Como as novas ferramentas de colaboração transforam os negócios das empresas.
A notícia de que a Toyota havia passado a GM em vendas no primeiro trimestre deste ano caiu como uma bomba na corporação. A perda de uma liderança de mais de 70 anos deixou os 280 mil funcionários aflitos, querendo saber quais seriam as conseqüências. Como acalmar, rapidamente, tanta gente mundo afora? Enquanto a matriz procurava um meio, Ray Young, presidente da GM Brasil, esclarecia no blog corporativo como a empresa estava lidando com a questão e avisava que haveria um posicionamento do presidente mundial dias depois. Os funcionários brasileiros leram o post — os demais tiveram tempo de cultivar medos e gastrites.
O blog de Ray Young espelha como o conceito de interatividade e colaboração da web 2.0 vem se embrenhando nas empresas e transformando a comunicação e os negócios. Projetado para ser um veículo de troca informal de idéias, o blog estreou em março seguindo a liturgia da segurança. Os posts não trazem assuntos confi denciais, números, metas nem dados fi nanceiros. A ferramenta, construída num módulo do Lotus Notes, se protege na intranet, rodando dentro do fi rewall. E, para surpresa da direção, é um sucesso de público desde o nascimento — o primeiro post recebeu mais de mil visitas e ultrapassou uma centena de comentários.
Nas empresas, o movimento não é tão frenético como o da web dos mortais. A maioria das iniciativas tem poucos meses de vida. “As empresas têm usado as ferramentas colaborativas num aspecto mais interno, para verificar os benefícios que podem trazer com os funcionários, antes de expandi-las para os clientes”, diz Waldir Arevolo, diretor de pesquisas do Gartner. Quanto mais críticas para o negócio são as informações internas, mais vagarosa e protegida tende a ser a implantação de meios que façam algumas delas circular. Nesse ritmo, segundo prevê o Gartner, a maturidade em web 2.0 no ambiente de trabalho não deve acontecer antes de 2010.
Em se tratando de tecnologias web 2.0, as empresas têm prioridades que antecedem a troca de idéias. A implementação de web services, que tornam possível a integração com sistemas diferentes de clientes e fornecedores, vem em primeiro lugar para 80% dos 2 847 executivos entrevistados pela McKinsey em todo o mundo, em janeiro deste ano. Tecnologias de inteligência coletiva fi cam em segundo lugar, com 48% das menções. No Brasil, das cem empresas que mais usam tecnologia, 28% implantaram sites de relacionamento, segundo a pesquisa As 100 Empresas Mais Ligadas do Brasil, realizada pela INFO em fevereiro. Os webcasts estão presentes em 21% das companhias, seguidos de blogs (20%), wikis (15%), podcasts (9%) e presença no Second Life (4%).
Um portal para cada um
Os portais corporativos tendem a ser os primeiros a passar por reformulações 2.0, segundo Arevolo, para permitir personalização e mashups e agregar variadas fontes de informação para pessoas diferentes com necessidades diversas. Algo nessa linha já acontece na GM Brasil, laboratório bem-sucedido de inovações da gigante mundial. Em dezembro de 2006, entrou em operação no Sócrates, a intranet corporativa, o portal personalizável MySocrates, feito em Ajax. O funcionário pode personalizar sua área de trabalho com links externos autorizados e conteúdos gerados por 20 áreas da companhia, como manufatura, engenharia, RH e supply chain.
“O portal está preparado para os próximos passos, que incluem a oferta de conteúdo de acordo com o perfil do usuário, RSS, wikis e acesso externo pelo celular”, diz Helio Silva, gerente de planejamento estratégico de TI e integrante da comissão que estuda projetos de web 2.0 para a corporação.
Na Amil, a personalização chega ao cliente no semestre que vem. A área de vendas online passa por uma reforma em Ajax para permitir que o usuário monte o próprio plano de saúde. Quem tem dúvidas, pede ajuda online pelo chat. A primeira parcela pode ser paga ali mesmo, pelo cartão de crédito. “Buscamos mais interação e integração dos recursos para facilitar a vida das pessoas”, diz Fabiana Lins de Sá, gerente web da Amil. Ela prepara a integração do site com mapas da Webraska, para ajudar na localização de médicos credenciados. Internamente, a Amil inaugurou há dois meses um wiki, produzido com ferramenta open source. Uma campanha de incentivo estimula os funcionários a alimentar o wiki com seus conhecimentos. A criação de um blog está em estudos.
Na Datasul, o blog começou com tudo em dezembro passado, substituindo o café da manhã semanal com o presidente. “Em vez de falar sempre para as mesmas pessoas de Joinville (sede da companhia), eu divulgo informações e discuto assuntos importantes com todos os 2 500 funcionários que estão em 40 cidades”, diz Jorge Steffens, CEO da Datasul. Até questões bastante delicadas, como o ingresso de argentinos e mexicanos na equipe, fruto da internacionalização da empresa, são tratadas com êxito no blog. Nesses cinco meses de utilização, o blog foi mais do que aprovado. “A comunicação melhorou. As pessoas comentam, discutem. O blog virou uma ótima forma de esvaziar boatos”, afirma Steffens.
Doces, orkut e WiMax
Nas relações das empresas com o mundo externo, as ferramentas interativas mostram-se uma fonte de boas surpresas até na menor escala. Zé Doceiro, um dos 7 mil habitantes da mineira Tiradentes, não tinha acesso à internet até a chegada do piloto de WiMax, implantado pela Cisco. Navegando de graça pela web, o pequeno fabricante de guloseimas descobriu o orkut e criou uma comunidade sobre doces. Não demorou muito, começou a receber encomendas de todo canto do país e duplicou seu faturamento. Ponto para a web 2.0.
A história de Zé Doceiro foi parar no Human Network, site de relacionamento criado pela Cisco para coletar histórias sobre o impacto da internet na vida de cada um. O feedback espontâneo levou a subsidiária brasileira a pôr no ar a versão local do site (www.comunidadecisco.com.br), com acréscimos. “Incluímos uma área para a criação de histórias, que funciona como um wiki — quem chega continua o que o anterior escreveu”, diz Marco Barcellos, diretor de marketing da Cisco Brasil. Embora não tenha fins comerciais, o Human Network colabora para reforçar a imagem da marca.
Dentro de casa, a Cisco Brasil não faz feio. Na comunicação rápida, os funcionários usam o instant messenger corporativo desenvolvido pela empresa. Os blogs internos, em processo de validação, estão prontos para estrear. E a newsletter tornou-se colaborativa, baseada na concepção de wiki. “Cada pessoa responsável por sua área escreve o que quer e quando quer. Na sexta-feira, juntamos as colunas e distribuímos na segunda. Até dica de filme tem ali”, diz Barcellos.
Os pitacos online têm dado bons frutos. A Dell resolveu produzir PCs com Linux por sugestão de internautas em seu blog corporativo de acesso externo (direct2dell.com). Para aproveitar a efervescência de idéias dos cidadãos da grande rede, a empresa criou o site IdeaStorm (dellideastorm.com) para recebê-las.
Com a palavra, o podcast
A febre dos podcasts e dos vídeos na internet não passou lotada pelas empresas. Em dezembro, a Amil fez a estréia do Pod.TerSaúde (www.podtersaude.com.br), podcast semanal de entrevistas com médicos sobre temas como bulimia e osteoporose, campeões de acessos. Em maio, a empresa contabilizava 23 programas gravados e mais de 13 mil visitas. Os vídeos de publicidade vão direto para o YouTube.
Os podcasts da Datasul são restritos ao pessoal da casa e não têm periodicidade defi nida. Quando surge alguma ação da concorrência, o podcast é feito no estúdio interno, montado para o e-learning. “Fizemos fora um programa de rádio,com locutor e tudo, sobre argumentações de vendas. Como nem todo o pessoal de campo tem iPod, gravamos em CD para o profi ssional escutar no carro”, diz Jorge Steffens, CEO.
Os webcasts são populares na rede interna da GM Brasil, que registra em vídeo desde treinamento para usar o telefone VoIP até apresentações de relatórios trimestrais. Durante o último Salão do Automóvel, em São Paulo, a cobertura foi feita com vídeos gerados online, transmitidos para a empresa por satélite. Alguns dos vídeos da GM são gravados numa sala da sede, em São Caetano do Sul, e outros, nos estúdios da StreamWorks, em São Paulo. A distribuição é feita à noite, com tecnologia P2P Kontiki, da VeriSign, aos servidores das principais unidades da companhia, e deles para as máquinas dos usuários. Quando o usuário se conecta, recebe o filme no MyGMVideo. “Quando os vídeos ultrapassam 5 GB, os mais velhos vão sendo deletados”, diz Helio Silva.
A vida em jogo
Mais surpreendente do que o uso intensivo de áudio e vídeo na web é o mergulho das empresas no mundo virtual do Second Life. Justifica-se. A versão brasileira, que estreou em abril, registrou nos primeiros 14 dias de operação 66 mil cadastros de usuários novos e comercializou 1,7 milhão de dólares em lindens, a moeda virtual. “Em 12 meses, devemos ter 2 milhões de cadastros do Brasil”, prevê Emiliano de Castro, diretor de marketing da Kaisen, responsável pelo SL regional.
Cada empresa que entra no Second Life sofistica um pouco o jeito de ser vista. A Gillete levou para o mundo virtual o Barbabus, o ônibus que circulou pelo país convidando os baladeiros a se barbearem lá mesmo. No Second Life, o ônibus voa, e o avatar ganha de brinde afagos de exuberantes promotoras. No final da campanha, prevista para 5 de junho, está marcada uma festa que deverá acontecer simultaneamente nos mundos físico e virtual. “As reuniões virtuais alavancam os encontros ao vivo e outras ações no plano físico. Dão sociabilidade aos travados e permitem aprofundar as relações”, diz Romero Tori, professor de Engenharia de Computação da Poli-USP e estudioso do fenômeno Second Life.
A fabricante de motos Sundown conta com isso. A empresa investiu 100 mil reais na abertura de uma concessionária no Second Life e no lançamento de uma moto com cobertura e ar-condicionado que só deverá chegar ao mercado daqui a dois anos. De 4 a 14 de maio, 941 avatares fizeram test-drive com o modelo-conceito. “Eles podem opinar e incluir sugestões de acessórios, além de se cadastrar para encomendar as motos em linha”, diz Antonio Carlos Romanoski, presidente da Brasil & Movimento S.A., dona da marca Sundown Motos. A experiência nos mundos virtuais promete outros impactos sobre as empresas. “A cultura dos jogos vai criar usuários exigentes. Por isso, as interfaces de aplicações corporativas vão se parecer mais com os games. Será normal negociar com uma representação virtual 3D”, prevê o professor Tori.
Aos pequenos, os serviços
Sem capital para aventuras no Second Life, as pequenas empresas têm potencial para aproveitar os serviços web 2.0. Alguns são gratuitos e outros cobram mensalidades camaradas pelo uso. E o pequeno empresário não precisa se preocupar com servidor, banda, equipe de TI e custos de atualização.
Anunciado no final de agosto de 2006, o serviço brasileiro Aprex (www.aprex.com.br) coleciona aplicações criativas de seu conjunto de agenda, calendário com discador VoIP, controle de fluxo de tarefas, bloco de notas, disco virtual, blog, enquetes e, mais recentemente, apresentações, lembretes e e-mail marketing. Possui hoje 11 mil contas e perto de 15 mil usuários e é a base do pacote iG Escritório Online, do iG.
Usuária do Aprex desde a versão beta, a agência de marketing de entretenimento paulistana Dream Factory adotou o sistema, entre outras coisas, para apresentar os projetos para os clientes. Antes, as peças eram enviadas por e-mail num arquivo do PowerPoint. “A mensagem ficava pesada, diferentes pessoas faziam alterações em cópias diferentes e instauravase a bagunça”, diz Felipe Munhoz, diretor de arte da agência. Agora, basta cadastrar o e-mail do cliente para ele entrar, visualizar e modificar em grupo, mantendo tudo documentado, inclusive quem e quando aprovou a peça.
Já a SellMoto, rede de seis lojas de acessórios e assistência técnica para celulares do ABC paulista, faz do Aprex sua intranet há pouco mais de um mês. “Usamos muito o disco virtual para registrar o movimento diário de cada loja. Controlamos o fluxo de tarefas, inclusive as do motoboy, e acionamos o suporte de TI”, diz Eduardo Eloy, dono da rede. A SellMoto contratou 30 contas e as distribuiu por setor e por loja.
Outra plataforma colaborativa é o Peabirus (www.peabirus.com.br), arquitetado por Rodrigo Mesquita, ex-comandante da Agência Estado. No ar desde setembro de 2006, o Peabirus reúne 400 empresas em redes setoriais. A rede Cafés do Brasil, composta de 20 cooperativas e 1 285 participantes, é uma das mais articuladas do serviço. As cooperativas utilizam a plataforma como intranet, extranet e fazem negócios por ali mesmo. “O princípio das redes é esse, o de articular a cadeia de interesses”, diz Mesquita. Alguém duvida?
<p><a href="" rel="bookmark" title="INFO Online">A Web 2.0 vai ao trabalho</a>, Lucia Reggiani, edição de junho de 2007 - Como as novas ferramentas de colaboração transforam os negócios das empresas.
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