A nota fiscal eletrônica é hoje um dos assuntos mais quentes do mercado brasileiro de TI. A questão desperta a atenção tanto de CIOs de grandes companhias quanto de médios e pequenos negócios. Fornecedores, integradores eVARs que prestam serviços ou fornecem software para a área fiscal estão recebendo consultas diárias de dezenas de executivos. A e-business Brasil, entidade que representa as empresas que praticam comércio eletrônico, acredita que a nota fiscal eletrônica, ou NF-e, terá impacto em quase todo o mercado de TI e deve gerar muitos negócios nos próximos anos. A estimativa é de que, em média, cada empresa brasileira gaste entre 30 mil reais e 300 mil reais para adequar seus sistemas."Os valores variam em função do porte da empresa, o volume de notas fiscais que emite e sua infra-estrutura de TI", afirma Richard Lowenthal, presidente da e-business Brasil. Traduzindo: há oportunidades em todos os segmentos de mercado.
Uma pesquisa da entidade com 224 empresas constatou que alguns setores têm maior potencial de negócios. Em primeiro lugar, estão as integradoras de soluções e os fornecedores de ERPs. Depois, vêm os desenvolvedores de sistemas fiscais e tributários e em terceiro lugar as consultorias. Mas é indiretamente que a nota fiscal eletrônica desencadeará mais negócios. Tecnologias de segurança da informação serão necessárias para proteger as transações. A NF-e também deve aumentar a demanda por equipamentos de captura de dados, como leitores de código de barras e sistemas de RFID. As vendas de storage (armazenamento) também serão estimuladas, uma vez que os dados fiscais deverão ficar guardados em formato digital por pelo menos cinco anos. Por causa da movimentação prevista no mercado de ERP, há também a expectativa de aumentos nas vendas de servidores de aplicação.
Vale lembrar que a NF-e é apenas o primeiro passo em direção ao SPED (Sistema Público de Escrituração Digital), que obrigará as companhias a transformar em arquivos eletrônicos todas as informações dos livros contábeis já em janeiro de 2007. "As empresas já estão se planejando", afirma Carlos Kazuo Tomomitsu, sócio-diretor da Procwork, que por meio desua divisão de software e serviços desenvolveu soluções para a NF-e o SPED dentro do seu sistema para a área fiscal, o PW.SATI. Três dos atuais clientes da Procwork fazem parte do grupo de 19 companhias que estão testando a NF-e. São elas a Bosch, a General Motors e a Eletropaulo. "Como o governo não consegue mais aumentar a carga tributária, parte agora para combater a sonegação. Com os sistemas digitalizados, ficará mais fácil realizar o cruzamento de informações contábeis", diz Tomomitsu.
PEQUENAS NA MIRA
A estratégia para a nota fiscal eletrônica da Procwork prevê ofertas para companhias de todos os portes. Para as grandes e médias, a integradora pretende oferecer consultoria e implementação de ERP. "Uma parte das empresas, que já possui ERP, precisará garantir a qualidade e a confiabilidade de seus dados, com a finalidade de ficar em ordem como fisco. Isso abrirá espaço para serviços de consultoria", afirma Tomomitsu.
Há perspectivas ainda melhores entre as companhias que usam ERPs e sistemas contábeis desenvolvidos internamente, na maioria das vezes obsoletos. Para esse grupo, a chegada da NF-e deve ser vista como uma oportunidade para migrar para uma solução de mercado. Ou seja, abre-se uma porta para novos serviços e, como conseqüência, para a venda de mais infra-estrutura de TI para rodar as aplicações. "A procura por ERP nunca esteve tão aquecida. Nos últimos dois meses, fechamos dez novos projetos, enquanto que o normal seriam dois. Esperamos que esse aquecimento continue ou até aumente ", diz Tomomitsu.
Para empresas pequenas e médias e também escritórios de contabilidade, a Procwork deve lançar no início do próximo ano um serviço de outsourcing para a área fiscal. A empresa aposta na base de conhecimento que acumulou e no conjunto de sistemas que desenvolveu nessa área. Além disso, está preparando uma infra-estrutura de servidores com capacidade para enviar 10 mil notas fiscais em 15 minutos, segundo Tomomitsu. "Estamos investindo 500 mil reais na compra de servidores e na contratação de pessoal, mas esse número poderá dobrar se a procura por NF-e for grande", diz Tomomitsu. O modelo de cobrança será por transação realizada. "Acreditamos muito nesse negócio. O ponto de equilíbrio, tendo como base os investimentos que estamos fazendo, é de 200 empresas de médio porte ou mil de pequeno porte", afirma.
PARA ISVS E INTEGRADORES
A Soft Team, empresa especializada em soluções fiscais, comum a carteira de mais de 100 clientes e que até então tinha apenas um escritório em São Paulo, está investindo este ano 1,2 milhão de reais em negócios relacionados à NF-e. O plano inclui a abertura de filiais em Porto Alegre e Goiânia, além de treinamentos e eventos. A empresa também investe na criação de um grupo de parceiros comerciais. Em Curitiba, fez uma parceria com a integradora Savoir Faire e outros acordos no Rio de Janeiro e na Bahia estão sendo concluídos. A empresa fornece tecnologia para quatro das 19 empresas que testam a NF-e: Wickbold, SiemensVDO, Sadia e Ultragaz.
Para atender à demanda, a Soft Team criou um produto chamado BI fiscal, um sistema de Business Intelligence que usa tecnologia da Microstrategy. "A ferramenta faz o gerenciamento das rotinas diárias, controla prazos e realiza todo o mapeamento e monitoramento das operações. O administrador pode acompanhar tudo de um painel de controle", afirma Flávio Ortêncio, sócio-diretor da Soft Team. O Business Intelligence deve ser um dos principais responsáveis pelo aumento de 50% no faturamento da empresa neste ano, previsto para chegar a 37 milhões de reais.
A NeoGrid, empresa de Joinville (SC) especializada em serviços de comércio B2B, espera um incremento na receita de até 30% no próximo ano por causa da NF-e. Como estratégia de venda de seus produtos, a empresa busca fechar parcerias com fabricantes de ERPs e integradores voltados para o mercado corporativo. A NeoGrid está desenvolvendo um módulo de NF-e para se integrar ao seu principal produto, um sistema de automação de troca de pedidos e cotações B2B que deve estar pronto em novembro.
"Não iremos vender licenças de softwares, mas serviços, que serão cobrados por transação", afirma Marlon Marques de Almeida, gerente de marketing e vendas da NeoGrid. A solução se chamará NeoGrid NF-e e permitirá o envio do documento para a Receita Federal e também para o destinatário, o recebimento automático de notas fiscais eletrônicas do fornecedor, a integração com sistemas integrados de gestão e a validação da NF-e, além do monitoramento de notas enviadase recebidas e ambiente para hospedar a solução.
ASSINATURA DIGITAL
Segurança é um dos pontos críticos da nota fiscal eletrônica, o que também abre espaço para várias oportunidades. A E-Val Tecnologia, empresa especializada em assinatura digital, parceira da Safenet e da Itautec, com clientesem carteira do porte da Serasa, desenvolveu uma solução chamada Plataforma E-VAL Nota Fiscal Eletrônica, composta de hardware e software. "O produto é voltado para pequenas e médias empresas. Estamos buscando parcerias com integradores, pois é uma solução a ser inserida dentro de um projeto. Temos realizado alguns eventos com Mastersaf e Itautec, mas ainda não há um acordo formalizado", diz Murilo Rivau Fernandes, gerente de projetos da empresa. Segundo Fernandes, trata-se de uma plataforma de alta performance e disponibilidade, com servidor criptográfico dedicado, com desenvolvimento nas linguagens de programação .Net e Java. O armazenamento da NF-e e da assinatura (XMLDSig) é feito em bancos de dados com XML nativo, como o SQL Server 2005 ou o Oracle.
A BRy Tecnologia, outra empresa catarinense que desenvolve soluções de segurança, lançou oBRy Signer NF-e. O sistema assina digitalmente notas fiscais eletrônicas e oferece opções adaptáveis a diferentes demandas. A solução integra hardware e software e pode ser customizada para o sistema de emissão de notas fiscais utilizado em cada empresa. O sistema da BRy autentica a nota fiscal do cliente e faz a interface com as exigências da Receita Federal e das secretarias estaduais de Fazenda. "Nesse equipamento fica armazenado um único certificado digital, que assina as notas eletrônicas do cliente", afirma Marcos Sant'Ana, diretor comercial da BRy. Dependendo do modelo do hardware, é possível fazer de 50 a 450 assinaturas digitais de documentos por segundo.
SISTEMAS DE GESTÃO
A fornecedora de sistemas de gestão Datasul está desenvolvendo uma estratégia para atender à demanda de soluções referentes a NF-e e SPED, tanto da sua base de 2 300 clientes como também de novas empresas que queiram adotar o seu sistema de gestão empresarial. A Datasul montou uma equipe para criar a solução, composta de desenvolvedores, engenheiros e advogados. "Assim que as regras estiverem definidas, vamos incorporar ao nosso ERP um módulo para gerar o registro da NF-e de acordo com o padrão definido pelos órgãos oficiais. Esse módulo será oferecido gratuitamente para os atuais clientes como atualização", afirma Edimilson José Correa, diretor de produtos e tecnologia da Datasul.
A Datasul possui 30 franquias no país e todas estão sendo informadas sobre o que é a NF-e e oque já foi definido sobre o sistema. "O mercado de ERP deve se aquecer, porque somente um sistema integrado de gestão pode garantir a qualidade das informações fiscais", diz Correa.
A Microsiga, outra forte fornecedora de ERP do mercado, não tem uma estratégia específica paraa NF-e. "Desde agosto, alguns clientes, prestadores de serviços da cidade de São Paulo, estão obrigados a emitir notas fiscais eletrônicas. Para eles oferecemos gratuitamente um módulo de atualização para realizar essa operação", diz Marcelo Monteiro, diretor-geral da Microsiga. "Quando as regras da NF-e na esfera estadual estiverem definidas, deveremos ter o mesmo procedimento para os demais clientes. Informamos os clientes sobre o andamento do processo", diz Monteiro.