
O segmento de software detém os maiores rendimentos do mundo de TI, mas precisa preparar-se para o desafio das novas formas de comercialização
A lucratividade alta tem sido uma característica inerente ao mercado de software. Somente no Brasil, segundo o Gartner, esse setor movimenta 2,3 bilhões de dólares ao ano. Na previsão da IDC, o valor chega a 3,1 bilhões de dólares. Essa alta rentabilidade tem a ver com o modelo atual de comercialização de software. Mas as discussões e iniciativas de entrega de programas como serviço devem desafiar essas cifras. “Enquanto a venda de serviços tem custos fixos altos com salários e encargos, a comercialização de software oferece ganhos significativos, principalmente para os produtos já acabados”, diz Julio Pagani, analista de software para a América Latina da IDC.
Desde 2000, quando o SaaS (Software-As-A-Service) apareceu, fala-se da necessidade de rever a forma de cobrança de licença. Inúmeros fornecedores de software levantaram a bandeira de mudar a forma de entrega dos programas. Mas na prática muito pouco se vê de concreto. “Eles adiam o quanto podem essa decisão, pois sabem que não é possível manter as mesmas margens. Mas terão de fazer essa migração, já que o modelo de licença está se tornando inviável”, diz o professor Fernando S. Meirelles, diretor da escola de administração de empresas da Fundação Getúlio Vargas – FGV-EAESP, e especialista em administração de recursos de TI.
Grandes projetos de ERP e Business Intelligence encabeçam os rankings do setor de software do Gartner, que registrou crescimento de 11,5% de 2007 para 2008. Para a IDC, a situação é parecida. Os três sistemas mais comprados em 2008 foram ERP, CRM e Supply Chain. Para o Gartner, o mercado de software deve crescer 10,4% em 2009 e mais 10% em 2010. ERP, Business Intelligence, CRM e Supply Chain continuam em alta, movidos tanto por atualizações quanto por aumento da base. Uma tendência é a adoção de software de gerenciamento. “Em 2008, esse segmento saltou 25% e deve manter-se em alta em 2009”, afirma Mauro Peres, country manager da IDC Brasil.
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Mesmo com esse crescimento, é consenso que a crise financeira americana vai impactar esse mercado, tanto para os fornecedores de fora quanto para os nacionais. “Teremos compradores mais cautelosos. O que se vendia em dois e três meses vai ser vendido em seis ou até dez meses”, diz Pagani, da IDC. Acredita-se que a crise deve atingir as economias maduras com mais força e os fornecedores colocarão suas fichas em mercados em crescimento, como o brasileiro.
“Mas isso não significa redução de preço. O que deve acontecer é que as empresas passarão a entregar mais pelo mesmo valor”, diz o analista de software da IDC. Já as empresas nacionais de software podem encarar a alta do dólar como uma oportunidade para aumentar suas vendas de ERP, Supply Chain e portais, áreas em que os produtos importados são fortes. Para Reinaldo Roveri, analista de mercado da IDC, a crise americana também pode impulsionar alguns segmentos. “À medida que cresce a necessidade de controle e monitoramento de custos, as empresas vêem-se obrigadas a investir em sistemas para alcançar essa eficiência”, diz ele.
Uma tendência apontada pelo Gartner é o crescimento do uso de código aberto nos programas corporativos. De acordo com a consultoria, em 2012, 80% de todos os programas comerciais vão incluir elementos de código aberto. Muitas dessas plataformas são maduras e estáveis e os fornecedores passam a encarar o padrão aberto como alternativa para baixarem seus custos e
aumentarem a possibilidade de entrega de retorno sobre o investimento.
Do ponto de vista de mercado, o movimento de fusões e aquisições entre empresas de software continua. A característica do setor no Brasil, de ser bastante pulverizado, estimula a onda de fusões. “Somente a Softex, uma das associações de empresas de software, concentra 8 mil companhias. É comum que elas se unam para ganhar mercado, aumentar o portfólio e tornar-se mais competitivas”, diz Ione de Almeida Coco, vice-presidente do programa executivo do
Gartner para a América Latina.
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O efeito colateral da onda de fusões é sentido no desempenho do pós-venda, o que tem levado muitos clientes de algumas grandes empresas de software a reavaliarem seus sistemas e, em alguns casos, optarem pela troca. “Percebemos que no movimento de fusão algumas companhias não souberam como informar e amparar o cliente, que se sentiu literalmente órfão quando precisou de assistência ou de negociar atualizações”, diz Ione.
Do lado do fornecedor, a executiva chama a atenção para a necessidade de fazer gestão de mudança no pós-venda de empresas recém-adquiridas com foco na percepção do cliente. E para o CIO uma alternativa é ser proativo e chamar a nova empresa para saber se ele pode continuar contando com o atendimento que vinha recebendo anteriormente. Essa atitude pode fazer com que a empresa passe a receber atenção especial, mesmo que o departamento de pós-venda do fornecedor ainda não esteja consolidado.
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Ilustração - Daniel Bueno