SÃO PAULO - Depois de amargar anos de crise na ressaca da bolha da internet, a gigante americana é de novo uma das maiores empresas do mundo.
No dia 24 de março de 2000, uma sexta-feira, a Cisco tornou-se a empresa mais valiosa do mundo. Seu valor de mercado atingiu 579,2 bilhões de dólares, 1 bilhão a mais que a Microsoft. Em poucos momentos na história do mercado financeiro houve tamanha exuberância ou irracionalidade, como demonstrou o estouro da bolha da internet, semanas depois. Após atingir o ponto mais alto da montanha-russa, as ações da fabricante de equipamentos de rede ainda se mantiveram naquele patamar durante seis meses - e daí em diante a lei da gravidade voltou a se fazer sentir. Em 2001, a Cisco deu prejuízo. No ano seguinte, as ações da empresa valiam menos de 10 dólares. Os investidores queriam distância de qualquer negócio ligado à internet. A companhia entrou na pior crise de seus 20 anos. Agora, para surpresa de muita gente, a Cisco está de volta ao topo. Com o crescimento dos acessos de alta velocidade e a migração das operadoras de telefonia para a tecnologia da internet, a maior fornecedora de infra-estrutura de redes do mundo está atrás apenas da Microsoft - e à frente do Google - no ranking das mais valiosas companhias de tecnologia. A Cisco não só sobreviveu à crise como saiu transformada e fortalecida dela.
Há quem atribua esse recente sucesso a uma suposta nova bolha da internet. Um dos argumentos favoritos para justificar essa teoria é a compra do YouTube pelo Google, um negócio de 1,7 bilhão de dólares. O site de vídeos tem relação com o que se passa na Cisco, é verdade, mas por outros motivos. Clipes exibidos na web consomem banda e, por conseqüência, equipamentos que controlam esse tráfego pela rede, justamente a especialidade da Cisco. E a empresa não atua mais somente nos bastidores da rede. Com a compra da Scientific Atlanta, uma das maiores fabricantes do mundo de conversores de TV paga, e a linha de roteadores Linksys para redes sem fio doméstica, com a tecnologia Wi-Fi, a companhia agora tem ofertas mais próximas dos consumidores. Esses novos negócios, gestados logo no início da crise, são o que a Cisco chama de "tecnologias avançadas". Segundo o executivo-chefe John Chambers, cada uma dessas iniciativas pode se tornar um negócio superior a 1 bilhão de dólares.
Mas é costurando os nós da internet que a Cisco garante a maior parte de sua receita. Após os anos de bonança, havia a desconfiança de que a expansão da rede fosse diminuir de ritmo. Aconteceu o contrário. Hoje, as empresas de telefonia de todo o mundo atravessam um novo ciclo de investimentos para que suas ligações de voz também utilizem a tecnologia básica da internet. Isso significa economia nos custos de operação das empresas e inúmeras possibilidades de novos serviços baseados em software, especialmente de vídeo. "É arte, não ciência, fazer os vídeos funcionarem", disse Chambers no mais recente anúncio de resultados. Mas é claro que ele não deixa a engenharia de lado. Em agosto, comprou a Arroyo Networks, empresa especializada em vídeo sob demanda. E o orçamento de pesquisa e desenvolvimento no ano passado foi de 3,2 bilhões de dólares, 13% do faturamento de 24,8 bilhões de dólares. O uso extensivo da internet como ferramenta de gestão também continua sendo um dos pilares da cultura da empresa. No fim dos anos 90, a Cisco foi uma das pioneiras na criação de uma intranet e no uso da web para o treinamento de funcionários. Hoje, a companhia estima que economize 2,5 bilhões de dólares anualmente com o uso da rede para vender, prestar assistência técnica e treinar seus 47 000 funcionários. O próprio Chambers grava em média cinco vídeos por mês, que ficam disponíveis na rede para funcionários e clientes.
Apesar do momento favorável, a nova boa fase vem em um mercado diferente para a Cisco. Os concorrentes agora são muito maiores (Siemens e Nokia fundiram suas operações de infra-estrutura, assim como Lucent e Alcatel), e as operadoras de telefonia de todo o mundo ainda vivem um momento de consolidação que terá impacto nos negócios dos grandes fornecedores. Outro problema que a empresa tem de resolver é de imagem. O país em que as vendas mais crescem em termos proporcionais é a China - e o governo é um dos grandes clientes. Não haveria problema se os equipamentos da Cisco não fossem usados para policiar e censurar o uso que os chineses fazem da internet. No início do ano, executivos da empresa foram ao Congresso americano prestar explicações sobre suas relações com a ditadura de Pequim. A Cisco não é a única empresa a colaborar com as autoridades chinesas (Yahoo!, Google e Microsoft fazem o mesmo), mas foi uma das mais criticadas porque seus equipamentos são usados diretamente pela força policial. Em sua defesa, a empresa diz que seus produtos são os mesmos vendidos no resto do mundo.
A preocupação com a imagem não é trivial. Em outubro, a Cisco anunciou uma campanha mundial de 100 milhões de dólares para revitalizar sua imagem perante o consumidor final. Embora tenha uma posição alta entre as marcas mais valiosas do mundo (aparece em 18o no ranking de 2006), a idéia é tornar-se um nome tão reconhecido como Google e Microsoft. "Descobrimos que as pessoas estão menos familiarizadas com nossa empresa do que com nossos pares na indústria tecnológica", disse Sue Bostrom, responsável pelo marketing da Cisco. A idéia, agora, não é falar apenas com os especialistas, mas também com o consumidor final. O retoque na maquiagem é apenas um detalhe diante da formidável recuperação da empresa nos últimos anos.
Portal EXAME