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comércio eletrônico / b2b

edição 175 - Outubro/2000

Amélia não era mulher de verdade


O Pão de Açúcar dá uma guinada de 180 graus no seu site de e-commerce

POR EDUARDO VIEIRA

O mais ambicioso projeto de comércio eletrônico da Web brasileira se transformou numa decepção. O Pão de Açúcar lançou o amelia.com.br com uma hype para nenhum Fernando Espuelas botar defeito, no início do ano, no auge do prestígio das empresas de Internet. Depois, pensou melhor. Voltou atrás em boa parte das promessas feitas em nome do site com a mesma velocidade com que desabaram as ações das empresas pontocom nas bolsas. Projetado inicialmente para substituir a consagrada operação de Internet do Pão de Açúcar Delivery, o amelia podou os gastos, demitiu executivos, enxugou as projeções e adiou planos importantes. Resultado: caiu na vala comum dos sites de e-commerce.

Não que as coisas estejam indo de mal a pior no endereço www.amelia.com.br. Mas os planos dourados de tornar o site líder do mercado B2C na América Latina encontraram muitos obstáculos. A tesoura teve de entrar em ação. Só para ter uma idéia, o projeto de construir um centro de distribuição exclusivo, com mais de 30 000 metros quadrados, foi adiado por dois anos. E os planos de tornar a empresa independente do Pão de Açúcar foram simplesmente descartados. Erro de avaliação? "O que fizemos foi modificar nossas estratégias de acordo com os rumos do mercado", afirma Deborah Wright, CEO do amelia. "O ajuste da Nasdaq foi uma chamada à sobriedade para todos", diz ela.

Segundo Deborah, a reestruturação do site foi reflexo de uma mudança nos conceitos de avaliação dos projetos virtuais. Até o começo do ano, os especialistas em comércio eletrônico diziam que as subsidiárias para Internet das empresas tradicionais precisavam se tornar independentes para obter sucesso. "Todos criticavam os grandes varejistas pela lentidão e endeusavam a Amazon", lembra Deborah. Depois da queda das ações das pontocom americanas, tudo mudou. A receita para o sucesso, hoje, é a adoção do modelo "clicks & bricks", que defende a união de elementos do universo virtual a características do mundo de tijolo e cimento. O importante no momento, dizem os especialistas, é ter um grupo dedicado à Web que saiba aproveitar as vantagens da empresa tradicional. "Os projetos vencedores de agora são os que usam as estruturas do mundo físico e atingem o lucro primeiro", afirma Deborah. "Tivemos que nos adaptar a isso."

MUDANÇA DE ROTA

Correr atrás dos modismos da Web, ou dos humores de Wall Street, não é algo propriamente raro no mundo da Internet. O Pão de Açúcar é apenas mais uma empresa a fazer isso. A adaptação, no caso, começou por uma reformulação nos departamentos financeiro e administrativo, que foram incorporados à estrutura da Companhia Brasileira de Distribuição (holding que controla o Pão de Açúcar). Na área de marketing e de vendas, duas baixas: os diretores Luiz Carlos Pimentel e Cyro Averbach foram demitidos e substituídos pela própria Deborah Wright, que passou a cuidar diretamente da operação comercial. Tudo isso para tentar reverter o prejuízo de 5,4 milhões de reais registrado no primeiro semestre deste ano e aumentar as vendas de 10,9 milhões de reais verificadas no mesmo período.

Ao contrário das expectativas iniciais, o amelia ainda não substituiu o site do Pão de Açúcar Delivery, que continua no ar, e ainda não absorveu totalmente a base de 140 000 clientes do serviço. O site também teve de abrir mão de uma parte de seu conteúdo, sob o risco de descaracterizar a operação. Os segmentos de notícias e carreira, por exemplo, foram cortados. A partir de agora só entra o que ajudar o consumidor na hora da compra.

O amelia deve colocar no ar em novembro um novo layout que promete facilitar a navegação e agregar novos serviços, como revelação de filmes e locação de vídeos. É o lance final para reverter o jogo nesse momento. "Estamos aprendendo as métricas da Web e nos tornamos uma bandeira a mais do Pão de Açúcar. Nossos desafios não mudaram", diz Deborah. Em termos de tecnologia, o amelia continua o mesmo. O site foi desenvolvido em Visual Basic e roda em dois servidores Pentium III 500 MHz, com banco de dados SQL Server.

Para o Pão de Açúcar, a Amélia dos novos tempos não é mais a idealizada na música composta por Mário Lago na década de 40. A personagem de hoje é a administradora do lar, que está sempre fora de casa. Que a Web deve fazer parte da vida dessa nova Amélia não há dúvidas. Só resta saber se o Pão de Açúcar precisará se reinventar ainda outras vezes para conquistar de vez essa mulher.

       


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