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opinião / inteligência artificial

edição 174 - Janeiro/2000

O PC neandertal


Frustração, prazer, desejo e raiva - o velho computador provocava todo tipo de emoção

POR DAGOMIR MARQUEZI

Certas coisas, muitas, podem ter sumido de meus neurônios de memória, mas outras permanecem gravadas para sempre. Esses garotos e garotas que reclamam de seu Pentium e acham demorada demais a abertura de um programa deviam ver o que eu vi.

Aqui vai uma modesta coleção de memórias da minha vida ao lado desta grande paixão, este permanente objeto de desejo, raiva, glória, frustração, prazer, desgaste e conhecimento: o computador.

TK-85 - Eu me orgulho de ter tido o primeiro modelo de computador pessoal vendido no Brasil. (E, se não foi o primeiro, foi o segundo.) O TK-85 consistia de um tecladinho (aliás, muito bonitinho) do tamanho aproximado de uma agenda pessoal de hoje, só que bem mais gorda. Suas teclas eram de uma borrachinha grudenta e agradável de apertar. Monitor? Nada disso. O TK-85 tinha uma saída RCA para ser ligada a uma TV. Em preto-e-branco. O ano era 1983 ou 84. Seu sistema, um Sinclair, made in England. Parece que isso aconteceu na Era Mesozóica, mas eu estou falando de dezesseis ou dezessete anos atrás! Sua linguagem era o BASIC. O que significava que você tinha de digitar linha por linha o que você hoje inicia com dois cliques do mouse. Eu cheguei a criar programas complexos como um simulador de vôo e um sintetizador de sons atravessando madrugadas e digitando 300, 400 linhas de comando. O pior é que o sistema de gravação de dados (em fita cassete!) nunca funcionava. Eu criava os programas, e eles desapareciam assim que eu desligava o TK-85. Um absurdo, mas me ensinou os princípios do funcionamento básico de qualquer computador, até hoje.

DOS - Deve ser impossível aos clicadores de hoje imaginar um computador sem mouse. O sistema DOS funcionava sobre uma tela preta (ou verde...) onde o cursor piscava infinitamente. Se você não digitasse um comando sem erros no cursor, seu computador não faria absolutamente nada. Para saber que pastas havia no hard disk você precisava digitar TREE C: , para transferir arquivos era preciso digitar SEND pasta tal TO diretório tal. Para abrir um programa, você fechava o outro. Você não tinha listas de nada. Se quisesse qualquer coisa tinha de digitar letra por letra. Qualquer erro de digitação, e nada funcionava. Pelo menos a gente não tinha mais de digitar o programa, eles já estavam prontos. Mas trabalhar em DOS era basicamente decorar comandos. Hoje o sistema continua em quase todos os PCs, por trás do Windows, mas está a caminho da extinção. Em compensação, um único comando em DOS destrói toda a sofisticada construção de um Windows: o fatal FORMAT C:.

INTERNET POR VIA TELEFÔNICA - É difícil acreditar, mas houve a era em que só se acessava a Internet através de linhas telefônicas. Sim! O melhor modem transmitia dados na incrível velocidade de 56 Kbps por segundo! Downloads nessa época chegavam a durar horas de suspense e agonia. Imagine só que o computador precisava discar um número para se conectar! O grande pesadelo na época era que a conexão caísse no meio de um download. Calcule a raiva, esperar horas para baixar um programa, e ver a linha cair no finalzinho da transferência... Pois isso acontecia de verdade! Tempos duros, aqueles...

Dagomir Marquezi é editor sênior da revista Playboy. dagomir.marquezi@abril.com.br

       


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