SÃO PAULO - As gigantes asiáticas da exportação de serviços começam a conquistar espaço também no mercado brasileiro.
Uma cena ocorrida em Nova York, no escritório de uma grande multinacional, é repleta de simbolismos sobre o que acontece na disputa global pela terceirização de serviços de tecnologia. Um executivo tentava vender as vantagens do Brasil em relação à Índia, dona de mais da metade dos 30 bilhões de dólares em contratos desse tipo assinados em todo o mundo. Sua apresentação era baseada numa cartilha da Brasscom, entidade criada dois anos atrás para promover o mercado nacional como um destino atraente para os sistemas informatizados de companhias internacionais. Além de trabalhar num fuso horário mais conveniente, argumentava o executivo, os programadores brasileiros são criativos e flexíveis e não custam tão mais caro que os indianos. Tudo muito bem, não fosse um detalhe: quem fazia esse discurso era um diretor da Satyam, a quarta maior exportadora de tecnologia da informação da Índia. As gigantes asiáticas não só dominam a terceirização de serviços tecnológicos em escala mundial como agora começam a ampliar sua presença no Brasil. A invasão indiana começou.
Embora os negócios sejam poucos e de baixo valor, o Brasil é sempre apontado como um dos candidatos naturais para o offshoring, como é conhecida a prática de entregar tarefas automatizadas de tecnologia a companhias de países emergentes. Mas as empresas daqui nunca conseguiram transmitir uma imagem de solidez e confiabilidade para os grandes clientes mundiais. Agora, ao que parece, os próprios indianos estão se encarregando disso. A primeira a chegar ao país foi a Tata Consultancy Services (TCS), em 2002. O crescimento da operação brasileira tem sido exponencial. Até o início do ano passado, a TCS tinha 200 funcionários no país. De lá para cá, alguns contrato vultosos, com destaque para o acordo mundial fechado com o banco ABN Amro, fizeram a operação ganhar músculos em tempo recorde. Boa parte dos serviços de programação e manutenção que o banco holandês contratou é feita por aqui. Hoje, a TCS emprega 1 000 profissionais no país, número que deve aumentar 50% nos próximos seis meses. Trata-se da subsidiária que mais cresce em todo o mundo. "Os próprios indianos estão surpresos com os resultados", diz Sérgio Rodrigues, presidente da companhia no Brasil.
O súbito interesse das fornecedoras indianas pelas vantagens brasileiras pegou os potenciais exportadores daqui no contrapé. As grandes empresas brasileiras de desenvolvimento de software sempre tiveram um enorme - e cativo - mercado interno. Quando o sucesso das gigantes da Índia mostrou uma oportunidade nova e infinitamente maior, elas se organizaram para tentar aparecer no cenário mundial. Empresas como Politec, CPM e Stefanini criaram a Brasscom - o nome é copiado da entidade indiana Nasscom -, abriram escritórios de venda em outros países, organizaram missões internacionais e encomendaram um amplo estudo à consultoria AT Kearney para apontar as vantagens competitivas do país diante dos concorrentes asiáticos. Para participar do que o jornalista americano Thomas Friedman chamou de "mundo plano", em que os avanços da tecnologia e das comunicações tornaram as distâncias irrelevantes, as companhias nacionais fizeram de tudo. Ou quase. Só faltou combinar com o adversário.
A Satyam inaugurou um escritório em São Paulo no ano passado e ainda tem presença modesta no mercado nacional, com apenas 50 funcionários. Mas nos próximos meses a empresa indiana abrirá no país sua 21a fábrica mundial de software, o que vai acelerar o crescimento da subsidiária. Ideval Munhoz, que comanda a operação local, espera chegar a "alguns milhares" de funcionários em médio prazo. Wipro e Infosys, as duas outras grandes companhias de TI da Índia, ainda não estão presentes no Brasil, mas a ausência não deve perdurar por muito tempo. No final do ano passado, o diretor de tecnologia de uma grande empresa brasileira, que pediu para não ter seu nome revelado, entrou em contato com as duas fornecedoras durante uma concorrência para terceirizar o desenvolvimento de sistemas. Recebeu como resposta de ambas as empresas a informação de que há, sim, planos concretos para atuar no país. O fechamento de um contrato que exija presença local é tudo o que elas precisam para colocar o processo em marcha.
A presença no Brasil faz todo o sentido para os indianos. Em primeiro lugar, estabelece outro ponto de presença global, mais próximo dos grandes clientes americanos. Em segundo, abre a possibilidade de vender para um grande mercado interno, que complementa as exportações. E, finalmente, permite aprender com os brasileiros a tecnologia de ponta do setor financeiro, uma das áreas em que o país tem domínio técnico, mas é incapaz de vender no exterior por causa do pequeno porte das empresas locais. As maiores fundadoras da Brasscom faturam cerca de 200 milhões de dólares, enquanto a TCS, por exemplo, tem receita anual de 3 bilhões de dólares. Sem tamanho, fica difícil negociar contratos bilionários, que costumam ter duração de até dez anos, com as maiores empresas do mundo. Os clientes querem ter certeza de que estão de mãos dadas com um parceiro sólido. "Não dá para ser pequeno nesse negócio", diz Antônio Carlos Rego Gil, presidente da CPM. Sérgio Rodrigues, da TCS, estima que apenas 10% do trabalho realizado aqui seja composto de acordos fechados no exterior e enviados ao país, mas ressalta que esse percentual vai aumentar muito nos próximos anos. Ele não inclui nessa conta contratos como o do ABN Amro, que foi costurado com participação direta da subsidiária nacional da TCS, mas que jamais seria fechado sem a estrutura e o renome mundial da empresa indiana.
OUTRA PREOCUPAÇÃO É GEOPOLITICA. Os grandes clientes têm um receio cada vez maior em relação à segurança e à continuidade dos serviços. Ao distribuir suas funções de tecnologia em mais de um país, diluem riscos como guerras, desastres naturais ou até mesmo falhas no abastecimento de energia. Por fim, o crescimento vertiginoso dessas atividades está levando a um aumento dos salários dos técnicos indianos e a uma taxa de troca de emprego muito elevada. De certa maneira, a Índia já começa a sofrer com o próprio sucesso. O negócio do offshoring exige intensa utilização de profissionais qualificados - recurso que o país tem em abundância, mas que mesmo lá não é ilimitado. Recente estudo da consultoria McKinsey afirma que, se os trabalhos de offshore mantiverem a atual taxa de expansão, dentro de cinco anos o gigante asiático terá déficit de 150 000 engenheiros com as qualificações necessárias para atender aos requisitos dos exigentes clientes americanos e europeus. A infra-estrutura também dará sinais de fadiga.
Não faltam razões, portanto, para a chegada dos indianos ao Brasil. O que as companhias nacionais acham disso? Há, claro, boa dose de preocupação com a nova concorrência. As rivais do Oriente levam vantagem em questões importantíssimas, como reconhecimento internacional, recursos financeiros e certificações técnicas. Por outro lado, a chegada dessas empresas é um atestado de que o país tem, de fato, condições de ser um centro de prestação de serviços tecnológicos para os mercados desenvolvidos. "A TCS está provando a nossa tese", diz Ricardo Saur, diretor executivo da Brasscom. Além disso, as companhias nacionais vislumbram a oportunidade de firmar parcerias com as indianas em determinados contratos. A Satyam, por exemplo, mantém conversações com a brasileira Stefanini para utilizar sua ampla estrutura na América Latina como apoio a contratos que exigem presença em toda a região. Ram Mynampati, presidente da Satyam para as Américas, acredita que outro aspecto positivo da invasão indiana é a chegada de melhores práticas de desenvolvimento de software, o que contribui para o amadurecimento do mercado local. E vale lembrar que a maioria das empresas nacionais de serviços de TI também cresce rapidamente - taxas de expansão de dois dígitos não são privilégio exclusivo dos asiáticos. Mas, por mais bem-sucedidas que sejam, de agora em diante as fornecedoras brasileiras terão de enfrentar uma realidade menos confortável. Enquanto começavam a se organizar para tentar equilibrar um pouco a balança mundo afora, as rivais se instalaram no seu quintal.