
São grandes as chances de que a computação em nuvem entre para a agenda de tecnologias das empresas
A computação em nuvem (ou o cloud computing) pode ser definida como uma configuração viva de computadores espalhados e integrados, capaz de armazenar dados e aplicações e processá-los de qualquer ponto da Terra. Trata-se de um novo modelo de outsourcing baseado nas idéias e tecnologias de virtualização, grid computing e SaaS, o Sofware-as-a-Service. Tudo isso, claro, impulsionado pela disseminação da banda larga.Onde está o computador? Pouco importa. Espécie de evolução do grid computing, o cloud é um dos frutos do boom da internet e se baseia numa rede massiva e escalonável de servidores físicos, como o da sua empresa; ou virtuais, como o da Amazon, que vende parte de seu poder computacional a usuários externos como o jornal americano The New York Times e a bolsa de valores eletrônica Nasdaq. Ou seja: não é mais necessário limitar sua capacidade de processamento e armazenamento a uma máquina ou a um grupo de máquinas. Uma nuvem de computadores conectados à internet poderá substituir parcialmente ou integralmente o parque tecnológico de muitas empresas no futuro.
Google e Yahoo! são pioneiros ao armazenar – sabe-se lá se num servidor da Índia ou do leste dos Estados Unidos – aquele e-mail superimportante do Gmail, um vídeo engraçadinho do YouTube ou suas últimas fotos de viagem postadas no Flickr. A diferença, agora, é que o conceito traz consigo uma visão mais corporativa. Poderia ser definido como uma solução para melhorar o uso dos recursos computacionais de sua empresa, economizar dinheiro ao deixar de investir num batalhão de equipamentos, ganhar flexibilidade e se livrar do conceito engessado de licença de software.
A computação em nuvem (ou o cloud computing) pode ser definida como uma configuração viva de computadores espalhados e integrados, capaz de armazenar dados e aplicações e processá-los de qualquer ponto da Terra. Trata-se de um novo modelo de outsourcing baseado nas idéias e tecnologias de virtualização, grid computing e SaaS, o Sofware-as-a-Service. Tudo isso, claro, impulsionado pela disseminação da banda larga.
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Embora muitos gurus da TI vejam computação em nuvem com um certo ceticismo, o conceito tem tudo para vingar. Seu futuro de sucesso está fortemente embasado em dois pilares. Um é o modelo de negócios bem estruturado e rentável que, no curto prazo, converterá a capacidade computacional extra de provedores de internet, data centers, redes de e-commerce e prestadoras de serviços de TI em dinheiro vivo.
No médio e longo prazo, o conceito de venda de processamento e armazenamento de dados poderá se transformar na principal fonte de renda de muitas dessas empresas. Motivo: estima-se que as cinco maiores empresas de busca da web concentrem, juntas, um parque computacional de cerca de dois milhões de servidores. A pergunta é: por que não fazer dinheiro com a capacidade já existente e muitas vezes ociosa?
O segundo e talvez principal pilar da computação em nuvem refere-se à reviravolta que ela causará nas empresas usuárias de TI. O conceito permite ao CIO aproveitar toda capacidade ociosa invisível em vez de investir em mais infra-estrutura. Hoje, o ambiente de TI é distribuído em servidores dedicados a aplicações específicas como internet, banco de dados, ERP e CRM.
O conceito também tende a ajudar o CIO a conviver melhor com o budget apertado e ainda contribuir para a criação de um planeta mais verde. Para que comprar mais servidores se há poder de processamento na empresa? As compras passam a ser mais seletivas, e a locação deverá crescer.
Do ponto de vista da gestão financeira de TI, a computação em nuvem deverá causar uma ruptura na forma como as empresas orçam e compram serviços e recursos de TI. Segundo o Gartner, junto com redes sociais, mashups, processadores híbridos e multicore, a computação em nuvem figura entre as dez tecnologias que causarão os maiores impactos nos atuais padrões de modelos de negócios, processos, fluxo de receita, dinâmica da indústria e de comportamento dos consumidores, nos próximos cinco anos.
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Ainda segundo o Gartner, até 2012 pelo menos um terço das aplicações de negócios será adquirida no modelo serviço (leia-se SaaS, de Software-as-a-Service) em vez de licença do produto. O modelo liderado por Google, Yahoo! e Amazon crescerá agressivamente nos próximos cinco anos. Até 2011, os early adopters de tecnologia deixarão de gastar 40% de sua verba na compra de infra-estrutura para aderir ao modelo de serviços.
Um estudo recente da McKinsey & Company revela que o modelo de venda de soft-ware passa por um momento de profunda mudança. Mais de 850 compradores de todos os tamanhos estão de olho no SaaS, que deverá abocanhar, só este ano, 19% da verba para compra de software.
Para a McKinsey, as grandes virtudes da computação em nuvem estão relacionadas ao rápido provisionamento da capacidade de processamento e armazenamento e também ao fato de o comprador não ter de quebrar a cabeça com escolhas e customizações de tecnologia. Um dos maiores defensores do conceito é o polêmico autor americano Nicholas Carr, aquele que, em 2003, causou estardalhaço no mundo todo ao questionar até que ponto a TI importava.
Para Carr, o movimento de migração da computação tradicional para a de nuvem já começou e está sendo impulsionado por várias razões, como a complexidade e ineficiência do modelo cliente-servidor (mais e mais máquinas são adicionadas, aumentando o custo de propriedade, com utilização média bastante baixa) e a constatação de que a TI não tem mais como fugir das metas mundiais de redução de consumo de energia e emissão de gases de efeito estufa. Quando a idéia do cloud estiver inserida à realidade das empresas, Carr acredita que a mudança será tão drástica quanto à das máquinas a vapor para a eletricidade. “Na prática, todos nós passaríamos a ter um supercomputador virtual em casa”, afirma Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias da IBM Brasil.
A computação em nuvem prega que o exército de servidores existentes numa empresa, no país, no continente, ou até mesmo no mundo trabalhe para atender clientes em qualquer canto do globo, como se fosse um serviço de distribuição de luz ou de água. Daí a comparação inevitável do cloud com o utility computing.
Embora pareça complicado, Taurion diz que computação em nuvem não é física quântica. Dá para entendê-la, já que ela está embasada no conhecido grid computing. No entanto, os CIOs precisarão estudar e fazer a lição de casa. Há três anos para se preparar. Estima-se que, até o final de 2011, a nuvem do cloud cobrirá boa parte das empresas ao redor do mundo.
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Hora de estudar
Apesar do brilhantismo dos números e dos benefícios esperados pela disseminação da computação em nuvem, o momento atual demonstra que ainda faltam avaliações conclusivas que demonstrem seus efeitos na rotina de uma corporação. O conselho geral aos CIOs é: observem, pesquisem e analisem. O momento demanda mais estudos do que ações imediatistas. Antes de sua implantação, o conceito precisa ser testado numa determinada área ou aplicação da empresa.
Hoje, só deve adotar a arquitetura quem realmente quiser pagar o preço de ser um early adopter. A previsão é que o conceito só exploda em três ou quatro anos. Empresas como IBM, Dell, Cisco e HP já fincaram seus pés no novo conceito. A Big Blue, por exemplo, está criando diversos centros de estudo sobre o assunto em países como China, Irlanda, Índia e Brasil (São Paulo). Ela também desenvolveu uma solução de cloud que permite às empresas criar as próprias nuvens computacionais. Batizado de Blue Cloud, o produto é baseado em programas de virtualização e gestão.
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O laboratório da IBM em Almaden, na Califórnia, também tem servido de base para projetos de computação em nuvem para o governo do Vietnã e da Irlanda e uma incubadora na China. A Dell montou uma arquitetura de nuvem para hospedagem e processamento de dados, em hiperescala, sob medida para web 2.0, finanças, indústria petrolífera, pesquisa científica e games.
O conceito ainda passa por um processo de evangelização. São poucas as empresas de TI que têm um laboratório estudando o tema. “Recomendo o monitoramento da evolução do cloud, já que se trata de uma tecnologia de disrupção, com o potencial de afetar de forma drástica as áreas de TI das empresas”, afirma Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias da IBM Brasil.
Para o Gartner, essa fase deve ser acompanhada de questionamentos como quando a empresa alavancará os recursos de cloud e também seu impacto financeiro.
Esse período de experimentação é importante até para as empresas compreenderem o atual potencial da computação em nuvem. Computação em nuvem hospeda as cloud applications, que são as aplicações residentes na nuvem. No entanto, elas não podem ser quaisquer aplicações. As antigas e monolíticas escritas em Cobol ou programas que não permitem a separação de dados dificilmente rodarão nesse ambiente.
As principais candidatas a transitar no ambiente de nuvem são as aplicações da web 2.0, como os wikis, os blogs, as redes sociais e os programas de colaboração e as aplicações baseadas em Java e SOA. No futuro, “o cloud poderá rodar aplicações mais críticas como um CRM ou pedaços de um ERP.
No quesito hardware, o conceito aceita servidores e mainframes. “O cloud permite a otimização física e lógica do parque de TI. De quebra, evita o investimento fixo e estimula o pagamento variável”, explica Daniel Domeneghetti, CEO da consultoria DOM Strategy Partners. Um alerta para quem planeja investir em nuvens: sua arquitetura deve dispor de provisionamento de recursos computacionais, balanceamento dinâmico do workload e monitoração do desempenho.
Embora as previsões sejam de explosão no uso, a computação em nuvem está engatinhando. Para Genaro Fernandes de Carvalho Costa, membro de pesquisa do departamento de arquitetura de computadores e sistemas operacionais da Universitat Autònoma de Barcelona, essa lentidão tem duas explicações. “A primeira é a inércia inerente e a segunda é um certo tabu de que os dados dificilmente se manterão seguros numa nuvem, a não ser que haja investimentos em segurança”, diz. Aí, surge um terceiro problema. Empresas não adotam uma tecnologia se os ganhos não forem significativos em competitividade ou custo.
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Custos em xeque
É com ceticismo que especialistas em TI como Daniel Domeneghetti, CEO da consultoria DOM Strategy Partners, enxergam o conceito de computação em nuvem. A promessa de benefícios como economia financeira barram justamente em questões técnicas, culturais e também de aplicabilidade. A primeira dúvida diz respeito à forma como será conduzida a integração de inúmeros servidores e máquinas com linguagens, programas, protocolos e padrões diferentes. Interoperabilidade é um ponto que precisa ser estudado e testado com atenção.
“Embora o conceito seja aplicável, o software livre tem suas limitações”, diz Domeneghetti. Sua recomendação aos CIOs é que eles façam experiências diversas com diferentes áreas da empresa para analisar não só a interoperabilidade, mas também a consistência da operação, a segurança da informação, o nível de serviço e a usabilidade.
A questão da segurança também causa preocupação, principalmente no momento em que a tendência é tornar a informação residente na web. O primeiro questionamento que surge, nesse caso, é como um banco manterá seu servidor com dados dos clientes operando em uma nuvem. Os desafios existem, são grandes, mas podem ser contornáveis. Cezar Taurion, da IBM, recomenda que um projeto em cloud tenha uma governança de TI bem definida, assim como uma política de segurança de informação implementada. Ricardo Chisman, sóciodiretor da Accenture, sugere ainda atenção redobrada no acordo de nível de serviço, o SLA, que precisa focar sempre na qualidade e atender bem ao usuário, esteja ele usando a computação tradicional ou em nuvem.
A questão cultural também pode agir como inimiga do conceito, caso sua semelhança com o grid computing seja comprovada. A chamada computação em grade foi alvo de grandes investimentos no passado. Com isso, muitas soluções foram criadas para problemas ainda inexistentes. “Em algumas universidades, o nome grid virou sinônimo de coisa grande que não funciona”, diz Genaro Fernandes de Carvalho Costa, membro de pesquisa do Departa mento de Arquitetura de Computadores e Sistemas Operacionais da Universitat Autònoma de Barcelona. Ou seja, cloud corre o risco de ganhar o mesmo estigma.
A tendência de computação em nuvem também tende a trazer implicações significativas na forma como as empresas orçam e compram serviços e recursos de TI. Diante disso, as áreas de TI e finanças, mais do que nunca, deverão discutir as oportunidades e os desafios de migrar para o novo modelo.
Para o Gartner, sua adoção impõe novos desafios com o intuito de centralizar os gastos com tecnologia de negócios no orçamento de TI. Afinal, muitas soluções de nuvens poderão ser adquiridas diretamente pelos usuários de negócios e não pela TI. Uma mudança dos orçamentos de tecnologia, compostos principalmente de ativos de TI capitalizados, para um mix formado por despesas operacionais parece atraente, porque propiciaria uma maior flexibilidade quando os cortes de orçamento ocorressem.
Entretanto, o Gartner prevê que a mudança dos custos de TI de orçamentos de capital para orçamentos operacionais gerará implicações no balanço patrimonial. Hoje, a maior parte das empresas capitaliza ativos de TI e a maior parte da mãodeobra de desenvolvimento. Embora os modelos de aquisição de cloud ainda estejam tomando forma, o Gartner espera que uma quantidade significativa dos custos de TI se transforme em parte do orçamento operacional nos ambientes em cloud.
Apesar de todos esses desafios, Genaro Costa, da Universitat Autònoma de Barcelona, garante: o cloud vai acontecer em grande escala, mais cedo ou mais tarde. “É uma questão de sobrevivência.”
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O exemplo do Google
O Google tem cerca de 40 data centers de grande porte espalhados pelo mundo. A partir desse exército de máquinas, usuários de todos os continentes têm acesso a software, serviços e robôs de busca. Cerca de 90% de suas aplicações rodam na arquitetura de computação de nuvem. Desde a sua criação, no final dos anos 90, o Google se fincou na cultura e no legado do open source. Estima-se que seja a maior empresa baseada em código aberto do mundo. “O elemento fundamental na arquitetura de computação de nuvem é o browser. No Google, tudo acontece por meio dele”, afirma José Nilo, responsável pela área empresarial do Google Brasil.
Aderir ao open source permitiu ao Google ganhar escala, alto poder de processamento e armazenamento, infra-estrutura flexível e também a possibilidade de prover uma infinidade de serviços a todo o mundo por meio da internet. Por esses motivos, a maior empresa de internet do planeta é hoje a líder do movimento em prol da computação de nuvem, modelo considerado bem mais barato que o formato atual de compra e manutenção de infra-estrutura.
“A computação em nuvem nos permite ser o que somos hoje, estar à frente no segmento do qual participamos e nos ajudará a superar os tradicionais modelos de negócios e serviços”, diz Nilo. À medida que o Google e outras empresas avançarem no uso da computação em nuvem, o restante do mercado deverá seguir pelo mesmo caminho.
Novo negócio para a Amazon
Certamente, você enxerga a Amazon.com como a maior loja virtual do mundo, onde é possível comprar de livros a telas de LCD, de lençóis e fronhas a até sapatos. Pouca gente, no entanto, sabe que o shopping gigante da web anda ganhando dinheiro há cerca de dois anos alugando parte de sua infra-estrutura para startups e grandes corporações americanas. Esta façanha só foi possível porque a empresa criada há 13 anos construiu uma infra-estrutura baseada no conceito de nuvem.
Graças ao ambiente que opera em computação de nuvem, hoje a Amazon atua num nicho que não era o seu e que vem tomando forma nos últimos tempos. A empresa transformou-se numa vendedora de serviços de utility computing – os chamados Amazon Web Services (AWS). Entre eles estão serviço de storage, banco de dados e processamento. Na prática, a pontocom aluga a infra-estrutura e seus clientes deixam de investir na compra e manutenção de infra-estrutura.
Outro foco da Amazon é o desenvolvedor. Atualmente, são 370 mil cadastrados com acesso a uma plataforma de serviços que pode ser usada para a construção de negócios na web. “Quando nós entramos neste negócio, imaginamos que atrairíamos as pequenas empresas. No entanto, começamos a atrair grandes companhias”, afirma Kay Kinton, porta-voz da Amazon, em entrevista concedida à Info CORPORATE.
O jornal americano The New York Times utiliza o Amazon S3, serviço de armazenamento e gerenciamento de dados online. O volume de arquivos armazenados é ilimitado. O serviço é oferecido para a Europa e os Estados Unidos – este segundo paga 15 centavos de dólar a cada gigabyte armazenado e 10 centavos de dólar a cada gigabyte de dado transferido.
Para levar aos seus leitores online as páginas inteiras dos exemplares publicados de 1851 a 1922, o The New York Times aderiu aos serviços da Amazon. Todo material foi organizado cronologicamente. O serviço batizado de TimesMachine digitalizou as páginas do jornal, gerando arquivos PDF com fotos.
Outro cliente da Amazon é a bolsa de valores eletrônica Nasdaq, que usou seus Web Services para lançar o Nasdaq Market Replay, uma nova ferramenta para analisar montanhas de dados de ações de mercado. A contratação do serviço permitiu à bolsa americana lançar o serviço sem investir um centavo na compra de storage. Segundo Claude Courbois, vice-presidente associado da Nasdaq, a alternativa ajudou a reduzir custos e riscos de lançamento de um novo produto no mercado.