O Banco do Brasil faz uma operação para tentar salvar sua empresa de TI. Mas o país precisa dessa estatal?
Executivos do Banco do Brasil estão com a agenda carregada para apresentar ao mercado um novo fundo baseado em créditos que a Cobra Tecnologia, sua empresa de serviços tecnológicos, receberá nos próximos anos. Mas, além de ser uma alternativa de aplicação financeira para potenciais investidores, a operação tem outra finalidade: salvar a Cobra. Pela matemática do BB, o negócio garantirá injeção imediata de 250 milhões de reais em sua coligada. Foi a saída encontrada para resgatar a companhia, hoje afogada em dívidas e pendências judiciais. Mesmo que a estratégia tenha sucesso, duas perguntas permanecem em aberto. A mais óbvia é: o que fazer para tornar a empresa rentável e evitar que, em breve, uma nova operação salva-vidas seja necessária? Mas há um questionamento que deveria preceder qualquer outro: o que, afinal, o país ganha com essa estatal?
A Cobra encolheu
Confira a evolução do faturamento e dos lucros da empresa nesta década
Receita (*em milhões de reais)
- 2001: 294*
- 2002: 411*
- 2003: 697*
- 2004: 873*
- 2005: 632*
Lucro líquido (*em milhões de reais)
- 2001: -0,8*
- 2002: 22,8*
- 2003: 7,2*
- 2004: 2.1*
- 2005: -57,3*
Fontes: Cobra Tecnologia e Banco do Brasil
Uma parte generosa do orçamento de tecnologia do Banco do Brasil -- um dos maiores do país, da ordem de 1,2 bilhão de reais em 2006 -- é cativa da Cobra. Dois de cada 3 reais que a prestadora de serviços fatura saem de seu controlador. É uma situação que não favorece a concorrência nem premia necessariamente o mais competente. Por outro lado, menos de 3% das receitas vêm de clientes privados. O restante é fruto de negócios com órgãos do governo, por vezes atendidos sem passar por licitação, privilégio garantido à Cobra por sua condição de companhia pública. Exemplos disso são o recente contrato com o Banco da Amazônia, que movimentou 51 milhões de reais só em 2005, e a venda de 21 milhões de reais em equipamentos para a prefeitura de Contagem, Minas Gerais, ambos sem concorrência. Mesmo com essas vantagens, a Cobra registrou um prejuízo de 57,3 milhões de reais no último exercício e viu seu faturamento cair 27,6% em relação ao ano anterior.
Os problemas parecem ter parte de sua origem no apetite com que a empresa se lançou a contratos e projetos fora do Banco do Brasil. Durante o mandato de Fernando Henrique Cardoso, houve duas tentativas fracassadas de privatizar a companhia, que, então, limitava-se a atender seu controlador. A partir de 2003, o novo governo optou por investir na empresa e fazê-la crescer. A partir daí, a Cobra envolveu-se em projetos que um analista de mercado, que prefere não ser identificado, definiu como "megalomaníacos". Entre eles estava um processo de internacionaliza ção, apoiado na construção de um pólo de tecnologia na cidade de Ponte de Lima, em Portugal; o desenvolvimento de um sistema para concorrer com o Windows, da Microsoft, batizado de Freedows, em parceria com a desconhecida Free Software; e uma suposta participação decisiva no projeto PC Conectado (depois renomeado Computador para Todos), para levar recursos de informática à população de baixa renda. Hoje, a Cobra está fora de todas essas iniciativas.
Também fez parte do plano de expansão atender a um número cada vez maior de prefeituras e órgãos públicos. Isso foi feito, mas aparentemente de forma desordenada. "Não basta resolver que a empresa vai ser grande e sair fechando contratos. É preciso ter estrutura para dar vazão ao que foi vendido", diz um ex-executivo de uma multinacional do setor de tecnologia que hoje atua como consultor e negociou diversos contratos com a Cobra. Paralelamente, a estatal envolveu-se em suspeitas de práticas ilícitas. A companhia foi interrogada na Comissão Parlamentar de Inquérito dos Correios e sofreu um processo do Ministério Público Federal por participar de contratos irregulares com a Dataprev, a empresa de processamento de dados da Previdência Social.
O Estado é o grande cliente
A imensa maioria dos contratos da Cobra é com empresas estatais (% do faturamento)
- Banco do Brasil: 64,4%
- Banco da Amazônia: 8,1%
- Dataprev: 4,9%
- São Paulo Transportes: 3,3%
- Banco do Nordeste: 2,3%
- Caixa Econômica Federal: 1,8%
- Outros: 15,2%
Fonte: Cobra Tecnologia
A seqüência de más notícias resultou nas demissões do presidente da Cobra, Leandro Vergara Raimundi, e do vice-presidente de TI do BB, José Luiz de Cerqueira César, a quem a coligada se reportava. Nos bastidores, as mudanças foram atribuídas ao presidente do BB, Rossano Maranhão, que não concordava com o sonho expansionista da empresa. Desde então, o comando da Cobra passou a Jorge Wilson, um funcionário de carreira do banco, que não falou com EXAME devido ao período de silêncio imposto pela Comissão de Valores Mobiliários. (Também em cumprimento à regra da CVM, outros executivos da Cobra e do Banco do Brasil não puderam dar entrevista. A companhia afirmou ainda que não se manifesta sobre questões jurídicas.)
Caso a oferta do fundo tenha êxito, abre-se uma chance inédita de colocar a casa em ordem -- e também uma oportunidade para refletir sobre o papel dessa estatal no Brasil de hoje. Criada em 1974 para viabilizar o projeto de uma indústria nacional de computadores, a Cobra passou a ser controlada pelo BB em 1990, quando a reserva de mercado que restringia as importações de tecnologia dava seus últimos suspiros. Durante esse período, diversos bancos brasileiros criaram companhias próprias de TI para atender a suas necessidades tecnológicas. Hoje, a situação mudou e as instituições financeiras transformaram esses negócios em empreendimentos lucrativos ou tentam se desfazer deles. Por que com a Cobra deveria ser diferente? Há uma explicação: qualquer debate sobre a coligada do BB só pode ser compreendido à luz dos interesses e da visão ideológica do governo federal. "O destino da Cobra é mais uma questão política do que de negócios", diz Mauro Peres, diretor da consultoria IDC. É aí que está o problema.