tratada como uma simples escolha de um sistema ou de outro. É preciso ver o que faz mais sentido para a empresa, em cada aplicação. Sem posturas xiitas — de nenhum dos lados.
Paralelamente ao Linux e a figurinhas carimbadas como o servidor web Apache, a linguagem PHP e o banco de dados PostgreSQL, a adoção do software livre nas grandes empresas também vai abrindo espaço para um novo mercado de desenvolvimento e de serviços nas startups brasileiras. “O país está se tornando uma referência em software livre não só como usuário, mas também como desenvolvedor. Existe aqui cada vez mais customização e criação de programas”, afirma Sandro Nunes Henrique, um dos fundadores da Conectiva, hoje consultor e presidente da Abrasol Empresarial, a Associação Brasileira das Empresas de Software Livre.
Até pouco tempo atrás, o software livre era encarado por boa parte dos desenvolvedores quase como um hobby, uma atividade para os laboratórios de faculdade ou para “noitada” depois do trabalho. Esse cenário transformou-se rapidamente. O número de empresas que sobrevivem do software livre em todo o país já passa das 400, tomando por base apenas as cadastradas no banco de dados do Projeto Software Livre RS (www.softwarelivre.org), do Rio Grande do Sul. Isso sem contar a crescente participação do Linux no faturamento de grandões como a IBM, a HP e a Itautec. A HP, por exemplo, vendeu 2,5 bilhões de dólares em produtos e serviços relacionados ao pingüim só no ano passado — em 2002, o número foi de 2 bilhões de dólares.
A startup Cos Informática, de Campinas (SP), é um exemplo dos novos negócios que o software livre vem gerando no país. A empresa, criada há cerca de quatro anos, recebeu uma injeção de capital de 1,5 milhão de reais de angel investors e fatura hoje 40 mil reais por mês. Um de seus produtos, o Coslinux, é uma distribuição desenvolvida para uso em rede que pode ter a interface toda customizada — e ficar com a cara do Windows XP, por exemplo. O Metrô de São Paulo, um dos primeiros entusiastas do software livre por aqui, está testando a solução. Entretanto, o produto, que começou como um projeto free, será comercializado pelo sistema de licenças, com o código aberto apenas para os clientes. Gustavo Júnior Alves, diretor de tecnologia e um dos sócios da empresa, vem se dedicando também a outro projeto: um sistema de redes neurais. É por isso que ele tem passado horas estudando medicina e neurologia, como autodidata.
Por que a escolha pelo software livre? “Cheguei a tirar uma certificação da Microsoft, mas percebi que era um mercado muito limitado dentro do que eu poderia fazer”, diz.
O administrador de empresas Célio Márcio Soares Ferreira trabalhava com Unix em implementações de rede e viu a oportunidade de entrar no mercado de software livre. Hoje é diretor de projetos e um dos sócios da mineira LinuxPlace, criada em 1999. A empresa trabalha tanto com projetos sob medida como com implementações e com produtos próprios para segurança e para cluster. “Somos 100% software livre. E damos lucro desde 1999”, afirma. Dos cerca de 300 clientes, 60% ficam em Minas Gerais. No dia-a-dia de Ferreira estão programas como as distribuições Debian e Mandrake, o software de segurança wireless NoCat, o servidor de e-mail Postfix, o servidor web Apache, o servidor de proxy Squid, as ferramentas de desenvolvimento Perl e PHP e o Heartbeat para os sistemas de cluster.
O aumento do número de empresas que vêm ganhando dinheiro com o software livre não significa que as iniciativas puramente free estejam perdendo espaço. Longe disso. Continuam a brotar no país projetos que não rendem um único centavo a seus desenvolvedores. Um exemplo é Luiz Blanes, mestrando em física de plasma pela USP. Ele começou a mexer com Linux na faculdade e resolveu desenvolver uma interface mais parecida com o Windows. Não começou o trabalho do zero: baseou-se na japonesa QVWM e criou o sistema Blanes, que está na versão 1.0.4. “No início, não tinha lido nem a GPL (General Public License). Estava violando a nota de copyright e não sabia. Virei alvo de críticas em alguns fóruns, mas logo arrumei tudo”, conta o físico.
Foi com o objetivo de desenvolver uma distribuição Linux mais fácil de usar que o paulista Carlos Eduardo Morimoto criou, há um ano, o Kurumin, baseado na alemã Knopixx. A grande sacada do programa está em rodar a partir do CD sem ser instalado no micro — o Kurumin já ultrapassou a marca de 1 milhão de downloads. “No início, queria resolver um problema meu. Coloquei o Kurumin na internet e muita gente começou a baixar”, diz. Simples assim — e essa é a chave do mundo livre.
Da universidade para a linha de produção
As universidades, que sempre foram um tremendo celeiro para os projetos de software livre, também estão funcionando como cérebro de desenvolvimento para as empresas. É o caso do LSI, o Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da USP. Foi de lá, por exemplo, que saiu o projeto de cluster com Linux comercializado hoje pela Itautec. O laboratório também vem trabalhando num setop box para TV digital que usa Linux, Java e MPEG — e que deverá ser produzido em breve por um fabricante de nome ainda sigiloso.
No LSI, o software livre também é a base do projeto de telemedicina que vai usar a computação de alto desempenho para o armazenamento maciço de dados médicos sobre câncer infantil — e ajudar a salvar vidas. O projeto Oncopediatria (www.oncopediatria.org.br) está recebendo um investimento de 2 milhões de reais da Finep. A idéia é montar uma rede de hospitais em todo o país — começando com Rondônia, Piauí, Amazonas, Brasília, Espírito Santo e São Paulo — e coletar informações sobre os tratamentos e os resultados para cada caso. Os servidores dos hospitais vão rodar Linux (no LSI, a distribuição padrão tem sido a Red Hat), e o banco de dados será o PostgreSQL. “O projeto também prevê a criação de um sistema de educação a distância e videoconferência entre os médicos”, diz o professor João Antonio Zuffo, coordenador geral do LSI.
No governo, um dos maiores compradores de tecnologia do país, o uso do software livre não pára de crescer. Começou com iniciativas isoladas, principalmente no Rio Grande do Sul, e foi se espalhando para nomes como o Banco do Brasil e o Serpro, passando pelos telecentros e por prefeituras como a de São Paulo. Agora, com a determinação oficial do governo Lula em apoiar o software livre, o uso deve se tornar ainda mais abrangente. “Estamos na fase de planejamento. Vamos começar a implementar o software livre nos ministérios e teremos os primeiros resultados até o fim deste ano”, afirma Sérgio Amadeu da Silveira, diretor-presidente do ITI (Instituto Nacional de Tecnologia da Informação), órgão vinculado à Casa Civil da Presidência da República. Em julho, deve ser concluído um projeto que vem sendo chamado de Linux Blindado. A idéia é criar uma distribuição ultra-segura, para ser usada em organismos como as Forças Armadas e a Receita Federal.
No que envolve a interface direta com a população, alguns avanços já foram feitos. Neste ano, por exemplo, o software de declaração de imposto de renda poderá rodar, pela primeira vez, em Linux e em Macintosh — antes, era restrito aos usuários de Windows. Segundo Silveira, vários portais do governo que só eram compatíveis com browsers proprietários também estão sendo reformulados.
Tem lugar no desktop?
Até mesmo nos desktops — ainda um grande reduto para o Windows — o pingüim começa a marcar território. No mês passado, Bob Greenberg, CIO da IBM, enviou um e-mail aos executivos da empresa encorajando-os a migrar seus PCs e os de suas equipes para o Linux até o fim do próximo ano. O Metrô de São Paulo trabalha no projeto Micro Livre, uma estação totalmente baseada em software livre, com Linux (provavelmente Debian) e programas como o Mozilla, o Qmail e o OpenOffice. Inicialmente, estão previstos 100 micros Pentium 4, de 1,8 GHz, que se espalharão por diversas áreas do Metrô. “Não vamos impor nada aos funcionários. Mas, se alguém quiser um micro novo, vai ter de usar software livre”, diz Gustavo Mazzariol, gerente de tecnologia da informática do Metrô. A meta é que, em dois anos, 50% dos funcionários migrem para os sistemas abertos. “Desde 1999, não compro nenhuma licença do Office. Todo mundo que tentou me provar que precisa de uma, dançou”, afirma.
Segundo Mazzariol, a opção pelo software livre vem trazendo uma economia de 2 milhões a 3 milhões de reais por ano para a companhia.
Na prática, a tendência que tem se mostrado clara nas empresas, quando se fala dos desktops, é adotar o Linux em estações que rodam aplicações específicas — como o call center e os PDVs no varejo. O Itaú, por exemplo, montou há seis meses um piloto para estudar o uso do Linux nos ATM, as máquinas de auto-atendimento bancário, com as distribuições Red Hat e Conectiva. “O resultado é bom, mas não é nossa prioridade. Estamos testando sem pressa”, diz Arnaldo Pereira Pinto, diretor de canais eletrônicos do Itaú.
Para o usuário doméstico que não é entrosado com o mundo livre, o caminho é bem mais longo. A maior barreira é a de sempre: os drivers e as aplicações de entretenimento. Mas será que o software livre pode ganhar espaço dentro do próprio sistema operacional Windows? Alguns especialistas acreditam que sim — e a disseminação do software livre que roda em Windows pode começar por redutos clássicos como o Fresh- Meat e o SourceForge. “Isso pode acabar tornando o Windows uma commodity”, afirma Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias aplicadas da IBM Brasil, vendendo seu próprio peixe. Na opinião de Taurion, pouco importará o sistema operacional que está na máquina do usuário.
Uma área de consumo em que o Linux já tem um terreno fértil é a dos embedded systems, os chamados sistemas embutidos. Segundo uma pesquisa realizada pela consultoria Evans Data Corp, o uso de Linux nesse tipo de projeto saltou de 28% em 2002 para 37% em 2003. E não faltam exemplos, até mesmo no Brasil. O engenheiro Alexandre Oliva, de Campinas, faz parte do grupo da Red Hat que trabalha no porte de um compilador para um novo processador da Fujitsu. O projeto é tocado pela matriz da Red Hat, nos Estados Unidos. A empresa paulista TopComm vem trabalhando com Linux embarcado desde 1999 e tem hoje cerca de 30 projetos nessa área. O primeiro desenvolvimento foi para o sistema que roda nos terminais de consulta de preços da Livraria Saraiva — e que usa a distribuição Toplinux no software de controle. "Hoje, tenho um monte de licenças de Windows sobrando. Das nossas 12 estações na área de desenvolvimento, só uma roda Windows", diz Seido Nakanishi, diretor executivo da TopComm.
Em 2003, a empresa, que concentra 100% do seu desenvolvimento em Linux, faturou 500 mil reais só com sistemas embedded.
Pingüim para todos os gostos
A ironia é que uma das grandes vantagens do software livre — o código aberto — acaba, na prática, se transformando num obstáculo para as empresas que o adotam. Só nas páginas do site Linux.org, é possível encontrar 207 distribuições de Linux — seis delas em português. E o número de personalizações nas máquinas dos desenvolvedores é incalculável. Por isso, os grandes fornecedores de software e hardware elegem apenas algumas distribuições para serem suportadas em seus produtos. Fica impossível testar e homologar tantos sabores de Linux. “O mercado corporativo está se concentrando em torno das distribuições da Red Hat e da SuSE. As outras ficarão cada vez menos importantes”, prevê Laurent Lachal, analista sênior do instituto Ovum. Com a aquisição feita no ano passado pela Novell, a SuSE, que já era muito respeitada, ganhou ainda mais gás.
Não é por acaso que a questão da padronização venha sendo cada vez mais debatida no software livre. “São as dores do crescimento. O Linux não vai conseguir substituir tudo. Precisa conviver com outras coisas. E aí aparecem os problemas”, diz Arnaldo Carvalho de Melo, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Conectiva. Essa questão vem sendo discutida em profundidade em entidades como o OSDL (Open Source Development Labs — www.osdl.org) e o Free Standard Group (www.freestandards.org). É também a preocupação com a padronização que explica o surgimento de iniciativas como o UnitedLinux, sistema para uso corporativo criado para reunir as distribuições Conectiva, SuSE, Turbolinux e SCO. Mas a briga feroz da SCO com o resto do mundo livre tem todos os ingredientes para implodir as futuras versões do sistema, se é que já não implodiu. “No fundo, a SCO não está questionando o Linux, e sim o GPL. Daqui a pouco ela vai ser uma piada antiga”, afirma Melo. E uma piada de muito mau gosto.