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Você é um computadorO ser humano é um hardware onde rodam os softwares que ele colhe pela vida POR DAGOMIR MARQUEZIQ uem é o seu programador? Na verdade não existe um programador único, eles sempre trabalham em equipe. Em várias épocas, em turnos diferentes. Seus programadores nem se conhecem entre si. Alguns escrevem mais, outros participam com uma ou duas linhas.
Mas você é o resultado de todos esses programadores, assim como eu sou resultado dos meus. Nosso cérebro é o hardware onde rodam os softwares que colhemos pela vida. Com o tempo, tendemos a escolher melhor os programadores que preenchem nossos clusters de memória.
O que tem nos seus circuitos? Nos meus circulam Monteiro Lobato, Frank Zappa, Adam Smith, Charleston Heston esmurrando o chão do Planeta dos Macacos, K.O Durban e suas seis noivas, Xavier Cugat e sua orquestra, um réveillon na Juréia, meu pai dirigindo um Gordini vinho, tudo misturado com o que aconteceu há 5 minutos, impulsos e informações que se completam, que se chocam e geram mais impulsos e informações.
Uma criança que acabou de nascer tem praticamente uma única programadora por meses. Os softwares mais fundamentais surgem assim que damos o primeiro boot. Nossas mães nos programam em BASIC, linguagem simples, mas definitiva.
Depois da mãe, costuma vir o pai, que nos programa em DOS, o que permite uma organização de arquivos melhor, uma sólida e permanente plataforma de funcionamento, mas ainda é lento e pouco prático. Aí vêm avós, tios, a TV, os primeiros livros, a primeira professora, e depois não paramos mais. Nossos drivers, nossos modems, nossas conexões em rede nos alimentam diariamente com gigabytes de informação, formação e deformação. Um dia, passamos a escolher nossos programadores.
Os bons computadores são aqueles equipados com os melhores hardwares e programados com os melhores softwares. Mas isso não basta. É preciso dar uma faísca de vida própria ao computador. Gerar o imponderável. Foi para isso que se criou a IA, ou Inteligência Artificial. Ela possibilita que os programas não rodem sempre do mesmo jeito. É o fator surpresa.
Teoricamente o ser humano não precisa desse artifício. Já veio equipado com IN, ou Inteligência Natural. Nosso "processador" deve ter a capacidade nata de analisar os dados com os quais somos programados e a partir daí tomar iniciativas próprias.
Mas quando eu vejo a peruazinha que tem como único objetivo na vida arranjar um homem rico para casar, ou o homem adulto que jamais vai confiar em nenhum ser humano que pertença a uma determinada raça, ou o garotão que sai à rua para repetir slogans que não entende e queimar as bandeiras que outros mandam queimar...
Aí eu me pergunto: em que linguagem primitiva essa gente foi programada? Eles terão capacidade um dia de quebrar seus códigos e remexer seus circuitos? Terão um dia mais autonomia do que o PC no qual escrevo essas linhas?
Dagomir Marquezi é editor sênior da revista Playboy. dagomir.marquezi@abril.com.br
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