Ex-chefe da auditoria do Banco do Brasil, José Luís Salinas assume a TI do BB com planos de fortalecer a governança e os processos
IC O fato de não ter background em tecnologia pode atrapalhar ou ajudar na gestão de uma área de TI como a do BB?Administrador de empresas José Luís Prola Salinas, 45 anos, está há 25 no Banco do Brasil. Antes de assumir a vice-presidência de tecnologia e logística, no meio deste ano, Salinas atuava como auditor geral do BB. Experimente perguntar a Salinas como vai gerir uma área cujo orçamento anual é de 1,284 bilhão de reais e que emprega mais de 11 mil pessoas sem ter um background de tecnologia e a resposta apontará para a criação de uma estrutura forte de governança.“ A TI precisa ter uma visão de negócios e de planejamento, além de ser capaz de traçar cenários para responder com agilidade às necessidades do banco”, afirmou Salinas em entrevista exclusiva a Info CORPORATE.
Info CORPORATE Você está há 25 anos no Banco do Brasil. Por quais áreas passou? Como foi sua trajetória no BB?
JOSÉ LUÍS PROLA SALINAS Ingressei no Banco do Brasil em 1982, no Centro de Processamento de Serviços e Comunicações. Trabalhei também em agências, no atendimento ao cliente. Após nove anos, fui para a direção geral do banco, passando pelas áreas de gestão da qualidade, gestão de pessoas, estratégia e organização e auditoria interna. Na auditoria exerci os cargos de assessor, auditor, chefe adjunto e auditor geral.Durante esse período, participei também do programa de doutorado da empresa, pelo qual obtive o título de Doutor em Administração, na área de Estratégia e Competitividade, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em conjunto com a École des Hautes Études Commerciales de Montréal (Canadá).
IC Quais são suas prioridades? O que vai mudar na TI do BB?
SALINAS Quero aprimorar os processos e buscar a excelência em termos de governança de TI. Para isso, está em andamento o processo de contratação de uma consultoria especializada para, junto com os executivos e técnicos, buscar o refinamento dos modelos hoje praticados, como Itil, Cobit, PMI e CMMI. Pretendo aproximar cada vez mais TI, logística e suporte operacional das áreas de negócios, por meio de comitês estratégicos e fóruns técnicos, para definir prioridades e a modelagem conjunta de produtos e serviços. Para isso serão avaliadas as estruturas e feitos investimentos na capacitação dos funcionários vinculados à vice-presidência de tecnologia e logística.
IC O fato de não ter background em tecnologia pode atrapalhar ou ajudar na gestão de uma área de TI como a do BB?
SALINAS Além de ter trabalhado em área afim no início da minha carreira no Banco do Brasil, os assuntos de TI permearam minha formação acadêmica, como no mestrado, voltado para administração da produção e sistemas de informações gerenciais. Além disso, o mundo das grandes corporações, impactado pela globalização, exige de seus executivos experiências diversificadas e visão sistêmica. Em TI, isso não é diferente, porque ela não existe em função de si mesma. É parte dos negócios.Tenho a favor a experiência em diversas áreas do banco, em especial na auditoria interna, onde os processos vitais da empresa, aí incluídos os processos de TI, logística e suporte, são avaliados sob a ótica de gestão e risco. Lidei por quatro anos com autoridades reguladoras do sistema bancário nos continentes asiático, europeu e americano e isso será um diferencial na gestão de uma área vital para o BB.
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IC Causa preocupação com relação à gestão da equipe substituir nomes como o do carismático Cerqueira César e do especialista Manoel Gimenes Ruy?
SALINAS Substituir profissionais competentes é sempre uma grande responsabilidade. Em que pese as características individuais, acredito que cada gestor tem sua contribuição própria, e que o legado, ao final de uma gestão, é sempre resultado do esforço da equipe.
IC Qual é, na sua opinião, a missão do CIO num grande banco?
SALINAS Entender a área e ter uma grande visão de negócios e planejamento, além de desenvolver a capacidade de traçar cenários futuros para responder com agilidade e prontidão às necessidades da empresa.
IC Como fará para alinhar TI às estratégias de negócios?
SALINAS Instituindo comitês estratégicos de priorização, uma vez que os recursos são finitos; e comitês conjuntos de planejamento operacional, unindo as áreas de negócios e TI. Isso aliado ao desenvolvimento de métricas de custos e indicadores de resultados.
IC O BB saiu na frente com os serviços de m-banking e hoje tem pouco mais de 400 mil usuários e 2 milhões de transações/ mês, números que crescem lentamente. Na sua percepção, por que os usuários não aderiram?
SALINAS Como todo novo canal de relacionamento, o m-banking passa por um processo de mudança de hábitos. Cada cliente tem sua preferência para o relacionamento com o banco. Depois que ele identifica um canal para obter o que precisa, e entende que ele é rápido e seguro, passa a considerá-lo o mais importante que o banco já disponibilizou até hoje. Trata-se de uma questão de experimentação, conjugada com o tempo.
IC O BB investiu em software livre para os servidores das agências, com economia estimada em 50 milhões de reais. Essa política será mantida ou a TI vai partir para soluções híbridas?
SALINAS Soluções de código fechado e código aberto convivem muito bem no Banco do Brasil. O BB utiliza sempre aquela que julga ter o melhor custo-benefício e em muitos casos a tecnologia de código aberto prevalece. Pretendemos continuar seguindo essa premissa. Dezenas de aplicativos já são desenvolvidos em código aberto. Como alternativa para a suíte de escritório, o banco já instalou o BrOffice.org em 80 mil máquinas. Também já implantamos o sistema operacional GNU/Linux em todos os 5 500 servidores e em quase 50 mil máquinas nas agências. Entre os benefícios do uso de software livre estão a independência de fornecedores; a segurança, já que as soluções em software livre são revisadas continuamente por um grande número de usuários; a estabilidade; e, principalmente, o custo. Economizamos 60 milhões de reais nos últimos quatro anos com software livre.
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IC Fala-se muito hoje em outsourcing para bancos. O que você acha da terceirização?
SALINAS Entendo outsourcing mais como parceria do que como terceirização. Ao contar com uma empresa parceira, e especialista, podemos, além de cortar custos, nos dedicar ao core business. Temos exemplos bem-sucedidos, com SLAs rigorosos, como a Rede IP Multisserviços Remus, o backoffice, o outsourcing de numerário e a central de atendimento e help desk.
IC Outro assunto em pauta nos bancos é a questão do compartilhamento de recursos. O BB tem acordos com a CEF e o Bradesco. Há planos de estender esses projetos?
SALINAS Há sim. Além da Caixa e do Bradesco, o Banco do Brasil compartilha seus terminais com o Banco do Nordeste. Seguindo o que acontece em outros países, a tendência é que o compartilhamento ganhe adeptos, pois além de proporcionar comodidade aos clientes, gera também redução de custos operacionais.
IC Como estará a TI do Banco do Brasil em dois ou três anos?
SALINAS Será uma referência para o mercado em termos de governança, planejamento, alinhamento com os negócios e em soluções tecnológicas de vanguarda.

Publicado originalmente na Corporate de Novembro de 2007