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Revolução da banda larga pelo ar
Quarta-feira, 28 de junho de 2006 - 14h52
Germano Luders |  | Coutinho, da Neovia: cortando os fios |
SÃO PAULO - Em operadoras de telefonia, exercícios de futurologia não são apenas passatempo de executivos paranóicos - são uma obrigação do negócio. Embora poucas estejam prontas para admitir, um dos cenários que mais preocupam as telefônicas é o da expansão do acesso sem fio à internet.
Houve um tempo em que a possibilidade de cobrir uma metrópole como São Paulo com acesso sem fio era uma idéia que existia apenas na cabeça de uns poucos visionários tecnológicos. Hoje, tornou-se uma possibilidade real. O padrão de transmissão WiMax, desenvolvido por um consórcio mundial, está tomando a forma final e promete causar mudanças profundas no mundo das telecomunicações. Operadoras fixas terão um competidor formidável na oferta de acesso em alta velocidade, ou banda larga, como se diz no jargão. Empresas celulares poderão ver o fenômeno da telefonia pela internet - pense no Skype - chegar aos aparelhos móveis. Sem falar na competição direta com as redes de terceira geração, desenhadas e construídas a um custo bilionário justamente para transmitir dados e oferecer acesso à internet. O discurso oficial das grandes telefônicas é que tudo isso não passa de mais um delírio de gurus da tecnologia. Mas, secretamente, todas sabem que esse devaneio pode se transformar numa ruptura importante em seus modelos de negócio.
A tecnologia WiMax é uma evolução das redes WiFi. Tem alcance maior (medido em quilômetros, enquanto as redes WiFi costumam ficar limitadas a 100 metros) e, numa diferença fundamental, operam em faixas do espectro que estão sujeitas à regulamentação. Isso significa que um operador WiMax compra uma licença de uso e, assim, tem uma barreira de entrada importante contra concorrentes, além de garantias de que seu sinal estará menos sujeito a interferências. Em termos práticos, porém, trata-se ainda de um sistema recém-nascido. Parte das definições técnicas foi concluída no fim do ano passado, e ainda há outra rodada de padronização em andamento. Só agora começam a aparecer equipamentos de fabricantes diferentes capazes de conversar entre si, condição fundamental para que a tecnologia decole. Apesar disso, os investimentos seguem em ritmo acelerado em todo o mundo. O Brasil tem uma das maiores operações mundiais baseadas na tecnologia WiMax. Trata-se da Neovia, fundada em 2002 por Marcio Camargo, ex-funcionário do banco de investimentos Garantia. A empresa nasceu oferecendo cobertura na cidade de São Paulo e, no fim do ano passado, adquiriu a Directnet, outro provedor de acesso que atua nos principais municípios do interior paulista. Em pouco menos de quatro anos, a Neovia já recebeu cerca de 25 milhões de reais de capitalistas de risco. Tem entre seus sócios os fundos Stratus, DGF e Intel Capital, o braço investidor da fabricante de chips, além de um grupo de acionistas individuais.
Os números da Neovia ainda são modestos. A empresa atende cerca de 35 000 clientes, somente no estado de São Paulo, e deve terminar o ano com 50 000 (os sócios não revelam o faturamento). Só para comparar, a Net, empresa de TV paga do grupo Telmex, tem dez vezes mais assinantes em seu serviço de internet rápida. A Telefônica tem 1,3 milhão de clientes de seu serviço Speedy. Mas a aposta da Neovia é que a tecnologia sem fio possa ser uma alternativa real aos consumidores. Hoje, para ter acesso em banda larga à internet é preciso que algum tipo de cabo chegue até a casa ou a empresa. Pode ser o fio do telefone ou o cabo da TV paga. Isso, no mundo das telecomunicações, se chama última milha e representa um custo enorme para a oferta de serviços. É por isso que o WiMax desperta tanto interesse. Numa cidade como São Paulo, com altíssima densidade demográfica, é possível cobrir um raio de até 3 quilômetros com uma única antena. O investimento é infinitamente mais baixo - e a comodidade para o assinante, maior. "Imagine um profissional liberal. Hoje, ele tem uma conta no escritório e outra em casa. Isso vai mudar", diz Mauricio Coutinho, presidente da Neovia desde o início do ano. "Com uma única conta, ele vai poder acessar o serviço onde quer que esteja."
Essa vantagem é apenas teórica por enquanto. Hoje a empresa precisa instalar antenas em edifícios que tenham, no mínimo, dez condôminos. Modems individuais, capazes de receber o sinal sem fio diretamente da rede, começam a ser comercializados no segundo semestre. Mas o verdadeiro impulso virá quando os computadores saírem de fábrica já com chips capazes de conectar-se com as redes WiMax (como ocorre hoje com os laptops, que vêm com a conexão WiFi, de curta distância, já embutida). Isso significa que todos os computadores vendidos serão potenciais assinantes da Neovia, sem necessidade de compra ou aluguel de equipamentos adicionais e com possibilidade de conectar-se à rede de qualquer ponto onde haja cobertura. "Vai haver uma mudança importante no nosso modelo", diz Coutinho. "Em vez de vender para edifícios, teremos de buscar os clientes individuais, o que significa um investimento maior em marketing."
Além da concorrência com as operadoras que hoje vendem banda larga, a tecnologia WiMax pode representar um incômodo para as operadoras de celulares. Espera-se que até o próximo ano já seja possível manter-se conectado à rede mesmo durante um deslocamento - dentro de um táxi, por exemplo. É claro que a necessidade de conexão contínua pode ser dispensável, no caso de um laptop. Mas basta pensar em celulares e palmtops que possam interagir com a rede WiMax e o cenário muda - e muito. A Nokia anunciou em maio seus primeiros modelos que acessam tanto a rede de telefonia celular quanto a internet diretamente, via WiFi. Ou seja, é possível fazer chamadas usando serviços como o Skype, que oferecem telefonemas gratuitos. A Siemens desenvolve um celular capaz de detectar as redes disponíveis e completar a chamada pela opção mais barata - ou, melhor dizendo, de graça. Martin Bross, diretor de tecnologia da British Telecom, afirmou enxergar o dia em que todas as chamadas móveis serão de graça. Para as operadoras européias, que investiram 80 bilhões de dólares para comprar licenças e montar suas redes de terceira geração, a perspectiva não é nada animadora. Esse dia, porém, ainda está distante. "Não vejo uma ameaça direta da Neovia em dois ou três anos", diz Roberto Ugolini Neto, presidente da Vex, empresa que mantém uma rede de 800 pontos de acesso WiFi em hotéis, restaurantes e aeroportos. "Ainda há questões tecnológicas a resolver, e lembre-se de que todas as grandes operadoras também estão estudando o WiMax."
A Neovia não tem nem sequer planos de erguer redes fora do estado de São Paulo, ao menos por enquanto. Mas já vislumbra uma possível abertura de capital na Bovespa. "Não vejo por que uma empresa do porte da Neovia não possa ser pública", diz Álvaro Gonçalves, do Stratus, primeiro fundo a apostar na empresa. A Clearwire, companhia americana que tem um modelo semelhante ao da Neovia, deve fazer sua oferta pública inicial na Nasdaq em junho. A empresa já recebeu mais de 700 milhões de dólares em investimentos e planeja levantar outros 400 milhões no IPO. Muito está investido no futuro do WiMax - agora é esperar para ver quem fez as previsões corretas.
| Desplugado, mas conectado | | Entenda as diferenças entre os sistemas de acesso sem fio à rede | | | Pontos positivos | Pontos negativos | | WiFi | - É o sistema mais difundido do mundo e já vem integrado à maioria dos laptops - A instalação de pontos de acesso tem baixo custo | - Tem alcance limitado (cerca de 50 metros) e ainda há questões de segurança - Os pontos de acesso, no Brasil, ainda estão restritos a hotéis, aeroportos e cafés | | WiMax | - Tem alcance maior que o WiFi, de cerca de 5 quilômetros - Pode cobrir uma cidade inteira com investimento relativamente baixo | - O padrão técnico ainda não permite deslocamento sem perda de conexão - Há poucos equipamentos de acesso disponíveis, e os preços são altos | | Redes celulares | - Oferecem mobilidade real e possibilidade de deslocamento sem perda de conexão - Têm cobertura em quase todo o território nacional | - As redes atuais não foram desenhadas para o tráfego de dados e ainda têm velocidades baixas - Não há perspectiva para a venda de licenças e a construção das redes de terceira geração |
Portal EXAME
Sérgio Teixeira Jr., da EXAME
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