SÃO PAULO - A produção de software cresce no país e assume o papel das tradicionais linhas de montagem.
Mauri Morina não se queixa de seguir uma rotina quase sem variações. Pudera. Apesar da pouca idade - seus 22 anos estão patentes na cara de garoto com brinco na orelha e sorriso despreocupado -, ele não só tem um emprego fixo como ganha mais do que a média da população brasileira. Morina é funcionário de uma fábrica muito especial, que não usa parafusos nem solda: uma fábrica de software. Ele é programador no centro de desenvolvimento que a Stefanini IT Solutions montou em Alphaville, na Grande São Paulo, para atender o Bradesco, um de seus principais clientes. Todos os dias, Morina liga seu computador às 8 horas da manhã e começa a digitar uma infinidade de linhas de código - uma seqüência de números e caracteres que para um leigo faz tanto sentido quanto grego. Como fios que costuram uma roupa, essas linhas indecifráveis, juntas, darão origem a um sistema coeso, como um internet banking, por exemplo. Dessa mesma maneira são feitos os programas que controlam as chamadas telefônicas das operadoras, administram a frota de uma companhia aérea ou organizam o fluxo de pedidos de uma siderúrgica. Sistemas são essenciais para companhias de todos esses setores, mas desenvolver linhas de código não é a atividade principal de nenhuma delas. À medida que as empresas terceirizam essa função, fornecedores especializados, como a Stefanini, contratam mais e mais gente.
Por enquanto, a demanda doméstica tem sido o bastante para que a atividade de desenvolvimento de software cresça vigorosamente no Brasil. Mas esse pode ser apenas um tira-gosto do que vem pela frente se o país conseguir firmar-se como um pólo global para exportação de serviços tecnológicos. A matemática é simples: o mercado interno de terceirização de tecnologia gira 6 bilhões de dólares ao ano, enquanto o volume negociado mundialmente é de 700 bilhões. Desse total, cerca de 50 bilhões de dólares são pagamentos por trabalhos que empresas americanas e européias encomendam a fornecedores localizados fora de suas fronteiras. É a terceirização offshore, que cresce 40% anualmente. Foi isso que alçou a Índia à condição de potência tecnológica em menos de uma década. Agora há uma oportunidade para outros países entrarem na festa. Multinacionais que despacharam trabalhos demais para a Índia começam a mostrar certa insegurança. A tendência é espalhar os contratos entre três ou quatro regiões geográficas distintas, diluindo os riscos. "Quando uma companhia americana pensa em diversificar o desenvolvimento de sistemas, o Brasil aparece como uma alternativa natural", diz David Shpilberg, ex-diretor mundial de tecnologia do banco Goldman Sachs que se juntou ao conselho da CPM Braxis, uma das maiores fornecedoras nacionais de serviços tecnológicos.
Produzir software sob encomenda é uma atividade menos glamourosa do que muita gente imagina. O grosso da mão-de-obra, os programadores, são jovens na faixa dos 20 anos. O trabalho é repetitivo e nem sempre requer criatividade. Sentados em baias e munidos de computadores simples, eles passam o dia inteiro digitando os códigos que construirão ou atualizarão os sistemas dos clientes. A produção é organizada como numa linha de montagem: ao cumprir uma etapa, o programador passa o serviço adiante e pega a próxima tarefa. É comum que esses profissionais nem saibam exatamente para que serve o software que estão criando, porque o desenvolvimento é quebrado em vários pedaços e distribuído entre equipes diferentes, que não têm uma visão abrangente do projeto. É como se cada uma delas recebesse instruções para desenhar uma peça de um quebra-cabeça sem saber como é a imagem completa. A remuneração não é muito diferente do que se paga numa unidade fabril tradicional. A média de salários das montadoras automobilísticas da região do ABC paulista é 3 666 reais, segundo informações do sindicato dos metalúrgicos local. O salário inicial fica em torno de 1 000 reais e, após vários anos de carreira, pode chegar a pouco mais de 5 000 reais. Numa fábrica de software nos arredores de São Paulo, um programador júnior ganha entre 1 000 e 2 000 reais; um pleno, até 3 000 reais; e um sênior, por volta de 4 000 reais. Um funil estreito separa essa grande base dos poucos que chegarão a posições de comando, como coordenadores e gerentes.
O ritmo é puxado. Na unidade onde Mauri Morina atua, as especificações de códigos a ser desenvolvidos chegam por meio de um link dedicado entre a Stefanini e o Bradesco. Um sistema interno chamado e-Fábrica controla o recebimento e o andamento dos serviços. A cada tarefa executada, o programador precisa notificar no e-Fábrica o que foi feito. No final do mês, a empresa tem um levantamento detalhado de quanto cada profissional produziu. Há metas de produtividade para as fábricas. Quando são superadas, um sino é tocado. Silêncio por ali não é um bom sinal. Duas vezes por ano, a Stefanini premia os profissionais que se destacam. Dentro da fábrica há o aplauso do mês - os funcionários brindam com uma salva de palmas os colegas mais votados por eles mesmos. São maneiras de quebrar o clima árido de trabalho nessa verdadeira linha de montagem de bits e bytes.
Talvez não haja glamour algum nessas coisas, mas não faltam motivos pelos quais essa atividade deveria ser vista como estratégica para o Brasil. A área tem se mostrado pródiga em atrair investimentos e é uma das razões que levaram fornecedores como IBM e Accenture a aumentar a aposta no mercado nacional. Há também projetos brasileiros, como a CPM Braxis, que, com apenas um ano de vida, reúne 5 000 funcionários, deve faturar algo próximo a 1 bilhão de reais no atual exercício e é séria candidata a abrir capital na Bovespa em médio prazo. Além disso, trata-se de um segmento com enorme capacidade de gerar empregos -- e gerá-los rapidamente. Juntas, as dez maiores companhias do setor empregam mais de 40 000 pessoas no país. "É preciso pelo menos dois anos para estabelecer uma montadora, enquanto uma fábrica de software está de pé em seis meses", diz Chu Tung, presidente da subsidiária brasileira da EDS, uma das gigantes americanas de serviços tecnológicos. Por mais que o trabalho de programação seja repetitivo, ainda é extremamente atraente para muita gente. A carreira é abraçada sobretudo por jovens das classes C, D e E, que enxergam uma oportunidade de alcançar uma renda razoável em poucos anos. Trata-se de um trabalho mais sofisticado e mais bem remunerado que o de um atendente de call center, por exemplo. "Num país como o Brasil, essa é uma atividade que puxa a média para cima, não para baixo", diz Jair Ribeiro, presidente da CPM Braxis.
O momento é promissor, mas há algumas nuvens carregadas no horizonte. A falta de mão-de-obra qualificada é uma delas. Nesse mercado, o fechamento de um grande contrato pode significar a abertura de centenas de vagas da noite para o dia. O melhor exemplo disso é a subsidiária nacional da indiana Tata Consultancy Services (TCS), que triplicou de tamanho quando a matriz ganhou um contrato milionário do banco holandês ABN Amro. Hoje, dos 1 600 funcionários brasileiros da TCS, 900 são dedicados ao banco. "Precisamos de tantos profissionais qualificados quantos pudermos encontrar", diz Sérgio Rodrigues, presidente da TCS no país. A brasileira BRQ tem 500 vagas em aberto, situação que se repete na CPM Braxis. Na subsidiária brasileira da Accenture, há cerca de 800 postos não preenchidos no momento. "Está todo mundo desesperado atrás de mão-de-obra", afirma Paulo César Bonucci, presidente da subsidiária da Unisys, que emprega mais de 700 pessoas - cerca de um terço de seu contingente - em fábricas de software. Essa situação gera alguns efeitos colaterais. Estima-se que os salários de programadores subam em média 8% ao ano no mercado nacional. Há sempre propostas de concorrentes rondando, o que leva a rotatividade nessas empresas a cerca de 10% anuais. São números que tiram o sono dos empresários do ramo, mas ainda parecem uma calmaria em relação ao que ocorre na Índia: lá, os salários sobem 18% e a taxa de demissão voluntária beira os 25% ao ano.
No Brasil, o maior gargalo é a escassez de programadores com inglês fluente, um pré-requisito para quem quer exportar serviços. Algumas empresas chegam a procurar funcionários em escolas de idiomas. "Aprender a programar é mais fácil do que falar outra língua fluentemente", diz Humberto Luiz Ribeiro, vice-presidente da Politec, empresa de serviços de tecnologia com sede em Brasília. A preocupação faz sentido. A CPM Braxis, por exemplo, tem forte presença nos Estados Unidos. A Politec atende a Mitshubishi no Japão e também tem contratos no mercado americano. Quase 20% do faturamento da Stefanini já vem de fora do Brasil. Um terço de tudo o que a Accenture desenvolve em Alphaville destina-se ao mercado externo. O centro que a IBM mantém em Hortolândia, no interior de São Paulo, uma das instalações mais modernas do país, atende dezenas de clientes sediados em nações que falam inglês, espanhol e francês.
Mas a principal queixa dos empresários é o custo de contratação de profissionais no mercado brasileiro, que fica em média 30% acima do verificado na Índia. A mão-de-obra responde por 2 de cada 3 reais gastos para manter uma fábrica de software. Os representantes do setor pedem medidas de incentivo ao governo, argumentando que agora é o momento de criar condições para o país posicionar-se como uma alternativa à Índia. Se o Brasil não fizer isso, outras nações ocuparão o vácuo rapidamente. É claro que Mauri Morina não pensa nessas coisas quando chega à fábrica de software da Stefanini, em Alphaville, com um dia de trabalho pela frente. Sua cabeça está nas oportunidades que a carreira lhe reserva ou em como gastar seu próximo salário. Pensamentos que podem ser compartilhados por centenas de milhares de outros jovens brasileiros dentro de alguns anos - se mais essa oportunidade histórica não for perdida.
Quem é o operário da programação
Conheça o perfil dos programadores que trabalham nas fábricas de software
Idade média: A maioria dos profissionais são jovens entre 20 e 30 anos, mas alguns tipos de tecnologia exigem a presença de programadores seniores
Formação: Há desde pessoas formadas em faculdades de engenharia ou ciências da computação até profissionais que fizeram apenas um curso técnico de programação
Salário inicial: Varia de acordo com a região. Em São Paulo, onde a remuneração é mais alta, um programador júnior ganha cerca de 1 000 reais por mês
Teto salarial: Varia de acordo com a região e a especialização do profissional, mas raramente ultrapassa 6 000 reais.Acima disso só para quem assume funções gerenciais ou comerciais
| Ainda falta tamanho |
| As maiores fornecedoras nacionais de serviços de tecnologia ainda são muito menores que as líderes indianas |
| Empresas brasileiras |
| | CPM/Braxis | Politec | Stefanini |
| Faturamento em dólares | 400 milhões | 250 milhões | 200 milhões |
| Número de funcionários | 5 000 | 6 000 | 4 000 |
| Empresas indianas |
| | TCS | Infosys | Wipro |
| Faturamento em dólares | 4 bilhões | 3,1 bilhões | 3 bilhões |
| Número de funcionários | 95 000 | 72 000 | 68 000 |
Portal EXAME
<p><a href="" rel="bookmark" title="INFO Online">Fábricas de informação</a>, Ricardo Cesar, da Exame - SÃO PAULO - A produção de software cresce no país e assume o papel das tradicionais linhas de montagem.
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