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A Intel é a próxima da fila. E daí?O governo americano investiga empresas de tecnologia, mas quem ganha com isso? POR JOHN C. DVORAKA INTEL É A EMPRESA que passou, mais recentemente, a ser investigada pelo governo americano. As acusações contra ela são similares às feitas à Microsoft: alega-se que a Intel usa práticas desleais em seus acordos comerciais. A empresa nega. O negócio de alta tecnologia é engraçado porque nele, para obter sucesso, você precisa atingir uma posição de quase-monopólio. Alguns dirão que isso vale para qualquer ramo de atividade, mas não é assim. Isso se aplica principalmente à manufatura, na qual se pode fabricar uma infinita quantidade de um produto e, quanto mais se produz, mais barato ele se torna. Então, a empresa que produz mais pode vender pelo menor preço e ainda ganhar dinheiro. Mas isso tem também o efeito de arruinar a competição.
Em certas situações, a tecnologia muda muito rápido e a grande empresa pode ficar para trás e totalmente fora de um novo mercado. Isso aconteceu com a Microsoft, que não enxergou a revolução da Internet. Embora a empresa goste de promover o nonsense de que o Explorer é profundamente integrado ao sistema operacional, na verdade ela foi ao mercado e licenciou de outras empresas, o mais rápido possível, várias das tecnologias de seu browser. O produto foi, em boa parte, desenvolvido pela Spyglass. Somente uma grande empresa já numa posição quase-monopolista pode comprar o bilhete de volta para aproveitar uma oportunidade perdida. Do mesmo modo, somente uma grande empresa tem condições de dar um produto de graça.
Não há nenhuma cura verdadeira para esse tipo de atividade que mata a competição. Nos Estados Unidos, o público é convencido de que o governo vai frustrar toda tentativa de controlar ou dominar qualquer coisa. Esse pensamento existe, em segundo plano, há muito tempo, e se tornou popular durante o governo de Ronald Reagan, entre 1980 e 1988. O resultado: trens atrasados, um sistema telefônico que se deteriora, fixação de preços de passagens aéreas e um problema com pessoas sem-teto que é um estorvo. Sem dúvida, muitas das mazelas dos EUA podem ser atribuídas a uma economia que emprega mais pessoas que o habitual (exceto os sem-teto). Isso põe uma nódoa na infra-estrutura, à medida que mais e mais pessoas incompetentes são alçadas a posições de autoridade cada vez mais altas.
Diante disso, ninguém sabe o que fazer, a não ser atacar algumas grandes empresas para ver o que acontece. A julgar pelas primeiras rodadas, parece que tudo isso vai dar em nada. E se o ataque à Intel resultasse em alguma coisa, a quem beneficiaria? No topo da lista está a AMD com seus chips K6. Mas a AMD poderia ter colhido frutos de seu próprio trabalho, se pudesse produzir o K6 em escala suficiente. A empresa tem problemas de fabricação - e a Intel não pode ser culpada disso.
Outra beneficiária seria a Motorola, que se comporta como uma empresa doente, depois de cometer numerosos erros no mercado, entre os quais o de ter entendido que a tecnologia de telefone celular digital não iria ser tão importante quanto a analógica. Historicamente, a Motorola sempre lança uma tecnologia após a outra e depois se perde. Ela já foi um grande fabricante de aparelhos de TV. Inventou boa parte das mais recentes tecnologias de modem e desistiu do negócio. A empresa nunca foi boa em fazer o marketing de seus próprios microprocessadores para a área do desktop, embora domine o mercado de processadores embarcados em automóveis. As últimas notícias dão conta de que a Motorola e a AMD vão trocar patentes e talvez montar algumas joint ventures. A AMD já se associou à IBM na produção de chips, no caso de ela, a AMD, precisar de ajuda. O trabalho com a Motorola pode aumentar suas chances de sucesso. Mas, esteja ou não a Intel sob ataque do governo, isso não afeta a necessidade de acordo entre essas empresas.
Alguns dos maiores beneficiários do ataque à Intel seriam os fabricantes de micros nos EUA, que têm sido intimidados pela Intel para usar somente os seus chips. Eu poderia fazer uma lista mais longa, mas é difícil ver quem de fato sairia ganhando com essa ação, mesmo sabendo-se que muita gente criou certa antipatia pela Intel e gostaria de vê-la em apuros. Perceber essa necessidade de atormentar empresas bem-sucedidas é a chave para entender o modo de pensar dos americanos. Em público, fala-se muito do sucesso, mas é só da boca para fora. Na verdade, a maioria dos americanos curte o próprio sucesso, não o dos outros. Podemos admirar o sucesso de uma pessoa, mas isso não quer dizer que estamos "gostando" dele. Eis porque temos um apetite voraz por livros que contam o que acontece "por trás dos bastidores" na vida dos ricos e famosos. Quanto mais eles são retratados como estúpidos, idiotas, repugnantes e péssimos pais e mães, mais esses livros vendem. Assim, vivemos com essa dicotomia. Odiamos o governo e odiamos o sucesso e a "grandeza". No fundo, o que se quer é que os dois lados saiam perdedores! Se, de alguma forma, você entendeu isso, então você chegou lá: entendeu como pensa o americano.
John C. Dvorak, colunista americano, escreve sobre informática nas mais importantes publicações especializadas do mundo Os artigos publicados em INFO EXAME são produzidos com exclusividade. Encontre Dvorak online no site http://www.dvorak.org; ou no e-mail dvorak@dvorak.org
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