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opinião / clube da web

edição 179 - Fevereiro/2001

Webocracia


A internet pode ser um eficiente meio de participação e cobrança. Aliás, já está sendo

POR MARCELO BAUER

Para inveja dos americanos, o brasileiro já deu provas de que sabe muito bem usar os meios eletrônicos para votar - e apurar - eleições. Também já demonstramos a eficiência da internet como instrumento de prestação de serviço público de alta qualidade - caso do trabalho da Receita Federal e de sua declaração eletrônica de imposto de renda. Esses dois exemplos bastam para mostrar que, enquanto o empresariado sonha com os lucros e as possibilidades da internet - e também às vezes quebra a cara diante de expectativas exageradas -, uma outra web, menos glamourosa, toma corpo longe do capital de risco e da Vila do Silício.

O sonho da democracia digital é tão antigo quanto a internet - ou até mais. Com os cidadãos conectados, é fácil pensar que poderíamos retomar a utopia da democracia direta ateniense. Parece ingenuidade pensar que chegaremos a tanto. Numa sociedade complexa como a nossa, ficaria impossível ao eleitor tomar partido diretamente em todas as discussões - assuntos tão díspares quanto a regulamentação do estacionamento, a legislação tributária ou as regras de clonagem e manipulação genética. Parece que não nos livraremos da democracia representativa, e seus efeitos colaterais, mas a internet nos dará em pouco tempo instrumentos para sermos mais atuantes e menos passivos.

Fora do campo da política tradicional, as possibilidades parecem ser ainda maiores. Pense nas vantagens das votações eletrônicas para pequenos grupos, como sindicatos, clubes, associações e condomínios. Há exemplos bem-sucedidos. No ano passado, mais de 34 000 internautas votaram pela internet na escolha dos representantes regionais do The Internet Corporation for Assigned Names and Numbers (ICANN), a organização responsável pelas regras de registro de domínios. A votação foi coordenada por uma empresa especializada no assunto, a americana election.com.

A internet e sua aplicação mais popular, o correio eletrônico, também já têm se mostrado eficientes como instrumento de pressão do cidadão contra as autoridades. A Anistia Internacional - que por décadas vem lutando pelos direitos humanos tendo como principal método de atuação o envio de cartas às autoridades - é uma das adeptas da pressão eletrônica. Desde outubro, um serviço chamado Fast (Fast Action Stops Torture) permite que os interessados se cadastrem no site www.stoptorture.org e sejam acionados rapidamente em casos de novas violações. Os avisos chegam aos voluntários por e-mail ou mesmo pelos celulares (com Short Message Service), inclusive no Brasil. E estes usam o próprio correio eletrônico para enviar suas reclamações às autoridades infratoras.

No Brasil, há outros bons exemplos de como a internet pode ser usada por boas causas sociais. É o caso das campanhas "clique e doe". De agosto de 2000 a meados de janeiro, quase 300 000 árvores foram doadas à Fundação S.O.S. Mata Atlântica pelo site www.clickarvore.com.br. Na mesma linha, a Ação da Cidadania Contra a Fome conseguiu 1,75 milhão de doações entre novembro e janeiro com o seu www.clickfome.com.br. Provas mais que suficientes de que, se a internet não vai reinventar a democracia e a ação social, pelo menos pode dar uma boa ajuda.

Marcelo Bauer é redator-chefe do TCInet. mbauer@abril.com.br

       


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