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especial / telecom

edição 149 - Agosto/1998

Tudo pelos ares


A nova geração de telefones via satélite estréia em setembro. O difícil vai ser pagar a conta

POR MARCELO BAUER

Quando surgiu, o telefone celular era considerado brinquedo de pessoas ricas ou exibidas. Hoje, é instrumento de trabalho para boa parte dos executivos e está incorporado ao dia-a-dia das pessoas comuns - dos motoristas de táxi aos empreiteiros de obra. A partir do próximo mês, "ricos e exibidos" ganham um novo objeto de desejo que, em pouco tempo, deverá também perder o status de excentricidade e entrar na cesta básica do homem moderno. São os telefones portáteis via satélite. No dia 23 de setembro, o consórcio Iridium começa a habilitar os seus primeiros clientes em todo o mundo. Esses precursores terão aparelhos de 432 gramas que, ligados a um conjunto de satélites, poderão fazer e receber ligações em qualquer lugar do globo, com exceção de áreas remotas no Pólo Norte. No início de 1999, deve entrar em funcionamento um consórcio concorrente, o Globalstar. Possivelmente no ano 2000, virá o terceiro competidor, o projeto ICO.

Os telefones via satélite não são sucessores dos celulares, mas sim serviços complementares a eles. Como exigem a instalação de antenas em raios de poucos quilômetros, os celulares só se justificam em regiões ricas. Em áreas rurais, nos mares e oceanos ou em pequenas cidades, a telefonia celular provavelmente nunca chegará. "A cobertura celular só é viável quando há uma concentração grande de pessoas", diz Ricardo Woitowicz, diretor de marketing da Iridium Brasil. Por isso, companhias de celulares e de telefones via satélite devem atuar em conjunto. Com os acordos que estão sendo firmados entre o Iridium e operadoras telefônicas, inclusive no Brasil, os assinantes do sistema via satélite poderão utilizar a rede tradicional quando estiverem numa área de cobertura celular. Também devem surgir planos conjuntos de comercialização - o usuário poderá optar por manter os dois serviços, celular e via satélite, utilizando um único aparelho especial.

Pelas suas características, o sistema Iridium terá como público-alvo viajantes, proprietários rurais e usuários corporativos. Nas estimativas da empresa, os viajantes internacionais responderão por 39% dos clientes e os viajantes domésticos devem chegar a 18%. O setor rural possivelmente será 20% da clientela, somando-se a 15% de usuários corporativos e 8% de clientes governamentais.

Agora, a parte chata: o preço. O aparelho da Motorola utilizado pelo Iridium deve chegar às lojas por algo em torno de 3 800 reais. A taxa de habilitação e a assinatura mensal até que estão dentro dos padrões da telefonia celular no Brasil: serão 300 reais de adesão e 30 reais mensais. A facada mesmo virá no preço das ligações. O conforto de falar a bordo de um cruzeiro pelo Rio Nilo - ou o ganho de competitividade de ter um aparelho desses numa agroindústria no Centro-Oeste - custará entre 1,75 e 1,80 real a mais por minuto do que sairia com os preços da telefonia celular. Se uma ligação de um celular para um destino no exterior custar 2 reais, por exemplo, então o preço do Iridium será de 3,75 a 3,80 reais. O sistema Globalstar promete valores mais baixos, entre 1 e 1,50 dólar por minuto. O aparelho também deve ficar abaixo do cobrado pelo Iridium: 1 500 dólares, no Brasil. Mas, como é praxe na indústria eletrônica, os preços iniciais tendem a cair na medida em que os serviços se popularizem. A estimativa da Iridium Brasil é que os preços baixem, em média, 10% ao ano.

[Constelações]

O sistema Iridium é composto de uma constelação de 72 satélites (seis de reserva). Cada um pesa 700 quilos e completa uma volta ao redor da Terra em 100 minutos. Uma ligação feita de um iate no Mar Mediterrâneo, por exemplo, seguirá diretamente para o satélite que estiver passando por aquela região no momento. De lá, a comunicação segue para o satélite mais próximo do destino. Este, então, completa a ligação com o destinatário (se ele for um usuário Iridium) ou transfere a chamada para uma estação terrestre que fará a interligação com a rede pública de telecomunicação. No Brasil, a estação terrestre está localizada em Guaratiba, no Rio de Janeiro.

O sistema Globalstar é formado por 56 satélites (oito de reserva). Eles estão localizados a 1 414 quilômetros da Terra e pesam 450 quilos cada. A utilização das estações terrestres é mais constante. No exemplo do iate, a ligação seria feita por satélite apenas do Mediterrâneo até a base terrestre mais próxima do sul europeu. Dali seguiria pela rede pública de telecomunicação. Só voltaria ao satélite se o destinatário fosse um usuário Globalstar localizado numa área sem cobertura celular.

Como os dois sistemas operam em órbita baixa, os fabricantes esperam que não haja atraso ou eco na comunicação, ao contrário do que ocorre quando se trabalha com satélites de órbita alta. Ambos operam com transmissão digital - portanto não deve haver ruídos, mas em contrapartida a voz pode ganhar um timbre ligeiramente metalizado.

Iridium

O consórcio Iridium investiu 5,25 bilhões de dólares no projeto (100 milhões de dólares no Brasil). São 72 satélites a 780 km de altitude

Marca: Motorola

Peso: 380/432 gramas*

Preço estimado: 3 800 reais

Site: www.iridium.com/brazil

Telefone: 0800-558816

Globalstar

Com lançamento previsto para o início de 1999, o Globalstar terá 56 satélites. O investimento é estimado em 2,5 bilhões de dólares (180 milhões no Brasil)

Marca: Qualcomm

Peso: 375 gramas

Preço estimado: 1 500 reais

Site: www.globalstar.com.br

       


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