SÃO PAULO - Com a estréia do pagamento móvel, tem início uma nova era para os bancos, cartões de crédito e correntistas.
O Brasil acaba de entrar num mundo no qual os telefones celulares se transformam em meios de pagamento, prometendo deixar na pré-história das finanças notas e cartões de plástico. No dia 21 de novembro, o HSBC tornou-se o primeiro banco em atividade no Brasil a converter o celular em dinheiro vivo. Clientes previamente inscritos puderam ir ao cinema HSBC Belas Artes, em São Paulo, e ver o bilheteiro clicar no computador, digitar o preço e o número do celular e enviar uma mensagem pela internet. Segundos depois, os usuários receberam uma chamada telefônica cujo objetivo era confirmar a operação. Pronto. A entrada para a sessão de cinema estava paga. Até o final deste ano, os correntistas do banco poderão fazer o mesmo nas lojas da Livraria Cultura de todo o país. Desde o final de outubro, 6 000 correntistas cadastrados também podem usar o celular para pagar despesas em cinco sites de comércio eletrônico.
A entrada dos grandes bancos no negócio do pagamento móvel -- nome dado a esse tipo de transação -- era algo esperado no mercado brasileiro. A única dúvida era qual deles sairia na frente de um movimento que, a julgar pelo que já acontece no resto do mundo, é inexorável. Atualmente, quatro grandes bancos brasileiros planejam o lançamento desse tipo de serviço para o próximo ano. O ABN Amro Real tem dois projetos piloto em andamento. Desde o começo de novembro, estudantes da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo usam o celular para pagar despesas de lanchonete e de cópias. As informações são transmitidas via mensagem de texto, os SMS. O ABN também vem testando os resultados do sistema com um grupo de 12 taxistas de São Paulo. Eles circulam com um dispositivo semelhante às máquinas de cartões de débito e crédito. Ao final da corrida, em vez de passar o cartão, o taxista digita o número do celular do passageiro -- que tem de ser corren tista do banco -- e pede que ele marque sua senha. O débito em conta é automaticamente realizado. O Bradesco, maior banco privado do país, tem hoje 250 000 clientes cadastrados para fazer a recarga do celular no próprio aparelho. O serviço começou a ser oferecido no início deste ano e tem média de 100 000 operações por mês. A meta para o ano que vem é enviar contas de telefone fixo e de luz ao celular e permitir que o cliente do banco autorize o pagamento. Santander Banespa e Banco do Brasil também devem apresentar versões de pagamento móvel em breve.
O sucesso e a proliferação desse tipo de sistema representam quase uma reinvenção de negócios como o das administradoras de cartões de crédito. E, obviamente, elas já se movimentam. A Visanet, por exemplo, é parceira do ABN no projeto dos taxistas. A Redecard, responsável pelas operações dos cartões de bandeira Mastercard e Diners, tem um projeto piloto com as fabricantes de cosméticos Natura e Mary Kay. Há algumas semanas, 40 vendedoras dessas marcas acessam um aplicativo da Redecard instalado no celular e digitam os dados da compra e do cartão do cliente. As informações vão para a Redecard e, após a autorização do banco, as vendedoras recebem o código da transação. Toda essa movimentação é uma reprodução, em fase inicial, do que está acontecendo em várias partes do mundo. Nos Estados Unidos, a estréia em grande escala do celular como carteira é esperada para 2007. Algo parecido vem acontecendo na Europa. Segundo uma pesquisa recente da Celent, consultoria americana voltada para o setor bancário, neste ano o total de pagamentos móveis no mundo será de 24 bilhões de dólares, a maioria resultado do comércio de músicas, jogos e notícias. Hoje, de cada 10 dólares pagos por celulares, 6 são faturados na Coréia do Sul ou no Japão. A previsão da Celent para 2008 é que o total mundial de pagamentos móveis chegue a 55 bilhões de dólares, crescimento vindo sobretudo da expansão geográfica desse tipo de serviço.
O desenvolvimento do uso do celular como meio de pagamento não tem um caminho único, como mostra a própria experiência asiática, de longe a mais adiantada. No Japão e na Coréia do Sul, os aparelhos de terceira geração e as velocidades altas de conexão são o grande motor desse processo. À medida que o celular se transforma na extensão da internet, um meio cada vez mais rápido e cada vez mais usado para compras, aumenta a agilidade das operações e diminuem os temores so bre segurança. Entre coreanos e japoneses, cresce também o uso das tecnologias batizadas de contactless (sem contato físico). Um chip instalado dentro do celular permite usá-lo para comprar a passagem do metrô ou um refrigerante no quiosque. Para efetuar a transação, basta colocar o aparelho próximo do local determinado. Não é preciso digitar código algum. Na Coréia do Sul, já há meio milhão de estabelecimentos que aceitam essa forma de pagamento. No Japão, são 20 000. A empresa de telecomunicações japonesa NTT DoCoMo é o dínamo por trás das novidades nessa área. No final do ano passado, foi a primeira do mundo a lançar cartões de crédito em celulares. Nas Filipinas, o perfil dos usuários e a infra-estrutura do setor de telecomunicações são, obviamente, bem diferentes. Isso, porém, não impediu que o mercado local desenvolvesse uma das experiências mais avançadas entre os países em desenvolvimento. Lá, os donos de celulares compram créditos que podem ser transferidos de um aparelho para outro com o uso de SMS. Esse sistema permite que um cliente pague as despesas ao enviar o registro de um crédito para o celular do dono da loja.
Apesar de questões de custo e segurança que precisam ser ajustadas de acordo com características locais, restam poucas dúvidas de que usar um aparelho com a capilaridade do celular como meio de pagamento faz todo o sentido. Em outubro, o número de celulares no Brasil chegou a 96 milhões -- crescimento de 275% desde 2002. Em todo o mundo, já são 2 bilhões de aparelhos em operação, o equivalente a um terço da humanidade e mais do que todos os usuários de computadores juntos. Ninguém em sã consciência, no entanto, prevê que o celular enterrará o dinheiro vivo e os cartões de crédito convencionais. Pelo menos não no curto prazo.
Do ponto de vista dos usuários, a iniciativa é sinônimo de comodidade, de conforto. Para as empresas de telecomunicações, também é um bom negócio, uma espécie de caminho natural. Nos anos 90, os celulares eram apenas um instrumento grande e pesado para conversar. Hoje, menores e leves, têm uma longa lista de funções. Sem contar o aumento de receita decorrente das ligações e dos SMS, o pagamento móvel transforma o celular em peça ainda mais imprescindível no dia-a-dia.
Nessa fase de desbravamento, os bancos brasileiros investem com um olho no futuro e outro na imagem de modernidade que essas iniciativas irradiam. Mas, para que o celular se firme como um instrumento financeiro viável e de massa, será necessário encontrar uma fórmula competitiva em relação aos canais existentes. Em média, uma operação bancária feita no caixa da agência custa 3 reais. Numa máquina ATM, cai para 70 centavos e, no site do banco, fica em torno de 10 centavos. "O pagamento móvel é uma forma interessante, mas é preciso examinar a viabilidade financeira de cada projeto", diz Rodrigo Motta Mendes, diretor da área financeira da consultoria AT Kearney, para quem os cartões de crédito terão um papel crucial. Não faz sentido, diz Mendes, os bancos cadastrarem individualmente todos os lojistas do país porque a Redecard e a Visanet já trilharam esse caminho. "É óbvio que o celular terá seu espaço, mas por enquanto está em processo de maturação", diz José Tosi, gerente-geral da Mastercard no Brasil.
Como demonstra o exemplo da África do Sul, os celulares têm potencial para popularizar outra modalidade, a dos bancos móveis. Os clientes do Wizzit, que tem como lema "Um banco no seu bolso", são, em geral, pessoas de baixa renda, gente que se sente pouco à vontade em uma agência bancária, mas possui um celular. É por meio dele que fazem transferências bancárias e compram créditos em empresas de energia elétrica. Com o uso de cartões em máquinas ATM, retiram dinheiro e pagam contas. Uma pesquisa realizada pelas Nações Unidas e pela Fundação Grupo Vodafone, entre julho e agosto, com 215 pessoas concluiu que os clientes do Wizzit sentem falta de contato com pessoas nas ligações para o banco, mas acreditam que o sistema móvel seja mais em conta.
| O mercado em expansão |
| O número de linhas de celular no Brasil cresceu 275% em quatro anos (em milhões) |
| 2002 | 35 |
| 2003 | 46 |
| 2004 | 65,5 |
| 2005 | 86 |
| 2006(1) | 96,5 |
(1) Até outubro Fonte: Anatel |
Portal EXAME